Cardiologia por Diretrizes

Livro de revisão · Material de estudo

Cardiologia por Diretrizes

Trinta e um capítulos condensados — SBC · ESC · ACC/AHA

Dr. Hugo Benchimol

Compilado em julho de 2026 · Coleção ESTUDOS

Nota. Este é um material de estudo pessoal, construído a partir dos resumos comparativos da própria coleção. Cada capítulo é uma condensação do resumo original — definição, diagnóstico, tratamento e, sobretudo, as divergências entre ESC, ACC/AHA e SBC e as zonas cinzentas. Não substitui a leitura integral das diretrizes: classes de recomendação, níveis de evidência, cortes numéricos e doses devem ser conferidos nos documentos originais antes de qualquer decisão clínica. Ao fim de cada capítulo há o link para o resumo completo correspondente.

Sumário

Parte I — Doença Coronariana

1 · Síndrome Coronariana CrônicaSBC 2025 · ESC 2024 · ACC/AHA 2023
2 · Síndrome Coronariana AgudaESC 2023 · ACC/AHA 2025 · SBC 2021/2015
3 · MINOCAAHA 2019 · ESC · SBC
4 · Vasoespasmo Coronariano e ANOCA/INOCACOVADIS · JCS 2023 · ESC 2024

Parte II — Insuficiência Cardíaca

5 · IC com Fração de Ejeção ReduzidaSBC/PCDT · ESC 2021-23 · ACC/AHA 2022
6 · IC com Fração de Ejeção PreservadaESC 2023 · ACC/AHA 2022 · SBC
7 · CDI, TRC e Transplante CardíacoDCEI-SBC 2023 · ESC 2021 · ISHLT

Parte III — Valvopatias e Próteses

8 · Valvopatias — panorama das quatro valvasESC/EACTS 2021 · ACC/AHA 2020 · SBC
9 · Estenose Aórtica Grave: SAVR × TAVIACC/AHA 2020 · ESC 2021 · EARLY TAVR
11 · Endocardite InfecciosaESC 2023 · Duke-ISCVID · AHA · SBC
12 · Febre ReumáticaJones 2015 · WHF · SBC

Parte IV — Arritmias e Dispositivos

14 · Fibrilação AtrialSBC 2025 · ESC 2024 (AF-CARE) · ACC/AHA/ACCP/HRS 2023

Parte V — Miocárdio e Pericárdio

16 · MiocarditesSBC 2022 · ESC 2025 · ACC 2024
17 · Doenças do PericárdioESC 2025 · SBC · AHA
18 · Amiloidose CardíacaSBC 2021 · ESC 2021 · ACC 2023/2025
19 · Cardiomiopatia HipertróficaSBC 2024 · AHA/ACC 2024 · ESC 2023
20 · Cardiopatias GenéticasESC 2023 · AHA/ACC 2024 · SBC
21 · Doença de Chagas CardíacaSBC 2023 · OPAS/WHO · AHA 2018

Parte VI — Aorta e Circulação Pulmonar

22 · Doenças da AortaESC 2024 · ACC/AHA 2022 · SBC
23 · Hipertensão PulmonarESC/ERS 2022 · SBC
24 · Tromboembolismo Venoso e TEPAHA/ACC 2026 · ESC 2019 · CHEST 2021

Parte VII — Fatores de Risco e Prevenção

25 · Hipertensão Arterial SistêmicaSBC 2020 · ESC 2024 · ACC/AHA 2017
26 · Dislipidemia e Prevenção CVESC 2019/21 (upd. 2025) · ACC/AHA 2018 · SBC
27 · Apneia do Sono e CoraçãoAHA 2021 · ESC · SBC

Parte VIII — Condições Especiais

28 · Cardio-oncologiaESC 2022 · SBC · ACC
29 · Cardiologia do EsporteESC 2020 · AHA/ACC · SBC
30 · Cardiopatia Congênita no AdultoESC 2020 · ACC/AHA 2025 · SBC/SBP
31 · Persistência do Canal ArterialAAP 2025 · ESC 2020 · ACC/AHA 2025

Parte I

Doença Coronariana

Capítulo 1

Síndrome Coronariana Crônica

Diretrizes de referência

  • SBC 2025 — Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619. Substitui a antiga diretriz de DAC estável.
  • ESC 2024 — Chronic Coronary Syndromes. Eur Heart J. 2024;45(36):3415-3537. Modelo RF-CL · ANOCA/INOCA · colchicina.
  • ACC/AHA 2023 — Chronic Coronary Disease. Circulation. 2023;148(9):e9-e119. Substitui "stable ischemic heart disease".

Definição e nomenclatura

Os três documentos abandonaram o termo "doença estável": a aterosclerose coronariana é um processo dinâmico, com fases silenciosas longas e momentos de agudização. A SBC publicou diretriz própria em 2025 e adotou "síndrome coronariana crônica", alinhando-se à ESC. A ACC/AHA usa "chronic coronary disease" — foca a patologia, não a estabilidade do sintoma.

O alvo também se ampliou: não basta procurar estenose epicárdica. Num estudo com quase 400 mil pacientes levados a coronariografia eletiva, apenas 41% dos que tinham isquemia funcional apresentavam DAC obstrutiva (dado citado pela SBC 2025). Disfunção microvascular e vasoespasmo (ANOCA/INOCA) explicam boa parte da angina com coronárias "limpas".

Probabilidade pré-teste

  • ESC 2024: estimar pelo modelo RF-CL (probabilidade clínica ponderada por fatores de risco) — I B; refinar com dados clínicos adicionais (I C). Impacto: o RF-CL classifica quase metade dos avaliados como probabilidade muito baixa (≤5%), contra apenas 19% pelo modelo ESC 2019 — muito mais gente sai sem exame.
  • SBC 2025: usar o modelo com o qual o examinador esteja mais familiarizado. Faixas: <5% não investigar; 5–15% individualizar; 15–85% teste funcional ou anatômico; >85% estratificação invasiva.
  • ACC/AHA 2023: não impõe modelo único. Contra-recomendação forte: não repetir testes de rotina em paciente estável assintomático (3: sem benefício).
Divergência 1 — como estimar a chance

O mesmo paciente pode ser "muito baixa probabilidade, sem exame" pela ESC e "5–15%, individualizar" pela SBC. A ESC ponderou a probabilidade por fatores de risco e por isso dispensa exame em muito mais gente; a SBC não adotou o RF-CL como obrigatório.

Escolha do exame não invasivo

Regra de ouro comum: angio-TC para excluir DAC obstrutiva (alto valor preditivo negativo); teste funcional para correlacionar sintoma com isquemia e guiar revascularização.

  • ESC 2024: angio-TC na probabilidade >5–50% (I A); eco de estresse e SPECT/PET (preferencialmente PET) na faixa >15–85% (I B); RM de perfusão (I). Holter na suspeita de angina vasoespástica (IIa B). O teste ergométrico praticamente saiu como ferramenta diagnóstica de 1ª linha.
  • SBC 2025: teste ergométrico mantido — I C para capacidade funcional, arritmia e resposta pressórica; IIb como alternativa diagnóstica quando imagem não invasiva não está disponível. Escore de cálcio I para reestratificar assintomático de risco intermediário e HF heterozigótica.
  • ACC/AHA 2023: aceita via anatômica ou funcional, sem hierarquia rígida; o exame só se justifica se mudar a conduta.
Alto risco em teste não invasivo (SBC 2025)

Escore de Duke < −10 no TE · isquemia reversível ≥10% da massa do VE na cintilografia · alteração contrátil induzida em ≥3 de 16 segmentos ao eco de estresse · isquemia induzida ≥2 segmentos à RM · lesão de tronco, triarterial com lesões proximais ou DA proximal na angio-TC/CATE.

Viabilidade pela RM: realce tardio <25% → revascularizar; 25–50% → avaliar reserva contrátil antes; >50% → sem benefício.

Antiagregação

  • ESC 2024: em SCC com IAM prévio ou ICP, clopidogrel 75 mg/dia é alternativa plena ao AAS (I A), apoiado na metanálise PANTHER. Pós-CRM: AAS vitalício (I A). Dupla via (AAS + rivaroxabana 2,5 mg 12/12h) no alto risco isquêmico sem alto risco hemorrágico (IIa); risco moderado (IIb). DAPT pós-ICP eletiva: 6 meses padrão, 1–3 meses se alto risco hemorrágico.
  • SBC 2025: AAS 100 mg se IAM/revascularização prévios (I A); clopidogrel como alternativa, com efeito "no mínimo similar", preferido em DAP ou AVC isquêmico prévio (I B). AAS na DAC sem IAM/revascularização: IIb. Pós-ICP: AAS (I A) + clopidogrel ≥6 meses (I A); ≥3 meses se alto risco de sangramento (IIa).
  • ACC/AHA 2023: AAS 75–100 mg como padrão (1); clopidogrel na intolerância. Rivaroxabana 2,5 mg + AAS no alto risco isquêmico (2a).
Divergência 2 — clopidogrel em monoterapia

ESC: I A (pode trocar). SBC: I B (perto disso). ACC/AHA: AAS segue padrão, clopidogrel na intolerância (troque se precisar). É a diferença entre "pode trocar" e "troque se precisar".

Terapia de base

EixoSBC 2025ESC 2024ACC/AHA 2023
Alvo de LDL<50 mg/dL + ↓≥50%; <40 se re-evento <2 anos<55 mg/dL + ↓>50% (I A)Sem meta; limiar 70 mg/dL para intensificar (2a)
ColchicinaIIbIIa A2b
iSGLT2 / GLP-1No DM2, prevenção secundáriaiSGLT2 no DM2 (I A), independe da HbA1c1 — inclusive em alguns sem diabetes; iSGLT2 se FEVE ≤40% independente de DM
IECA/BRA de rotinaIIa se rotina; I se disfunção/IC/DMSe HAS, DM, IC, disfunção de VE1 se HAS, DM, FEVE ≤40%, DRC
AntianginososSem 1ª/2ª linha — individualizarSem 1ª/2ª linha (I C)Mantém betabloqueador como inicial
Divergências 3 e 4 — LDL e colchicina

LDL: a diretriz brasileira é a mais agressiva das três (<50); a americana é a única que evita fixar um número-alvo. Colchicina: ESC IIa A (a mais entusiasta) · SBC IIb · ACC/AHA 2b. A ESC tomou posição antes do CLEAR SYNERGY (OASIS-9), que veio depois e foi neutro no pós-IAM.

Betabloqueador — as três convergem, com nuances

A SBC 2025 cita o REDUCE-AMI: sem benefício no pós-IAM com FEVE >50%. Mantém a indicação como antianginoso e na disfunção ventricular. A ACC/AHA é a mais explícita: não usar de rotina, a longo prazo, apenas para melhorar desfecho, em paciente >1 ano pós-IAM sem FEVE ≤50% e sem outra indicação (2b). Não é "suspender sempre": é reavaliar.

Terapia anti-isquêmica e revascularização

ESC 2024 e SBC 2025 abandonaram a categorização em drogas de 1ª e 2ª linha — individualizar pelo mecanismo da isquemia. A ACC/AHA 2023 ainda mantém o betabloqueador como primeiro degrau. Pelo endótipo: FC alta/pós-IAM/disfunção → betabloqueador (ou ivabradina); vasoespasmo → antagonista de cálcio + nitrato, evitando betabloqueador não seletivo; disfunção microvascular → betabloqueador, IECA, estatina, ranolazina.

O ISCHEMIA fixou o princípio. Na letra da ESC 2024: em pacientes com SCC, função de VE normal e sem lesão significativa de tronco ou de DA proximal, a revascularização, sobre a terapia médica otimizada isolada, não prolonga a sobrevida global. E: em DAC multiarterial complexa sem tronco, particularmente no diabético, a evidência indica maior sobrevida com CRM do que com ICP.

  • Tronco: CRM é o modo preferencial (ESC I); ICP é alternativa aceitável no tronco de baixa complexidade (SYNTAX ≤22).
  • SBC 2025 — CRM: multiarterial com DA e SYNTAX >23, multiarterial + disfunção de VE, lesão de tronco. ICP: controle de sintomas, multiarterial de menor complexidade, tronco de menor complexidade, estenose com repercussão de fluxo aferida invasivamente.
  • Fisiologia invasiva: FFR ≤0,80 / iFR ≤0,89 antes de revascularizar lesões intermediárias (ESC I; SBC enfática no mesmo sentido). Imagem intracoronária (IVUS/OCT) em tronco, bifurcação verdadeira e lesão longa: ESC I A.
  • FEVE ≤35%: decisão pelo Heart Team (ESC I C). A SBC usa a FEVE ≤35% como um dos gatilhos que impedem a estratégia conservadora inicial.

ANOCA / INOCA

Metade dos suspeitos de SCC pode ter ANOCA/INOCA. Diante de angina + isquemia sem lesão obstrutiva (>50%), o CATE sozinho não fecha o diagnóstico. Cortes do fluxo invasivo, adotados por ESC e SBC: FFR <0,80 (exclui obstrução funcional) · RFC <2,0 (a ESC também trabalha com 2,5) · IMR ≥25 · acetilcolina para vasoespasmo. Angina vasoespástica isolada: antagonista de cálcio I A (ESC).

Zonas cinzentas

Onde a diretriz cala, hesita ou se contradiz
  • Clopidogrel I A com base em metanálise. O PANTHER é metanálise de dados individuais, não um RCT dedicado cabeça a cabeça. Trocar todo mundo de AAS para clopidogrel é defensável pela ESC, mas não é consenso — e no Brasil há custo e aderência.
  • Meta de LDL: <50, <55 ou sem meta? A crítica americana é que nenhum RCT randomizou pacientes para alvos numéricos — os ensaios randomizaram drogas. Onde importa de verdade: um LDL de 60 mg/dL merece iPCSK9? Pela SBC, sim; pela ACC/AHA, não.
  • Colchicina — a IIa da ESC envelheceu mal. LoDoCo2 e COLCOT positivos; CLEAR SYNERGY (OASIS-9), o maior, neutro no pós-IAM. Posição defensável: reservar ao risco inflamatório residual documentado (PCR-us persistentemente elevada) com LDL no alvo.
  • Revascularização na FEVE ≤35%. O ISCHEMIA excluiu esses pacientes. Restam STICH (benefício tardio da CRM) e REVIVED-BCIS2 (ICP não superou terapia médica). A ESC resolve com recomendação processual (Heart Team, I C) em vez de resposta clínica.
  • ICP para alívio sintomático. ORBITA (sham) não mostrou ganho; ORBITA-2 (sem antianginosos) mostrou melhora real. O benefício existe, mas é menor do que a prática sugere e se dilui em quem já está bem medicado.
  • Angio-TC como porteiro universal. Acha ateromatose não obstrutiva em muita gente e dispara cascata. A SBC foi mais cautelosa no risco baixo.
  • Teste ergométrico: relíquia ou ferramenta? A SBC o preservou porque a capacidade funcional em METs é variável prognóstica de grande impacto — e porque grande parte do Brasil não tem PET, RM de estresse ou angio-TC. Zona cinzenta de recursos, não de ciência.
  • AAS + anticoagulante na DAC crônica. O ensaio AQUATIC (2025) mostrou que, em SCC já stentado e em anticoagulação crônica, acrescentar AAS aumentou sangramento maior e mortalidade sem reduzir eventos isquêmicos. Ainda não codificado nas diretrizes.
  • Inconsistência interna da ESC. Imagem intracoronária: I A na SCC (2024), mas IIa na SCA (2023) — artefato de cronologia (ILUMIEN IV, OCTOBER).
  • iSGLT2/GLP-1 sem diabetes. A ACC/AHA vai além: 1 para iSGLT2 em DAC + IC com FEVE ≤40% independentemente de diabetes. SBC e ESC amarram ao DM2 — se o coronariopata é obeso e não diabético, a diretriz brasileira não o cobre, mas a evidência já aponta.
Resumo completo Aprofundamento, tabela comparativa integral e seção de alto rendimento: Doença Coronariana Crônica — resumo comparativo

Capítulo 2

Síndrome Coronariana Aguda

Diretrizes de referência

  • ESC 2023 — Acute Coronary Syndromes (documento unificado). Eur Heart J. 2023;44(38):3720-3826.
  • ACC/AHA 2025 — Acute Coronary Syndromes (unificado; substitui 2013/2014). Circulation. 2025;151(13):e771-e862.
  • SBC — SCA sem supra: Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181-264. IAMCSST: V Diretriz, 2015 — desatualizada.

Formato dos documentos

ESC e ACC/AHA passaram a tratar a SCA como um continuum único, num só documento cada — as diferenças ficam concentradas no timing da estratégia invasiva. A SBC ainda não fez essa fusão, e sua diretriz de IAM com supra é de 2015.

Alerta prático para o Brasil

A V Diretriz da SBC (2015) antecede COMPLETE, CULPRIT-SHOCK, ISAR-REACT 5, DanGer Shock, REDUCE-AMI e a era da imagem intracoronária. Permanece excelente naquilo que é genuinamente brasileiro — lógica de rede, tempo-agulha, estratégia fármaco-invasiva com tenecteplase, resgate. Para antiagregação, revascularização completa, imagem intracoronária e manejo do choque, é preciso recorrer à ESC/ACC. O cardiologista brasileiro opera num híbrido.

Diagnóstico

Pilar da SCA sem supra: algoritmo 0/1h (alternativa 0/2h) com troponina ultrassensível. Valor muito baixo na chegada (ou baixo + delta pequeno) → rule-out; valor muito alto ou delta significativo → rule-in; zona intermediária → 3ª dosagem e imagem. Os pontos de corte são específicos do ensaio — não se transporta número de um kit para outro. Regra que não muda: supra de ST → ativar reperfusão, não esperar a troponina.

  • Angio-TC no PS — ESC: posição restritiva — apenas na suspeita de SCA de baixo risco, com troponina e ECG normais/inalterados.
  • Angio-TC no PS — ACC/AHA: posição mais ampla — também na SCA sem supra confirmada de risco baixo/intermediário quando se optou por estratégia seletiva (base: VERDICT).

IAMCSST — reperfusão

  • ESC: ICP primária se o tempo do diagnóstico até a abertura for ≤120 min (I A). Se não for factível → fibrinólise em ≤10 min do diagnóstico (I), seguida de transferência; angiografia em 2–24h após fibrinólise bem-sucedida (I A); ICP de resgate imediata na falha (I A). Acesso radial padrão (I A).
  • ACC/AHA: porta–balão ≤90 min em centro com hemodinâmica; ≤120 min do primeiro contato em transferência. Radial preferido ao femoral (1) — menos sangramento, menos complicação vascular, menos mortalidade (MATRIX).
  • SBC 2015: estratégia fármaco-invasiva como espinha dorsal — tenecteplase em bolus ajustada ao peso, metade da dose se ≥75 anos, + transferência.
Critérios de reperfusão bem-sucedida após fibrinólise

Avaliar em 60–90 min: redução ≥50% do supradesnivelamento na derivação de maior supra + alívio da dor + estabilidade hemodinâmica/elétrica. Não preencheu → resgate imediato. Preencheu → angiografia entre 2 e 24h (não antes de 2h, não depois de 24h).

SCA sem supra — o momento da invasiva

  • Muito alto risco → invasiva imediata (<2h), I. Instabilidade hemodinâmica/choque, dor refratária, IC aguda presumidamente isquêmica, arritmia ameaçadora ou PCR, complicação mecânica, alterações dinâmicas recorrentes do ST/T. Aqui não há discussão nenhuma.
  • Alto risco (ESC): invasiva em ≤24h — rebaixada de I A para IIa A.
  • Risco intermediário/alto (ACC/AHA): estratégia invasiva durante a internação — Classe 1. Não replicou o rebaixamento europeu.
Divergência 1 — a invasiva em 24h

O motivo do rebaixamento europeu: as metanálises não mostraram ganho de mortalidade da invasiva "em 24h" sobre a invasiva "durante a internação" — o benefício era de isquemia recorrente e tempo de internação. Na prática as duas convergem no comportamento; o que muda é a rigidez do relógio.

Antiagregação

Divergência 2 — pré-tratamento com P2Y12 (SCA sem supra)

ESC: não administrar rotineiramente antes de conhecer a anatomia quando a invasiva precoce está planejada — III A. Pode ser considerado se postergada (IIb).
ACC/AHA: se a angiografia estiver prevista para >24h, o pré-tratamento com clopidogrel ou ticagrelor pode ser considerado (2b).
Tradução: CATE em poucas horas → não carregue. Espera longa → a americana te dá cobertura.

Divergência 3 — prasugrel × ticagrelor

ESC: prasugrel "deve ser considerado em preferência ao ticagrelor" (IIa B, ISAR-REACT 5).
ACC/AHA: ticagrelor ou prasugrel em preferência ao clopidogrel (1) — sem hierarquizar. O ISAR-REACT 5 foi aberto, com administração assimétrica (prasugrel após a anatomia; ticagrelor antes). Contraindicações do prasugrel: AVC/AIT prévio (contraindicado); ≥75 anos ou <60 kg (evitar ou reduzir dose).

Divergência 4 — quando encurtar a DAPT

Padrão nas duas: DAPT 12 meses sem alto risco de sangramento (I A / 1). Mas as saídas divergem — e a americana é a mais agressiva em encurtar:
ACC/AHA: em quem tolerou DAPT com ticagrelor, transição para monoterapia com ticagrelor a partir de 1 mês pós-ICP — Classe 1. Monoterapia com clopidogrel/prasugrel: 2b. Desescalonamento após 1 mês: 2b.
ESC: livre de eventos após 3–6 meses e sem alto risco isquêmico → monoterapia (preferencialmente P2Y12), IIa A; alto risco hemorrágico → monoterapia após 1 mês (IIb B).
Regra comum: não desescalonar nos primeiros 30 dias pós-SCA — ESC III B.

SCA + indicação de anticoagulação oral

Convergência quase total: tripla curta e depois retirar o AAS. ACC/AHA: retirar em 1 a 4 semanas após a ICP (1), mantendo anticoagulante + P2Y12 (preferencialmente clopidogrel) até ~12 meses; depois anticoagulante isolado. Prasugrel e ticagrelor não compõem terapia tripla. Preferir DOAC (exceto prótese mecânica e estenose mitral reumática moderada/grave).

Revascularização, choque e imagem

  • Revascularização completa na doença multiarterial: Classe I nas duas. ESC: no procedimento índice ou dentro de 45 dias (I A, COMPLETE). ACC/AHA: no IAMCSST, alguma preferência por tempo único.
  • Choque cardiogênico: revascularizar só a culpada; não tratar as não-culpadas no mesmo procedimento — III / 3 (CULPRIT-SHOCK). A ACC/AHA admite ICP estagiada depois (2a).
  • Bomba microaxial em pacientes selecionados com choque do IAM: ACC/AHA 2a (DanGer Shock). A ESC 2023 é anterior ao ensaio e silente. Balão intra-aórtico não tem benefício de sobrevida (IABP-SHOCK II).
Divergências 5 e 6 — imagem intracoronária e suporte no choque

Imagem: ACC/AHA 2025 dá Classe 1 a IVUS/OCT em lesão complexa; ESC 2023 dá apenas IIa — enquanto a própria ESC 2024 (SCC) dá I A. A Europa dá Classe I na doença crônica e IIa na aguda: inconsistência interna que é puro artefato de cronologia.
Choque: o DanGer Shock reduziu mortalidade em 6 meses, ao custo de mais sangramento, isquemia de membro e terapia renal substitutiva.

Prevenção secundária e alta

"A prevenção do próximo evento começa no momento do diagnóstico da SCA" (ESC 2023). Metas de alta da ESC: LDL <55 mg/dL e ↓≥50%; PA <130/80; HbA1c <7%; estatina de alta potência desde a fase aguda; reabilitação cardíaca e consulta de seguimento marcada antes da alta.

  • ACC/AHA 2025: estatina de alta potência para todos (1), com a opção de já iniciar ezetimiba junto. Em estatina máxima e LDL ≥70 → adicionar não-estatina (1). LDL 55 a <70 → razoável intensificar (2a). Perfil lipídico 4–8 semanas após iniciar/ajustar (1). Betabloqueador precoce (<24h) no IAM (1). Reabilitação antes da alta (1).
  • Transfusão para Hb ~10 g/dL na anemia sem sangramento ativo: 2b. Colchicina: 2b.
Divergência 7 — o alvo de LDL após a SCA

ESC <55 · SBC 2025 (SCC) <50 (e <40 se re-evento em 2 anos) · ACC/AHA sem meta, com limiares de ação (≥70 → intensificar, Classe 1; 55–69 → razoável, 2a). Resultado prático parecido, lógica diferente: europeus e brasileiros perseguem um número; americanos perseguem uma escada de drogas.

Zonas cinzentas

Onde os documentos hesitam ou ainda não sabem
  • Prasugrel é mesmo melhor? Um único ensaio aberto sustenta a preferência europeia, com desenho que confunde efeito da droga e efeito da estratégia. O ticagrelor é o único dos dois utilizável na estratégia conservadora ou pré-anatomia.
  • Monoterapia com ticagrelor em 1 mês — Classe 1 é forte demais? O mesmo documento americano dá Classe 1 para DAPT de 12 meses e Classe 1 para sair dela em 1 mês — só se resolve individualizando pelo risco hemorrágico. A ESC, com a mesma base (TWILIGHT, TICO, ULTIMATE-DAPT), foi mais tímida.
  • Revascularização completa: mesmo tempo ou estagiada? O COMPLETE não respondeu quando. MULTISTARS-AMI e FULL REVASC deram sinais divergentes. Num paciente instável, com muito contraste, DRC ou lesão complexa, estagiar é mais seguro — e nenhuma diretriz obriga o contrário.
  • Bomba microaxial no choque — a que preço? A população do DanGer era selecionada (choque por IAM, sem PCR com dano neurológico). Extrapolar para todo choque é injustificado.
  • Transfusão na SCA. MINT favoreceu (marginalmente) a estratégia liberal; REALITY mostrou não-inferioridade da restritiva. Decida pelo contexto isquêmico, não pelo número isolado.
  • MINOCA e SCAD — o vazio de evidência. Orientação quase toda observacional; sem RCT definindo tipo nem duração do antitrombótico. Na SCAD a conduta padrão é conservadora. Se você não fizer RM, você não vai saber o que o paciente teve.
  • Angio-TC no PS: onde parar? A posição americana arrisca cascata (TC → CATE → stent em lesão talvez não culpada); a europeia arrisca internar e cateterizar quem a TC dispensaria.
  • Colchicina pós-IAM. COLCOT positivo; CLEAR SYNERGY neutro. ACC/AHA 2b, reconhecendo resultados conflitantes. Não é conduta de rotina.
Resumo completo Tabela comparativa integral, ensaios e seção de alto rendimento: Síndrome Coronariana Aguda — resumo comparativo

Capítulo 3

MINOCA

Diretrizes de referência

  • AHA 2019 — Scientific Statement on MINOCA. Circulation. 2019. Define o fluxo do "diagnóstico de trabalho".
  • ESC — 4ª Definição Universal de IAM + Diretriz de SCA 2023.
  • SBC — Posicionamentos sobre síndromes coronarianas agudas.

Definição — e o que NÃO é

MINOCA = infarto do miocárdio (critérios da definição universal) com coronárias <50% de estenose à angiografia. É um diagnóstico de trabalho: obriga a caçar a causa, não a parar a investigação.

Critérios (AHA 2019): (1) IAM pela definição universal — troponina elevada com curva + clínica/ECG/imagem de isquemia; (2) coronárias não obstrutivas (<50%); (3) ausência de outra causa clínica evidente para a elevação de troponina. Se há causa clara, não é MINOCA.

Os "impostores" — excluir antes de rotular

Miocardite, Takotsubo e outras cardiomiopatias não são MINOCA — são diagnósticos alternativos. Também excluir IAM tipo 2 (desequilíbrio oferta/demanda: sepse, taquiarritmia, anemia, crise hipertensiva) e injúria miocárdica não isquêmica (TEP, IC, DRC).

Causas do MINOCA verdadeiro

  • Epicárdicas: ruptura/erosão de placa com trombo que lisou (causa frequente); espasmo coronariano; dissecção coronariana espontânea (SCAD) — clássica em mulheres jovens/periparto; embolia/trombose coronariana (trombofilia, FA, endocardite).
  • Microvascular: disfunção microvascular — coronárias epicárdicas "limpas", mas isquemia real.

Mais frequente em mulheres e em pacientes mais jovens que o IAM obstrutivo clássico. O prognóstico não é benigno — merece investigação e prevenção.

Investigação dirigida

A ressonância cardíaca é o exame-chave: diferencia IAM (realce subendocárdico/transmural em território coronariano) de miocardite (realce mesocárdico/subepicárdico) e Takotsubo (balonamento apical, edema sem realce). A imagem intracoronária (OCT/IVUS) revela erosão de placa e SCAD. O teste provocativo com acetilcolina confirma espasmo. Investigar trombofilia quando pertinente.

Tratamento — pela causa

  • Espasmo → antagonistas de cálcio / nitrato.
  • SCAD → geralmente conservador (a maioria cicatriza; stent só se isquemia/instabilidade).
  • Ruptura de placa → prevenção secundária como no IAM (antiagregante, estatina).
Zona cinzenta

Na dúvida ou na causa aterotrombótica, a prevenção secundária (estatina, IECA/BRA, antiagregante) é razoável, embora a evidência seja menos robusta que no IAM obstrutivo. Não há RCT definindo tipo nem duração do antitrombótico no MINOCA, nem o papel do betabloqueador e do IECA (ver também as zonas cinzentas do Capítulo 2).

Capítulo 4

Vasoespasmo Coronariano e ANOCA/INOCA

Diretrizes de referência

  • COVADIS — International standardization of diagnostic criteria for vasospastic angina. Eur Heart J, 2017.
  • JCS/CVIT/JCC 2023 — Focused update: vasospastic angina & coronary microvascular dysfunction. J Cardiol, 2023.
  • ESC 2024 — Chronic Coronary Syndromes. Integra a VSA ao espectro ANOCA/INOCA.
  • SBC — não há diretriz brasileira dedicada; o tema é abordado dentro da doença coronária crônica.

Conceito

Constrição transitória e reversível de uma artéria coronária — epicárdica ou microvascular — causando isquemia na ausência de obstrução fixa significativa. A marca registrada é a angina de repouso com supra de ST transitório, predomínio noturno/madrugada, e resposta dramática a nitrato e a bloqueador de canal de cálcio.

  • Espasmo epicárdico — constrição ≥90% de artéria epicárdica visível à angiografia. É a angina vasoespástica (VSA) propriamente dita.
  • Espasmo microvascular — sintoma + alterações isquêmicas no ECG sem espasmo epicárdico ≥90%.

Fisiopatologia e gatilhos

Denominador comum: hiper-reatividade do músculo liso vascular. Mecanismo molecular mais consagrado é a via Rho-quinase (aumento da sensibilidade ao cálcio do aparato contrátil); somam-se disfunção endotelial (menor óxido nítrico, endotelina-1) e tônus autonômico — que explica o ritmo circadiano.

Gatilhos: tabagismo (o fator de risco modificável mais fortemente associado), hiperventilação (alcalose), cocaína/anfetaminas/álcool, frio, estresse, Valsalva, fármacos vasoconstritores (ergotamínicos, triptanos, 5-FU, betabloqueador não seletivo), hipomagnesemia. Prevalência marcadamente maior em populações do Leste Asiático — daí a escola japonesa ser a referência histórica.

Quadro clínico e ECG

Angina em repouso, sobretudo noite/madrugada, com variação diurna, desencadeada por hiperventilação e com alívio rápido por nitrato. Pode cursar com síncope (bradiarritmia/BAV ou TV durante o espasmo), palpitações. Complicações graves: IAM (inclusive MINOCA), arritmias ventriculares malignas, BAV avançado transitório, morte súbita abortada.

No episódio: supra de ST transitório e reversível (clássico, isquemia transmural); infra de ST ou inversão de T quando o espasmo é subtotal/microvascular; pseudonormalização de T. Fora do episódio o ECG costuma ser normal. Holter é útil para flagrar o supra espontâneo — IIa B na ESC 2024.

Critérios COVADIS

#Critério para VSA
1Angina responsiva a nitrato, com ao menos um: (a) angina de repouso; (b) variação diurna/circadiana; (c) angina induzida por hiperventilação; (d) melhora com bloqueador de canal de cálcio.
2Alterações isquêmicas transitórias no ECG durante episódio espontâneo — supra ou infra de ST ≥0,1 mV, ou novas ondas U negativas, em ≥2 derivações contíguas.
3Espasmo coronariano documentado — constrição ≥90% de artéria epicárdica, espontânea ou provocada, com angina e alterações isquêmicas no ECG.

VSA definitiva = os três critérios. VSA suspeita = apenas dois. Espasmo microvascular = reprodução da angina habitual + ECG isquêmico, sem espasmo epicárdico ≥90% durante o teste com acetilcolina.

Teste provocativo

Padrão-ouro quando o episódio espontâneo não pôde ser documentado. Agentes: acetilcolina (receptores muscarínicos; em endotélio disfuncional gera vasoconstrição — permite avaliar também o componente microvascular) ou ergonovina/ergometrina. Antes: excluir estenose epicárdica significativa (>50% visual ou FFR ≤0,80) e suspender vasoativos (BCC, nitratos) por 24–72h. Positivo = os três componentes (angina habitual + ECG isquêmico + constrição ≥90%). Risco globalmente baixo em mãos experientes, mas pode induzir espasmo prolongado, arritmias e BAV — exige nitrato intracoronário à mão.

Diferencial dentro do espectro ANOCA/INOCA

EndótipoAchado no testeDireção do tratamento
VSA (epicárdico)ACh → constrição ≥90% + angina + ECGBCC ± nitrato; cessar tabagismo
Espasmo microvascularACh → angina + ECG, sem espasmo ≥90%BCC; abordar disfunção endotelial
DMC estruturalCFR <2,0–2,5 e/ou IMR ≥25Betabloqueador, IECA, ranolazina, estatina
MINOCARMC, imagem intracoronária, provocaçãoConforme a causa identificada

Tratamento

  • Cessação do tabagismo — a medida não farmacológica mais importante.
  • Bloqueadores de canal de cálcio — pilar. Primeira linha; na ESC 2024, para VSA isolada é I A. Casos graves exigem doses altas, e a combinação de duas classes de BCC (di-hidropiridínico + diltiazem) é válida no refratário. Preferir formulações de longa ação, cobrindo o pico circadiano da madrugada.
  • Nitratos: sublingual para a crise (com valor diagnóstico); de longa ação como adjuvante (atenção à tolerância). Nicorandil — útil, sobretudo na escola japonesa.
  • Evitar: betabloqueador não seletivo (piora o espasmo por atividade alfa sem oposição), ergotamínicos, triptanos. Se o betabloqueador for necessário por DAC obstrutiva concomitante, preferir agentes com vasodilatação, sempre sob cobertura de BCC.
  • Refratário: combinar BCC de classes diferentes + nitrato de longa ação ± nicorandil; estatina; inibidor de Rho-quinase (fasudil — escola asiática/pesquisa); magnésio em selecionados; CDI em sobreviventes de parada cardíaca por arritmia relacionada ao espasmo apesar de terapia otimizada. O stent não trata o espasmo difuso e pode deslocar o sítio espástico.

Prognóstico e divergências

Em geral favorável com BCC e controle de gatilhos. Marcadores de pior evolução: espasmo multivaso, arritmia ventricular maligna/parada no episódio, coexistência com aterosclerose obstrutiva ou DMC, refratariedade e manutenção do tabagismo.

JCS 2023 × ESC 2024

JCS: doença muito prevalente no Japão; foco em diagnóstico invasivo refinado, protocolo rigoroso de provocação, uso forte de nicorandil e de fasudil.
ESC 2024: integra a VSA ao espectro ANOCA/INOCA e centra tudo na caracterização do endótipo; teste de função coronária invasivo na VSA suspeita com episódios repetidos (I B); Holter (IIa B); BCC I A.
Ambas alinhadas aos critérios COVADIS. Não há diretriz brasileira dedicada.

Resumo completo Fluxogramas do teste provocativo, mapa circadiano e comparação de diretrizes: Vasoespasmo coronariano — resumo

Parte II

Insuficiência Cardíaca

Capítulo 5

Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida

Diretrizes de referência

  • SBC/DEIC 2018 + Atualização de Tópicos Emergentes 2021 · PCDT/Ministério da Saúde 2024 (Portaria Conjunta nº 10).
  • ESC 2021 + Focused Update 2023.
  • ACC/AHA/HFSA 2022 + Expert Consensus Decision Pathway 2024/2025.

Definição e classificação

A Definição Universal de IC (2021) unificou os critérios: sintomas/sinais de IC + evidência objetiva de disfunção cardíaca (peptídeos natriuréticos elevados ou congestão). Faixas de FEVE: ICFEr ≤40% · ICFEmr 41–49% · ICFEp ≥50%. IC com FE recuperada: era ICFEr e melhorou para >40% — mantém-se a GDMT, pois a retirada precipita recaída (TRED-HF). Não é cura.

Estágios A (em risco) → B (pré-IC, doença estrutural sem sintomas) → C (sintomática) → D (avançada) são progressivos e irreversíveis; a NYHA é reversível e oscila com a compensação.

Diagnóstico

Peptídeos natriuréticos (alto valor preditivo negativo; elevados também em FA, DRC, idade, TEP, sepse; reduzidos na obesidade) + ecocardiograma como pilar de imagem. RM cardíaca para etiologia (fibrose/realce tardio, miocardite, infiltrativas, amiloidose).

Particularidades brasileiras

O PCDT/MS 2024 recomenda os Critérios de Framingham (2 maiores, ou 1 maior + 2 menores) para o diagnóstico clínico de IC no SUS. E sempre pesquisar doença de Chagas — pior prognóstico, disautonomia, aneurisma apical, BRD+HBAE, alto risco de morte súbita.

Os quatro pilares da GDMT

Em ICFEr sintomática, as quatro classes reduzem mortalidade e hospitalização de forma aditiva e independente, com benefício já nos primeiros 30 dias. Todas têm Classe I nas três diretrizes.

  1. Bloqueio do SRAA — ARNI / IECA / BRA. Sacubitril/valsartana é o agente preferencial (PARADIGM-HF). Washout de 36h entre IECA e ARNI (angioedema); nunca associar ARNI + IECA. Dose-alvo 97/103 mg 2×/dia.
  2. Betabloqueio. Apenas os quatro com evidência — carvedilol, succinato de metoprolol, bisoprolol, nebivolol (não é classe intercambiável). Iniciar euvolêmico e estável, "start low, go slow".
  3. Antagonista mineralocorticoide. Espironolactona (RALES, NYHA III–IV) e eplerenona (EMPHASIS-HF, NYHA II; EPHESUS pós-IAM). Monitorar K⁺ e função renal em 1 e 4 semanas.
  4. iSGLT2. Dapagliflozina e empagliflozina — benefício independente do diabetes (DAPA-HF, EMPEROR-Reduced). Dose fixa, sem titulação. Suspender em jejum prolongado/cirurgia (cetoacidose euglicêmica).
Divergência — o fraseado do ARNI

É o ponto de maior divergência: a ACC/AHA 2022 e o Decision Pathway 2025 colocam o ARNI como preferencial de saída (I-A). ESC (I-B) e SBC (I-B) o consolidam como Classe I para substituir IECA/BRA em quem permanece sintomático, admitindo início de novo.

Sequenciamento e titulação rápida

O paradigma mudou: em vez de escalonar uma classe por vez até a dose-alvo, iniciar as quatro rapidamente em baixas doses e depois titular. O STRONG-HF mostrou que a titulação intensiva precoce após descompensação reduz morte/reinternação. ESC 2023: otimização em ~6 semanas após a alta. ACC 2024/2025: as quatro classes na dose-alvo/máxima tolerada idealmente em ≤3 meses.

Parâmetros de segurança (modelo STRONG-HF): PAS ≥100 mmHg · FC ≥60 bpm · K⁺ ≤5,0 mEq/L · TFG ≥30 mL/min/1,73m². Não há sequência única obrigatória — iSGLT2 e betabloqueador toleram PA/FC limítrofes melhor que ARNI/MRA.

Terapias adicionais

TerapiaIndicaçãoClasseEnsaio
Diurético de alçaCongestãoI-C— (sem efeito em mortalidade)
IvabradinaRitmo sinusal, FC ≥70 apesar de BB máx. tolerado, FE ≤35%, NYHA II–IVIIa-BSHIFT
VericiguatICFEr com piora recente apesar de GDMTIIb-BVICTORIA
Hidralazina + nitratoAutodeclarados afrodescendentes NYHA III–IV; ou intolerância ao SRAAIIa · I-AA-HeFT
DigoxinaSintomas persistentes / controle de FC na FAIIb-BDIG (janela estreita)
Ferro EV (carboximaltose)Deficiência de ferroIIa-AAFFIRM-AHF · IRONMAN

Evitar na ICFEr: AINEs, glitazonas (retenção hídrica), verapamil e diltiazem (inotropismo negativo). Anlodipino é seguro se necessário para PA.

Dispositivos e IC avançada

Indicados após ≥3 meses de GDMT otimizada, com FEVE persistentemente reduzida e expectativa de vida >1 ano com boa qualidade. CDI: FEVE ≤35%, NYHA II–III — isquêmica ≥40 dias pós-IAM (ESC I-A / ACC I); não isquêmica ESC IIa-A (rebaixada após DANISH) × ACC/AHA I. TRC: BRE com QRS ≥150 ms → I-A. Detalhamento no Capítulo 7.

IC avançada (estágio D): sinais "I NEED HELP" — inotrópico, NYHA III–IV/PN persistente, disfunção de órgão-alvo, FE muito baixa, choques do CDI/hospitalizações, escalada de diurético, PA baixa, intolerância à GDMT. TEER mitral (COAPT) na regurgitação secundária significativa apesar de GDMT com anatomia favorável. Transplante e DAV/LVAD — encaminhamento precoce ao centro especializado antes de disfunção irreversível de órgão-alvo.

Ensaios que sustentam cada pilar

PARADIGM-HF (ARNI) · CIBIS-II, MERIT-HF, COPERNICUS (betabloqueio) · RALES, EMPHASIS-HF (MRA) · DAPA-HF, EMPEROR-Reduced (iSGLT2) · SHIFT · VICTORIA · A-HeFT · STRONG-HF · MADIT-II, SCD-HeFT, DANISH (CDI) · COAPT · AFFIRM-AHF, IRONMAN.

Zona cinzenta — acesso

No Brasil, além da diretriz SBC/DEIC, o PCDT do Ministério da Saúde (2024) regula o acesso no SUS. Ao responder questões de conduta pública, verificar disponibilidade de fármacos e critérios administrativos, que não coincidem com as recomendações internacionais.

Resumo completo Doses-alvo detalhadas, tabela de classes por diretriz e mapa de ensaios: ICFEr — guia de estudo

Capítulo 6

Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada

Diretrizes de referência

  • ESC 2023 — Focused Update da diretriz de IC de 2021. iSGLT2 Classe I para ICFEmr e ICFEp.
  • ACC/AHA/HFSA 2022Circulation. 2022;145(18):e895-e1032. Estágios A–D; definição universal.
  • SBC — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca (crônica e aguda) + atualizações.
  • Ensaio-chave posterior: FINEARTS-HF (2024).

Definição e diagnóstico

ICFEp = sintomas/sinais de IC + FE ≥50% + evidência objetiva de disfunção diastólica / pressões de enchimento elevadas. O desafio é provar que a dispneia é de origem cardíaca com FE normal.

  • ESC — HFA-PEFF: escore por etapas — funcional (E/e', e', VR de IT), morfológico (volume do AE indexado, massa do VE) e biomarcador (BNP/NT-proBNP). Zona intermediária → teste de estresse diastólico (eco de esforço) ou medida invasiva de pressão.
  • ACC/AHA — H2FPEF: escore clínico simples — IMC (Heavy), Hipertensão, Fibrilação atrial, PSAP (Pulmonary), idade (Elder), E/e' (Filling). Pontuação alta torna ICFEp provável sem mais testes.
  • SBC: peptídeos + eco (função diastólica, volume do AE indexado, E/e'), excluindo mimetizadores.
Mimetizador obrigatório de excluir

Rastrear amiloidose cardíaca (ATTR) na ICFEp do idoso com hipertrofia, especialmente com túnel do carpo, baixa voltagem no ECG e realce difuso na RM — muda completamente a conduta (ver Capítulo 18). Também excluir valvopatia, pericardite constritiva e isquemia.

Tratamento — a virada dos iSGLT2

Por décadas a ICFEp não tinha terapia que mudasse desfecho. Isso acabou.

  • 1º pilar — iSGLT2. Dapagliflozina (DELIVER) e empagliflozina (EMPEROR-Preserved) reduzem hospitalização/morte CV. Classe I na ICFEmr e ICFEp (ESC 2023), independentemente de diabetes.
  • 2º pilar — finerenona. O FINEARTS-HF (2024) mostrou que a finerenona (ARM não esteroidal) reduz eventos de IC + morte CV na ICFEmr/ICFEp, mesmo sobre iSGLT2. Aprovação ampliada (FDA, jul/2025) para FE ≥40%. Novo pilar antes inexistente.
  • Suporte e comorbidades. Diuréticos para congestão. A ICFEp é doença de comorbidades: tratar HAS, FA, obesidade, DM, apneia. Semaglutida (STEP-HFpEF) melhora sintomas na ICFEp com obesidade.
Onde ficaram o ARM esteroidal e o ARNI

Espironolactona (TOPCAT) e sacubitril/valsartana (PARAGON-HF): benefício limítrofe, maior no extremo inferior da FE preservada e nas mulheres → recomendação fraca (Classe IIb / 2b). A novidade sólida da classe ARM veio com a finerenona (não esteroidal).

Síntese comparativa

EixoSBCESC 2023ACC/AHA 2022
Corte de FE≥50%≥50%≥50%
Escore diagnósticoEco + peptídeosHFA-PEFFH2FPEF
iSGLT2RecomendadoClasse IClasse 2a (favorece)
ARM esteroidal2bNão recomendava (pré-FINEARTS)Espironolactona 2b
ARNIIndividualizado2b (FE mais baixa)2b
ObesidadeTratarSemaglutida (STEP-HFpEF)Tratar comorbidades
Zona cinzenta — a finerenona ainda não está codificada

A incorporação da finerenona é recente (2024–2025) e tende a entrar nas próximas atualizações — mas não está formalmente nas diretrizes vigentes citadas acima. Note também a divergência de classe do iSGLT2 (I na ESC 2023 × 2a na ACC/AHA 2022), que é cronológica: a americana é anterior ao DELIVER.

Capítulo 7

CDI, TRC e Transplante Cardíaco

Diretrizes de referência

  • DCEI/SBC 2023 — Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis.
  • 3ª Diretriz Brasileira de Transplante Cardíaco (SBC 2018) · critérios de listagem ISHLT.
  • ESC 2021 (IC) · ACC/AHA/HFSA 2022. Ensaio CHAGASICS (JAMA Cardiol 2024).

Pré-requisitos comuns

Os três degraus pressupõem GDMT otimizada e reavaliação da FEVE antes da indicação. O CDI trata o risco de morte súbita arrítmica; a TRC trata a dissincronia; o transplante trata a IC refratária terminal.

A regra dos 3 meses

Reavaliar a FEVE após ≥3 meses de GDMT otimizada antes de indicar CDI/TRC em prevenção primária. Muitos pacientes recuperam FE e deixam de ter indicação — evita implante desnecessário.

CDI

Prevenção secundária — Classe I, independente da FE (cardiopatia estrutural, sem causa reversível): sobreviventes de parada por FV ou TV; TV sustentada espontânea com instabilidade hemodinâmica ou com cardiopatia estrutural; síncope indeterminada com TV/FV induzível ou clinicamente relevante. Base: AVID, CIDS, CASH.

Prevenção primária:

  • Isquêmica: FEVE ≤35%, NYHA II–III, GDMT ≥3 meses → I-A; FEVE ≤30% em NYHA I → IIa (MADIT-II). Exige ≥40 dias pós-IAM e ≥90 dias pós-revascularização.
  • Não isquêmica: FEVE ≤35%, NYHA II–III, GDMT ≥3 meses → ESC IIa-A (rebaixada após DANISH) × ACC/AHA I. Benefício maior em mais jovens; a RM com realce tardio ajuda a estratificar.
Divergência — o CDI no não isquêmico (DANISH)

O DANISH (2016) não reduziu mortalidade total (reduziu morte súbita), com efeito atenuado em idosos e pela alta taxa de TRC no estudo. A ESC rebaixou de I para IIa; a ACC/AHA manteve Classe I. É a principal divergência formal entre as duas.

CDI na cardiomiopatia chagásica

Doença essencialmente arritmogênica: 55–65% das mortes por Chagas são súbitas, majoritariamente por FV. A estratificação usa o escore de Rassi.

VariávelPontos
NYHA III ou IV5
Cardiomegalia (RX de tórax)5
Disfunção segmentar/global (eco)3
TVNS no Holter3
Baixa voltagem no ECG2
Sexo masculino2

Risco (mortalidade em 10 anos): baixo 0–6 pts (~10%) · intermediário 7–11 (~44%) · alto 12–20 (~84%).

Zona cinzenta — CHAGASICS

RCT (JAMA Cardiol 2024) com 323 chagásicos, Rassi ≥10 + ≥1 episódio de TVNS, CDI × amiodarona: o CDI não reduziu a mortalidade total (desfecho primário), mas reduziu morte súbita em 72% e hospitalização por IC em 47%. Estudo subdimensionado (parou antes dos 1.100 previstos) — interpretar com cautela. Na prática e na DCEI/SBC 2023, o CDI é considerado sobretudo em prevenção secundária e em prevenção primária de alto risco (TVNS + disfunção, síncope de provável origem arrítmica).

Terapia de Ressincronização Cardíaca

Pré-requisitos: sintomático apesar de GDMT otimizada, FEVE ≤35% e, idealmente, ritmo sinusal. O ganho é proporcional à largura do QRS e maior no BRE.

Padrão do QRSDuraçãoClasseComentário
BRE≥150 msI-AIndicação mais forte; maior benefício
BRE130–149 msI-BBenefício consistente
não-BRE≥150 msIIaBenefício menor
não-BRE130–149 msIIbBenefício incerto
qualquer<130 msIIINão indicar — Echo-CRT mostrou possível dano

Situações específicas: FA + IC com necessidade de estimulação biventricular ~100% (frequentemente após ablação do nó AV) → IIa. Indicação de MP com FEVE reduzida e expectativa de alta carga de estimulação ventricular → preferir TRC à estimulação isolada de VD (I). Upgrade de MP/CDI com alta carga de estimulação de VD e piora da IC (BUDAPEST-CRT). ~30% de não respondedores; preditores de boa resposta: BRE verdadeiro, QRS muito largo, sexo feminino, etiologia não isquêmica, ausência de cicatriz extensa.

Transplante cardíaco

IndicaçãoClasse / NE
IC refratária dependente de inotrópico e/ou suporte circulatório mecânico e/ou ventilação mecânicaI-C
VO₂ pico ≤12 mL/kg/min em uso de betabloqueadorI-B
VO₂ pico ≤14 mL/kg/min em intolerantes a betabloqueadorIIa
VE/VCO₂ slope >35 (+ VO₂ pico ≤14)IIa-C
Angina refratária sem possibilidade de revascularizaçãoI-C
Arritmia ventricular refratária a todas as terapiasI-C
Teste de caminhada de 6 min <300 m (marcador auxiliar)IIa-C

Não indicar (Classe III): disfunção sistólica isolada sem sintomas refratários; NYHA III/IV sem otimização terapêutica prévia; listar baseando-se apenas no VO₂ isolado, sem contexto clínico.

Contraindicações absolutas: hipertensão pulmonar fixa/irreversível — RVP >5 unidades Wood, ou GTP >15 mmHg / PSAP >60 mmHg sem resposta a vasodilatador; doença sistêmica com expectativa de vida limitada; neoplasia ativa; infecção ativa não controlada; disfunção irreversível de outro órgão-alvo. Relativas: idade avançada, obesidade/caquexia, DM com lesão de órgão-alvo (HbA1c >7,5%), doença renal/hepática significativa, doença vascular grave, tabagismo, abuso de substâncias, não adesão.

Deixaram de ser contraindicação absoluta

HIV+ estável (CD4 >200, carga viral indetectável, TARV); HBV/HCV sem cirrose/hipertensão portal/CHC; amiloidose (AL/ATTR) em cenários selecionados, com abordagem multidisciplinar.

Ponte: DAV/LVAD como ponte para transplante, para candidatura (recuperar órgãos-alvo/RVP), para decisão ou como terapia de destino. Seleção pelo perfil INTERMACS (1 = choque crítico → 7). Ensaios: REMATCH, MOMENTUM 3 (HeartMate 3).

Zona cinzenta — o timing

Reconhecer a IC avançada e encaminhar cedo, antes de RVP fixa ou disfunção irreversível de órgão-alvo — que convertem um candidato em não candidato. É o erro mais custoso e o menos visível.

Parte III

Valvopatias e Próteses

Capítulo 8

Valvopatias — panorama das quatro valvas

Diretrizes de referência

  • ESC/EACTS 2021 — Valvular Heart Disease. Eur Heart J 2021. TAVI ≥75 anos; intervir mais cedo no assintomático.
  • ACC/AHA 2020 — Valvular Heart Disease. Circulation 2020. TAVR >80 / SAVR <65 / Heart Team no meio.
  • SBC — Diretriz Brasileira de Valvopatias. Peso próprio à doença reumática.

Princípios comuns

Decisão pelo Heart Team; quantificação por eco integrando múltiplos parâmetros; e a grande tendência: intervir mais cedo no assintomático de alto risco e usar cateter quando indicado.

Diferença Brasil × mundo

A doença reumática ainda pesa muito no Brasil (estenose/insuficiência mitral em jovens) — a SBC dá peso próprio a isso. Nos guias europeu e americano predomina a valvopatia degenerativa do idoso.

Válvula aórtica

  • ESC/EACTS 2021: TAVI transfemoral preferida em ≥75 anos (ou alto risco cirúrgico); cirurgia (SAVR) preferida em jovens/baixo risco. EAo grave assintomática: intervir se FE <50%, teste de esforço com sintomas, ou EAo muito grave.
  • ACC/AHA 2020: TAVR >80 anos (ou expectativa <10 anos); SAVR <65 anos; Heart Team entre 65 e 80. EAo grave assintomática: FE <50% (I) ou muito grave/gatilhos (2a).
  • Insuficiência aórtica: operar se sintomas, FE ≤50%, ou VE dilatado (DSVE >50 mm ou DDVE muito aumentado). Raiz de aorta dilatada muda o gatilho (associar à doença de aorta — Capítulo 22).

Detalhamento da estenose aórtica, dos ensaios de longo prazo e da escolha SAVR × TAVI: Capítulo 9.

Válvula mitral

Distinguir primária (degenerativa, prolapso) de secundária (funcional, do VE dilatado) é o que define a estratégia.

  • IM primária: grave sintomática → reparo (preferível à troca) por equipe experiente. Assintomática: operar se FE ≤60%, DSVE ≥40 mm, FA nova ou PSAP >50 mmHg.
  • IM secundária: TEER (MitraClip) na IM secundária grave sintomática apesar de terapia médica otimizada (COAPT), selecionando pela "proporcionalidade" — IM desproporcional ao VE responde melhor. Detalhamento no Capítulo 10.
  • Estenose mitral reumática: valvoplastia mitral percutânea por balão se anatomia favorável (escore de Wilkins), sem trombo em AE e sem IM significativa.

Válvula tricúspide e pulmonar

A tricúspide era a "valva esquecida". IT grave sintomática: considerar intervenção antes de disfunção de VD avançada. Surgiram opções transcateter — T-TEER (TriClip; ensaio TRILUMINATE: melhora sintomática e remodelamento de VD) e troca transcateter (TRISCEND II). Ainda em incorporação nas diretrizes.

A valvopatia pulmonar é dominada por cardiopatia congênita: estenose pulmonar → valvoplastia por balão; regurgitação pós-correção de Fallot → troca valvar cirúrgica ou percutânea (ver Capítulo 30). Endocardite da pulmonar é rara (usuários de droga IV).

Próteses e anticoagulação

Regra de ouro

Mecânica → varfarina vitalícia (INR-alvo conforme posição/risco); DOACs são contraindicados em prótese mecânica. Biológica → antitrombótico conforme risco. A escolha mecânica × biológica é pela idade e preferência (durabilidade × não anticoagular). Esquemas detalhados no Capítulo 13.

Síntese comparativa

TemaSBCESC/EACTS 2021ACC/AHA 2020
TAVI × cirurgia (idade)Heart Team + riscoTAVI ≥75 anosTAVR >80 / SAVR <65
EAo assintomática graveFE <50%, gatilhosIntervir mais cedoFE <50% (I)
IM primáriaReparo > trocaReparo; gatilhos precocesReparo > troca
IM secundáriaTMO + considerar TEERTEER (COAPT)TEER selecionado
EM reumáticaValvoplastia por balãoBalão se favorávelBalão se favorável
TricúspideIntervir antes de VD ruimCirurgia + T-TEER emergenteCirurgia; transcateter emergente
Prótese mecânicaVarfarina (DOAC proibido)IdemIdem
Zona cinzenta

Cortes numéricos (FE, diâmetros, idade) e classes variam entre as diretrizes — o mesmo paciente de 70 anos pode ir a TAVI pela ESC e a Heart Team pela ACC/AHA. A tricúspide transcateter ainda não tem posição consolidada em nenhum dos documentos.

Capítulo 9

Estenose Aórtica Grave: SAVR × TAVI

Diretrizes e ensaios de referência

  • ACC/AHA 2020 e ESC/EACTS 2021 — diretrizes de valvopatias vigentes.
  • EARLY TAVR (NEJM 2024) e EVOLVED (JAMA 2024) — intervenção no assintomático.
  • PARTNER 3 (5 e 7 anos) e Evolut Low Risk (5 anos) — baixo risco cirúrgico.

Tratamento clínico

Princípio central

Na EAo grave não existe fármaco que reverta ou freie comprovadamente a progressão. O tratamento definitivo é a troca valvar. Tudo o mais é suporte — nunca substituto da intervenção quando ela está indicada.

  • Hipertensão: tratar (a contraindicação antiga foi superada). Iniciar com doses baixas e titular, evitando queda abrupta de pós-carga. IECA/BRA são seguros e razoáveis.
  • Estatina: não retarda a progressão da EAo (SALTIRE, SEAS, ASTRONOMER negativos). Indicada apenas pelo perfil aterosclerótico/DAC, não pela valvopatia.
  • Fibrilação atrial: controle prioritário — o VE hipertrofiado depende do atrial kick. Betabloqueador preferível para controle de frequência.
  • Diuréticos: úteis na congestão, mas o VE é pré-carga-dependente; depleção excessiva causa hipotensão e baixo débito.
  • Nitratos/vasodilatadores: evitar na EAo grave sintomática — a obstrução é fixa, o débito não sobe com vasodilatação. Nitrato SL em dor torácica com EAo grave é armadilha clássica.
  • Valvuloplastia aórtica por balão: ponte no paciente crítico ou teste da reversibilidade dos sintomas. Não é definitiva (reestenose precoce).

Vigilância do assintomático: eco seriado (grave ~6–12 meses; muito grave em intervalos mais curtos); teste ergométrico para desmascarar sintomas ou queda pressórica; BNP/NT-proBNP seriado; educação para relato precoce de sintomas.

Quando trocar — indicações convergentes

CenárioClasse
EAo grave sintomática de alto gradienteI
EAo grave sintomática, baixo fluxo–baixo gradiente (com evidência de gravidade real)I
EAo grave assintomática + FEVE <50%I
EAo grave ao submeter-se a outra cirurgia cardíacaI
Assintomática, muito grave (Vmáx ≥5 m/s), baixo risco cirúrgicoIIa
Assintomática + teste de esforço anormal (sintomas ou queda de PA)IIa
Assintomática + progressão rápida ou BNP muito elevado (>3×)IIa
Assintomática + queda progressiva da FEVE em seguimentoIIa

Como trocar — a divergência

Divergência — o divisor de idade

ACC/AHA 2020 arbitra por idade / expectativa de vida: <65 anos ou expectativa >20 anos → SAVR; 65–80 → decisão compartilhada; >80 anos ou expectativa <10 anos → TAVI (se transfemoral).
ESC/EACTS 2021 arbitra por idade + risco cirúrgico + anatomia: <75 anos e baixo risco (STS/EuroSCORE II <4%) → SAVR; ≥75 anos, alto risco ou inoperável → TAVI (se transfemoral); faixa intermediária → Heart Team.
A grande diferença prática: ACC/AHA usa 65 anos como divisor "jovem"; a ESC usa 75. Ambas exigem Heart Team e via transfemoral como preferencial.

O paradigma do assintomático — EARLY TAVR e EVOLVED (2024)

  • EARLY TAVR (NEJM 2024; n=901; seguimento 3,8 anos): assintomáticos confirmados por teste de esforço → TAVI precoce × vigilância. Desfecho composto (morte, AVC, hospitalização CV não planejada): 26,8% × 45,3% (HR 0,50). Benefício conduzido por menos hospitalizações CV; sem aumento de AVC ou mortalidade. A vigilância "assintomática" progride rápido: 26% converteram em 6 meses e 47% em 12 meses.
  • EVOLVED (JAMA 2024; n=224; assintomáticos com fibrose na RM): troca precoce × conservador. Desfecho composto: 18% × 23% (HR 0,79; p=0,44) — mesma direção, sem significância (menor poder).
Ressalva importante

As diretrizes vigentes (ACC/AHA 2020, ESC 2021) ainda recomendam vigilância no assintomático de FE preservada sem critérios adicionais. O EARLY TAVR não foi formalmente incorporado, embora já reoriente a prática. Metanálise (4 ECRs, 1.427 pacientes) mostra redução do desfecho composto com intervenção precoce (29% × 54%; RR 0,56).

Dados de longo prazo no baixo risco

Ensaio · desfechoTAVISAVRLeitura
PARTNER 3 — composto, 1 ano8,5%15,1%Superioridade inicial da TAVI
PARTNER 3 — composto, 5 anos22,8%27,2%Diferença se atenua (p=0,07)
PARTNER 3 — composto, 7 anos34,6%37,2%Mantêm-se semelhantes
PARTNER 3 — falência da bioprótese (5 anos)3,3%3,8%Durabilidade semelhante até aqui
Evolut LR — morte/AVC incapacitante (5 anos)15,5%16,4%Não inferior (HR 0,90)
O dado que ainda falta

A durabilidade é semelhante até ~5–7 anos, mas os desfechos de 10 anos — cruciais para o paciente jovem de baixo risco — ainda não existem. É exatamente essa incerteza que sustenta a preferência por SAVR nos mais jovens.

Comparativo cabeça a cabeça

AspectoSAVRTAVI
AbordagemEsternotomia/CEC; recuperação longaPercutânea; alta precoce
FA nova pós-opMaiorMenor
SangramentoMaiorMenor
Regurgitação paravalvarMenorMaior
Marcapasso definitivoMenorMaior
Trombose de válvulaMenorMaior
Complicação vascular/acessoMaior
Procedimentos concomitantesPermite CABG, outra valva, aortoplastiaIsolada
DurabilidadeReferência históricaSemelhante até 5–7 anos; 10 anos pendente

Favorece SAVR: mais jovem; DAC com indicação de CABG, outra valvopatia cirúrgica ou aneurisma de aorta ascendente; anatomia desfavorável à TAVI (ânulo muito pequeno/grande, altura coronária baixa, risco de obstrução coronária); acesso vascular ruim; endocardite ativa; necessidade de prótese mecânica.
Favorece TAVI: idoso, risco alto/proibitivo, fragilidade, tórax hostil (aorta em porcelana, radioterapia prévia, revascularização prévia com pontes patentes), anatomia favorável ao transfemoral.

Capítulo 10

Regurgitação Mitral e Terapia Transcateter

Diretrizes e ensaios de referência

  • ESC/EACTS 2021 · ACC/AHA 2020 · SBC 2020 (Diretriz Brasileira de Valvopatias).
  • COAPT 5 anos (NEJM 2023) · MITRA-FR · RESHAPE-HF2 (NEJM 2024) · MATTERHORN (NEJM 2024).
  • CLASP IID (JACC 2025) · SUMMIT / Tendyne (JACC 2025) · EVEREST II.

Primária × secundária

  • Primária / degenerativa (DMR): doença do aparelho valvar — prolapso/flail, ruptura de cordas, doença reumática. O problema é a válvula. Cirurgia (reparo) é o padrão-ouro; o transcateter entra quando o risco cirúrgico é proibitivo.
  • Secundária / funcional (FMR): válvula anatomicamente normal; a regurgitação decorre de remodelamento do VE (ventricular) ou do átrio/anel (atrial, p.ex. FA). O problema é o ventrículo — daí a GDMT vir primeiro.

Quantificação (MR grave): EROA ≥40 mm² (≥0,40 cm²) · volume regurgitante ≥60 mL · fração regurgitante ≥0,50. Na FMR, cortes mais baixos (EROA ≥30 mm², VR ≥45 mL) já denotam gravidade prognóstica. Integrar sempre método qualitativo + semiquantitativo + quantitativo.

Quem não vai para cirurgia — e o pré-requisito na FMR

A porta de entrada do transcateter é o Heart Team: MR grave sintomática com risco cirúrgico alto/proibitivo, anatomia adequada e expectativa de vida >1 ano com qualidade. A decisão não é só o número (STS-PROM, EuroSCORE II) — fragilidade e futilidade pesam tanto quanto o escore.

Na FMR: GDMT otimizada primeiro

Quatro pilares da ICFEr na dose-alvo + ressincronização quando indicada. Reavaliar a MR após a otimização — parte melhora e sai da indicação. O TEER é add-on à GDMT, não substituto.

TEER — reparo borda-a-borda

Acesso venoso femoral + punção transeptal; sob eco transesofágico 3D, um ou mais clipes aproximam os folhetos (A2–P2), criando um orifício duplo (Alfieri percutâneo). Dois sistemas com evidência randomizada: MitraClip (Abbott) e PASCAL (Edwards).

Anatomia favorável: patologia central (A2–P2), sem calcificação de folheto na zona de captura, gap de coaptação e flail width/gap dentro dos limites, folhetos de comprimento suficiente, sem estenose mitral associada.

O que o TEER entrega — e o que não entrega

Reduz a MR de forma durável (na maioria para ≤2+) e melhora sintomas. Porém frequentemente deixa MR residual, e MR residual ≥2+ associa-se a pior prognóstico — ponto em que a substituição (TMVR) tem vantagem teórica.

MR secundária — a grande base de evidência

EnsaioNPopulaçãoResultado
COAPT614FMR 3–4+, IC sintomática, GDMT; FEVE 20–50%, DSVE ≤70 mmPositivo — internação por IC 35,8% × 67,9%/paciente-ano (HR 0,53); morte 24 m 29,1% × 46,1% (HR 0,62). Sustentado em 5 anos.
MITRA-FR304FMR menos grave, VE mais dilatadoNeutro — sem diferença em morte/internação em 12 e 24 meses.
RESHAPE-HF2~506FMR moderada-a-grave/grave, não cirúrgicaPositivo — os três desfechos primários (internações + morte CV, total de internações, KCCQ).
MATTERHORN210FMR de alto risco cirúrgico (idade média 75 a)TEER não inferior à cirurgia em 1 ano (16,7% × 22,5%), com melhor perfil de segurança.
O conceito que reconcilia COAPT × MITRA-FR

MR desproporcional × proporcional (Grayburn/Packer). No COAPT a MR era desproporcional ao tamanho do VE (EROA alto, volumes relativamente menores) → a MR é o motor, e tratá-la ajuda. No MITRA-FR era proporcional (EROA menor, VE muito dilatado) → a insuficiência ventricular domina. Selecionar o fenótipo "COAPT-like" é o que torna o TEER eficaz na FMR.

MR primária de alto risco

  • EVEREST II (n=279): a cirurgia foi superior na redução da MR e na liberdade de reintervenção; o TEER foi mais seguro, com mortalidade semelhante em 5 anos. Fixou o conceito: TEER reduz menos completamente, porém com menor morbidade — daí seu papel no inoperável.
  • CLASP IID (JACC 2025): PASCAL não inferior ao MitraClip em DMR 3–4+ de risco proibitivo. Em 2 anos, MR ≤2+ em 95,0% × 91,5%; sem diferença em qualidade de vida ou desfechos clínicos.

TMVR e dispositivos de reconstrução

Quando a anatomia é hostil ao TEER (calcificação anular importante, jato complexo, folheto curto) ou se busca eliminação completa da MR.

  • SUMMIT-MAC / Tendyne (JACC 2025; n=103; calcificação anular mitral grave): sucesso técnico 94,2%; mortalidade em 30 dias 6,8%; liberdade de morte/internação por IC em 12 m 60,4%; NYHA I/II de 30,6% → 87,5%. Base da aprovação FDA do Tendyne em 2025.
  • SUMMIT (randomizado): primeiro RCT comparando TMVR (Tendyne) com TEER (MitraClip) em MR ≥3+, com desenho de não inferioridade.
  • Contras da TMVR: acesso transapical ou transeptal; risco de obstrução de via de saída do VE (LVOTO); necessidade de anticoagulação; mortalidade precoce maior que a do TEER. Seleção por TC cardíaca (neo-LVOT, ancoragem) é decisiva.
  • Outros: Intrepid, Sapien M3, AltaValve (em investigação); anuloplastia direta (Cardioband) e indireta (Carillon); reparo de cordas (NeoChord, Harpoon).

O que dizem as diretrizes

CenárioESC/EACTS 2021ACC/AHA 2020
MR primária grave, sintomática, risco proibitivo, anatomia favorávelTEER — IIbTEER — IIa
MR secundária grave, sintomática apesar de GDMT, critérios "COAPT-like"TEER — IIaTEER — IIa
Cirurgia mitral na FMR isoladaSelecionados (IIa–IIb)Selecionados (IIb)
Base exigida na FMRGDMT otimizada + TRC quando indicada, antes de intervir na válvula
Zona cinzenta — a prática já foi além das diretrizes

ESC/EACTS 2021, ACC/AHA 2020 e SBC 2020 são anteriores a RESHAPE-HF2, MATTERHORN e à aprovação do Tendyne. MATTERHORN e RESHAPE-HF2 têm n moderado, poucos eventos e seguimento curto — sinalizam direção, não fecham a questão. A TMVR ainda tem mortalidade precoce e risco de LVOTO que exigem seleção rigorosa por TC.

Capítulo 11

Endocardite Infecciosa

Diretrizes de referência

  • ESC 2023 — Management of Endocarditis (com EACTS/EANM). Eur Heart J 2023;44(39):3948.
  • Duke-ISCVID 2023 — critérios diagnósticos. Clin Infect Dis 2023;77(4):518.
  • AHA — Scientific Statements (diagnóstico, terapia, cirurgia, profilaxia).
  • SBC — Diretriz / posicionamento sobre endocardite infecciosa.

Diagnóstico — Duke 2023

A grande novidade da ESC 2023 foi adotar os critérios Duke-ISCVID 2023, que modernizam a microbiologia e incorporam a imagem multimodal e o achado cirúrgico.

O que mudou
  • Microbiologia ampliada: PCR, sequenciamento metagenômico/amplicon, imunoensaio (ex.: Bartonella), hibridização in situ.
  • Imagem como critério maior: PET/TC com ¹⁸F-FDG e TC cardíaca, além do ecocardiograma.
  • Novo critério maior: inspeção intraoperatória com evidência direta de EI.
  • Resultado: maior sensibilidade (~84%) sem perda relevante de especificidade.

O ecocardiograma (ETT/ETE) segue como primeiro exame — o ETE é quase sempre necessário. O PET/TC é especialmente valioso em prótese e dispositivos (CDI/MP), onde o eco é limitado. A TC cardíaca serve para abscesso/pseudoaneurisma e planejamento cirúrgico. A SBC adota Duke na prática nacional, considerando as limitações de acesso ao PET.

Endocarditis Team

A abordagem multidisciplinar deixou de ser recomendação genérica e virou estrutura formal: cardiologista, cirurgião cardíaco, infectologista, microbiologista e — conforme o caso — neurologista e especialista em imagem. Reduz mortalidade ao coordenar diagnóstico, momento cirúrgico e antibioticoterapia. A ESC recomenda referência precoce a centros com Endocarditis Team em EI complicada, protética ou de dispositivo.

Profilaxia antibiótica

Quem é "alto risco" — e a Classe I da ESC 2023

Após anos de restrição, a ESC 2023 reforçou (Classe I) a profilaxia antes de procedimento dentário invasivo em pacientes de alto risco: prótese valvar (inclui TAVI e reparo com material), EI prévia, cardiopatia congênita cianótica não corrigida ou com defeito residual. Também dá IIa à profilaxia peri-procedimento em TAVI e implante de dispositivos (cobrindo flora cutânea).
A AHA restringe do mesmo modo: amoxicilina 2 g VO (ou alternativa se alergia) 30–60 min antes, apenas no alto risco com manipulação gengival/perfuração de mucosa. A SBC segue a mesma lógica.
Só nesses grupos há indicação — e apenas em procedimentos de alto risco. Higiene bucal é o pilar da prevenção contínua; atenção crescente a acesso vascular e cateteres como fonte de EI por S. aureus.

Antibioticoterapia — OPAT e POET

A mudança paradigmática da ESC 2023: com base no ensaio POET, parte do tratamento pode migrar para via oral e/ou ambulatorial em pacientes estáveis e selecionados.

Elegibilidade típica para transição

EI de câmaras esquerdas por estreptococo, E. faecalis, S. aureus ou estafilococo coagulase-negativo, tratada IV por ≥10 dias (ou ≥7 dias pós-cirurgia), clinicamente estável, sem abscesso nem disfunção valvar exigindo cirurgia, com ETE de controle antes da troca. Encurta a internação sem perder eficácia. Duração total geralmente 2–6 semanas, conforme germe, válvula (nativa × prótese) e complicações.

Indicações de cirurgia e timing

Três motores da cirurgia. O que muda entre as versões é sobretudo o timing.

  1. Insuficiência cardíaca por regurgitação/obstrução valvar aguda grave → em geral urgente/emergente.
  2. Infecção não controlada: abscesso, pseudoaneurisma, fístula, vegetação crescente, germe resistente.
  3. Prevenção de embolia: vegetação grande (>10 mm) com evento embólico prévio, ou muito grande, sob terapia adequada.

Timing (ESC 2023): emergência <24 h · urgente 3–5 dias · eletiva na mesma internação. EI de prótese precoce (<6 meses): cirurgia com debridamento e troca. Decisão pelo Endocarditis Team.

Zona cinzenta — o momento cirúrgico no AVC embólico

A AHA individualiza o momento cirúrgico sobretudo em caso de embolia neurológica, pesando risco cirúrgico e comorbidades. Não há prazo único e categórico — é a decisão mais dependente de julgamento clínico do capítulo.

Capítulo 12

Febre Reumática

Diretrizes de referência

  • AHA 2015 — Revision of the Jones Criteria. Circulation 2015. Estratifica por risco populacional.
  • WHF — critérios ecocardiográficos para doença cardíaca reumática.
  • SBC — Diretrizes Brasileiras para diagnóstico, tratamento e prevenção da febre reumática. Brasil = população de alto risco.

Conceito e a virada dos critérios de Jones

Doença autoimune pós-faringite por estreptococo do grupo A (reação cruzada). A revisão de 2015 separou populações de baixo e de alto risco (como o Brasil) — e passou a aceitar o eco para cardite subclínica.

Regra diagnóstica: evidência de infecção estreptocócica prévia (ASLO, cultura/teste rápido) + 2 critérios maiores OU 1 maior + 2 menores. Em população de alto risco, os cortes dos critérios menores são mais sensíveis.

Critérios maioresCritérios menores
Cardite — incluindo subclínica pelo eco (novidade de 2015)
Poliartrite — em alto risco, também monoartrite ou poliartralgia
Coreia de Sydenham
Eritema marginado e nódulos subcutâneos (raros)
Febre; artralgia (em baixo risco)
PCR/VHS elevados
PR alargado no ECG
Cortes ajustados por risco populacional

Cardite — a que deixa sequela

A valva que importa

A valvulite é o que importa a longo prazo: insuficiência mitral na fase aguda; estenose mitral como sequela crônica, anos depois. A valva aórtica é a segunda. A coreia pode surgir isolada e tardia — e ainda assim fecha diagnóstico. A artrite é migratória e não deixa sequela.

Tratamento e profilaxia

  • Surto agudo: penicilina benzatina (erradica o estreptococo) — dose única. Artrite/artralgia: AINE (AAS/naproxeno). Cardite grave: corticoide; tratar a IC; casos extremos → cirurgia valvar. Coreia: repouso; valproato/carbamazepina se incapacitante.
  • Profilaxia secundária: penicilina benzatina IM a cada 21 dias — base da prevenção de recorrência. Duração conforme cardite: sem cardite ~5 anos ou até os 21 anos; com cardite/sequela, até os 40 anos ou vitalícia.
  • Profilaxia primária: tratar a faringite estreptocócica previne o 1º surto. Prevenção de endocardite na doença valvar reumática estabelecida conforme o risco (Capítulo 11).
Zona cinzenta

Doses, cortes por risco populacional e durações de profilaxia variam entre os documentos — o resumo original adverte explicitamente que devem ser conferidos nas fontes antes de aplicar. O rastreio ecocardiográfico populacional em áreas endêmicas (WHF) ainda não tem definição sobre custo-efetividade e conduta na "cardite limítrofe".

Capítulo 13

Antitrombóticos no Pós-operatório de Cirurgia Cardíaca

Diretrizes de referência

  • ACC/AHA 2020 — Valvular Heart Disease · ACC/AHA/SCAI 2021 — Coronary Revascularization.
  • ESC/EACTS 2021 e 2025 — Valvular Heart Disease.
  • SBC 2020 — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias. Ensaios COMPASS-CABG e GALILEO.

A decisão em três perguntas

  1. Precisa anticoagular? Existe indicação mandatória — prótese mecânica · FA · TEV/embolia prévia · trombo de VE · estenose mitral reumática.
  2. Qual a prótese? Mecânica → varfarina sempre. Biológica / plastia / TAVI → é aqui que mora a divergência EUA × Europa.
  3. Tem DAC? Se sim → AAS vitalício (Classe I), sem controvérsia.

Cenário 1 — indicações que obrigam anticoagulação plena

Se qualquer uma existir, o paciente sai anticoagulado, independentemente do tipo de prótese ou reparo: prótese mecânica (qualquer posição); fibrilação/flutter atrial (prévia ou nova no pós-op), guiada pelo CHA₂DS₂-VASc — a SBC recomenda aplicar o escore exceto em EM reumática e prótese mecânica, que anticoagulam de qualquer forma; TEV, trombo de VE, hipercoagulabilidade, embolia prévia; estenose mitral reumática.

Janela precoce

Se há FA nos primeiros 3 meses após bioprótese (cirúrgica ou transcateter), a varfarina é preferida ao DOAC — os dados de DOAC nessa fase inicial ainda são escassos (posição ACC/AHA).

Cenário 2 — prótese mecânica

Varfarina sempre; nunca DOAC (RE-ALIGN interrompido por excesso de AVC e sangramento). Alvos ACC/AHA 2020:

SituaçãoCondutaAlvo de INR
AVR mecânica bileaflet/disco atual, sem fatores de risco*Varfarina2,5
AVR mecânica com fator de risco* ou prótese antigaVarfarina3,0
AVR On-X sem fatores de risco (após 3 meses)Varfarina + AAS 75–100 mg1,5–2,0
Prótese mecânica mitralVarfarina3,0

*Fatores de risco: FA, disfunção de VE, tromboembolismo prévio, estado de hipercoagulabilidade. O AAS é associado à varfarina apenas se houver indicação antiplaquetária concomitante (DAC/aterosclerose) e baixo risco de sangramento.

Cenário 3 — bioprótese / plastia SEM indicação de anticoagulação

Fase inicial (3–6 meses) — convergência. ESC 2021: bioprótese aórtica sem indicação de base → AAS 75–100 mg ou varfarina nos primeiros 3 meses (IIa). ACC/AHA 2020: bioprótese SAVR/mitral com baixo risco de sangramento → varfarina com INR 2,5 por ≥3 e até 6 meses é razoável (IIa); alternativa: AAS 75–100 mg.

Divergência central — o longo prazo (após 3 meses)

ACC/AHA (escola americana): AAS vitalício é razoável na ausência de indicação de anticoagulação (IIa) — o "AAS sempre".
ESC/EACTS (escola europeia): sem antitrombótico se não houver outra indicação antiplaquetária (DAC/aterosclerose). Nesse caso, mantém-se AAS/varfarina só nos 3 meses e depois suspende.
A própria literatura de consenso reconhece que há pouca evidência dura sobre o AAS vitalício após bioprótese — a decisão acaba sendo institucional. A ESC 2025 manteve essa linha e apenas simplificou os esquemas.

Cenário 4 — DAC/CRM e TAVI

  • Pós-CRM ou DAC associada (Classe I): AAS vitalício (ACC/AHA/SCAI 2021), faixa 100–325 mg/dia. DAPT (AAS + P2Y12) por 12 meses se SCA ou anatomia complexa — não na CRM eletiva por doença estável.
  • TAVI: monoterapia com AAS é a preferida (ESC 2025). DAPT não é recomendada de rotina para prevenir trombose pós-TAVI, salvo outra indicação.

A armadilha: AAS + rivaroxabana — dois regimes que não se misturam

A resposta depende inteiramente da DOSE

Rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia + AAS 100 mgdupla via (regime COMPASS): indicação é prevenção secundária de aterosclerose (DAC/DAP crônica) — não proteção da prótese nem do enxerto. O COMPASS-CABG (1.448 pacientes randomizados 4–14 dias pós-CRM) mostrou que a combinação não reduziu falência/oclusão do enxerto, mas reduziu MACE na mesma magnitude do COMPASS geral, com sangramento baixo. Uso: coronariano de alto risco isquêmico + baixo risco de sangramento. Nunca associado a DAPT plena.

Rivaroxabana 10 mg 1×/dia + AAS — tromboprofilaxia de prótese pós-TAVI: Classe III (dano). O GALILEO foi interrompido precocemente por mais óbito, mais tromboembolismo E mais sangramento versus antiplaquetário. Contraindicado na ausência de outra indicação de anticoagulação (ACC/AHA 2020).

Testando a regra "AAS sempre"

  • Correto: "precisa anticoagular → deixa anticoagulante" — universalmente verdadeiro (mecânica, FA, TEV, trombo de VE, EM reumática).
  • Correto pela escola americana: "não precisa anticoagular, sem DAC → AAS sempre" (IIa). É a linha mais usada na prática brasileira.
  • Falso pela escola europeia: sem outra indicação antiplaquetária, mantém-se AAS/varfarina só nos primeiros 3 meses e depois suspende. AAS vitalício só se houver DAC/aterosclerose.

Parte IV

Arritmias e Dispositivos

Capítulo 14

Fibrilação Atrial

Diretrizes de referência

  • SBC 2025 — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618). Adotou o CHA₂DS₂-VA; manteve o HAS-BLED; encurtou para 24 h a janela de cardioversão.
  • ESC 2024 — Management of Atrial Fibrillation (Eur Heart J. 2024;45:3314-3414). Criou o AF-CARE e o escore CHA₂DS₂-VA; ablação 1ª linha na paroxística I A.
  • ACC/AHA/ACCP/HRS 2023 — Atrial Fibrillation (Circulation. 2024;149:e1-e156). Estadiamento em 4 estágios; mantém o CHA₂DS₂-VASc.
  • Ensaios: EAST-AFNET 4 · EARLY-AF / STOP-AF First · CABANA · CASTLE-AF · NOAH-AFNET 6 / ARTESiA · FRAIL-AF · CHAMPION-AF · coorte D'Angelo (Heart Rhythm 2026).

Definição e o estadiamento americano

FA = desorganização completa da atividade elétrica atrial — RR irregular, sem onda P definida, ondas f. Para ser FA clínica, exige-se registro de ≥30 segundos. ESC e SBC mantêm a classificação temporal clássica (paroxística ≤7 dias · persistente >7 dias · persistente de longa duração >12 meses · permanente, que é uma decisão de não mais tentar o ritmo). A ACC/AHA 2023 acrescentou um estadiamento em 4 estágios:

  • Estágio 1 — em risco: ainda sem FA, mas com fatores de risco (HAS, obesidade, apneia, álcool, DM).
  • Estágio 2 — pré-FA: achado estrutural ou elétrico predisponente (dilatação atrial, flutter, ESSV frequente).
  • Estágio 3 — FA: 3A paroxística · 3B persistente · 3C persistente de longa duração · 3D pós-ablação bem-sucedida.
  • Estágio 4 — permanente: abandonou-se o controle de ritmo.
O estágio 3D NÃO autoriza suspender o anticoagulante

A ablação trata o gatilho e o sintoma, mas não desfaz a miopatia atrial, e a monitorização convencional subestima a recorrência assintomática. A ESC exige anticoagulação por ≥2 meses após a ablação em todos, e depois disso a decisão volta a ser guiada pelo escore, não pelo ritmo. As três diretrizes concordam nisso. (O ensaio OCEAN foi desenhado exatamente para essa pergunta.)

As três molduras — AF-CARE, SOS e a linha de cuidado brasileira

  • ESC 2024 — AF-CARE: [C] comorbidades e fatores de risco (primeiro pilar) · [A] anticoagular · [R] reduzir sintomas (FC/ritmo) · [E] avaliação dinâmica.
  • ACC/AHA 2023 — SOS: Stroke risk · Optimize risk factors · Symptoms. Começa pelo AVC.
  • SBC 2025: sem acrônimo — equipe multidisciplinar, qualidade de vida, fatores de risco, antitrombótico e controle de FC/ritmo.
A crítica ao AF-CARE

Colocar comorbidade como primeiro passo faz sentido para prevenir FA — não para o paciente que chega com FA agora, em que a prioridade imediata é o AVC. Editorial do European Cardiology Review aponta que o ABC (ESC 2020) e o SOS (ACC/AHA) refletem melhor a sequência real de decisões. O AF-CARE é uma boa moldura de cuidado longitudinal, não um algoritmo de pronto-socorro.

Anticoagulação — a divergência do escore

Divergência central — o sexo saiu do escore?

ESC 2024 e SBC 2025: CHA₂DS₂-VA — o sexo feminino saiu como fator pontuável (virou "modificador de risco"). C IC (1) · H HAS (1) · A₂ idade ≥75 (2) · D DM (1) · S₂ AVC/AIT prévio (2) · V doença vascular (1) · A idade 65–74 (1). 0 → não anticoagular · 1 → considerar (IIa) · ≥2 → anticoagular (I).
ACC/AHA 2023: mantém o CHA₂DS₂-VASc (sexo dentro) e aceita também ATRIA e GARFIELD-AF — o limiar real é risco anual ≥2% (1).
Onde a divergência morde: mulher de 66 anos sem comorbidade tem VASc = 2 (americana anticoagula) e VA = 1 (europeia/brasileira apenas considera). O contraponto ao movimento europeu é que o sexo feminino segue associado a AVC mais grave — "atenuação" do risco relativo não é abolição.

Divergência — escore de sangramento

ESC 2024: aposentou o escore estruturado. Avaliação individualizada dos fatores de sangramento (I B) e proibição de usar escore para negar anticoagulação (III).
SBC 2025 e ACC/AHA 2023: mantêm o HAS-BLED — SBC com o corte ≥3 = alto risco, deixando explícito que alto risco NÃO contraindica anticoagular; serve para corrigir o modificável (PA, álcool, AINE, antiplaquetário desnecessário, INR lábil). A SBC seguiu a ESC no escore de AVC, mas a ACC/AHA no escore de sangramento — é um documento deliberadamente híbrido.

Qual anticoagulante — consenso das três: DOAC preferido à varfarina, exceto em prótese valvar mecânica e estenose mitral reumática moderada a grave (varfarina, INR 2–3). Isso é o que restou da antiga "FA valvar" — termo abandonado pelas três. Não associar antiplaquetário ao anticoagulante só para prevenir AVC (III); na DAC crônica >1 ano, anticoagulante em monoterapia (ACC/AHA 1) — o ensaio AQUATIC depois reforçou. Não reduzir a dose do DOAC fora dos critérios de bula (III) — erro frequente e caro.

A recomendação europeia mais contraintuitiva — FRAIL-AF

Idoso frágil >75 anos, estável e dentro da faixa terapêutica com varfarina: a ESC 2024 recomenda NÃO trocar por DOAC — no ensaio FRAIL-AF, a troca aumentou sangramento sem reduzir eventos. SBC e ACC/AHA não trazem essa ressalva com o mesmo destaque. Regra prática: começando do zero, DOAC; idoso frágil já bem em varfarina, não mexa.

Oclusão do apêndice atrial esquerdo

Divergência de grau

ACC/AHA 2023 (a mais permissiva): CHA₂DS₂-VASc ≥2 + contraindicação ao anticoagulante → 2a; risco moderado-alto de AVC + alto risco de sangramento em uso de OAC → 2b.
ESC 2024: apenas IIb na contraindicação ao anticoagulante; oclusão cirúrgica como adjuvante (nunca substituto) na cirurgia cardíaca — IIa (LAAOS III).
SBC 2025: reserva à contraindicação por alto risco de sangramento — linha europeia.
Nenhuma aprova a oclusão como 1ª linha em quem pode anticoagular — ver zona cinzenta do CHAMPION-AF, abaixo.

Controle de frequência × controle de ritmo

O EAST-AFNET 4 desfez o velho "tanto faz" do AFFIRM: em FA diagnosticada há ≤1 ano e com risco cardiovascular, o controle precoce de ritmo reduziu morte CV, AVC e hospitalização. A ESC codificou isso como implementar ritmo dentro de 12 meses do diagnóstico (IIa). Não se extrapola para o octogenário assintomático em FA permanente há anos com átrio de 6 cm.

  • SBC 2025 — quem prioriza ritmo (a lista mais útil das três): <65 anos com remodelamento atrial discreto/moderado · sintomáticos · IC · taquicardiomiopatia · FC de difícil controle · alto risco tromboembólico. Só frequência basta no muito idoso ou no assintomático com função ventricular normal.
  • Controle de FC: betabloqueador (qualquer FE) · digoxina — reabilitada pela ESC 2024 como opção de 1ª linha (qualquer FE) · diltiazem/verapamil somente se FEVE >40%.
  • Cardioversão elétrica como teste diagnóstico na FA persistente, quando há dúvida sobre quanto o ritmo sinusal melhora o sintoma ou a FEVE (ESC IIa) — subutilizada.
Divergência brasileira — a janela para cardioverter sem anticoagulação prévia

A SBC 2025 encurtou o corte clássico de 48 h para 24 h: só reverta o paciente estável se a FA tiver <24 horas de início e baixo risco tromboembólico. Fora disso — 3 semanas de anticoagulação efetiva antes, ou ETE sem trombo e reverte. 4 semanas de anticoagulação depois, sempre. A ACC/AHA 2023 trabalha com a lógica tradicional das 48 h + baixo risco. No Brasil, o corte que vale é 24 horas.

Ablação por cateter

  • ESC 2024 — FA paroxística, ablação como 1ª linha: subiu de IIa B para I A. O lastro são o EARLY-AF e o STOP-AF First (criobalão × antiarrítmico como terapia inicial) — não o CABANA.
  • ACC/AHA 2023: 1ª linha na paroxística sintomática 1 em selecionados — jovens, poucas comorbidades; nos demais, 2a. Após falha/intolerância a antiarrítmico: 1.
  • SBC 2025: 1ª linha em jovem sem comorbidades e na FA + IC com FE reduzida; indicada na falha/intolerância ao antiarrítmico.
  • FA + ICFEr: ablação recomendada nas três (CASTLE-AF; reforçado pelo CASTLE-HTx).
  • FA persistente: não recebeu o mesmo I A — o isolamento de veias pulmonares rende menos e nenhuma estratégia adicional (linhas, CFAE) provou benefício (STAR-AF II foi neutro).
O CABANA não provou que a ablação é melhor

Desfecho primário composto negativo na intenção de tratar; positivo apenas na análise as-treated (que não é randomizada) e em qualidade de vida/recorrência. No subgrupo ≥75 anos chegou a sinalizar HR 1,39 (NS) contra a ablação. Citar o CABANA como base do "I A" da ESC é erro comum.

Antiarrítmicos — a pergunta que organiza tudo: há cardiopatia estrutural?

  • Coração estruturalmente normal: propafenona / flecainida (classe IC) — sempre com bloqueador do nó AV associado, sob risco de organizar a FA em flutter 1:1.
  • DAC, hipertrofia importante, disfunção de VE: classe IC está CONTRAINDICADA (proarritmia — a lição do CAST). Restam: amiodarona (a mais eficaz, a única segura na ICFEr, e a mais tóxica — tireoide, pulmão, fígado, córnea); sotalol (vigiar QT e função renal); dronedarona (contraindicada na IC descompensada/FEVE reduzida e na FA permanente — ANDROMEDA e PALLAS mostraram aumento de mortalidade).
  • Ponto contraintuitivo (ESC e SBC concordam): a amiodarona é eficaz em todos, mas justamente pela toxicidade extracardíaca outras opções devem ser tentadas antes quando o perfil permite. Ela é a droga cardiologicamente segura — não "a droga segura".
  • Arsenal citado pela SBC 2025: propafenona, amiodarona e sotalol.
FA na pré-excitação (WPW) — o que NÃO fazer

Não usar bloqueadores do nó AV (adenosina, verapamil, diltiazem, digoxina, betabloqueador) — favorecem a condução pela via acessória, com risco de degeneração em fibrilação ventricular. Instável → cardioversão elétrica. Estável → procainamida (ou ibutilida). Definitivo: ablação da via acessória.

Modificação de fatores de risco — agora com números

  • ESC 2024: perda de peso com meta de ≥10% do peso corporal (I) · álcool ≤3 doses padrão (≤30 g) por semana (I) · programa de exercício individualizado (I), mantendo 150–300 min/sem moderado · iSGLT2 na IC + FA independentemente da FEVE (I).
  • ACC/AHA 2023: emagrecer se IMC >27 · exercício 210 min/semana · cessar tabagismo · minimizar/eliminar álcool · controle ótimo da PA · rastrear distúrbio respiratório do sono.
  • Apneia: tratar é apenas IIb na ESC (os RCTs de CPAP para reduzir FA decepcionaram), mas rastrear só com questionário de sintomas é III — se suspeitar, faça o exame do sono, não o STOP-BANG isolado.

Leitura crítica — antiarrítmico × ablação no idoso

Coorte retrospectiva (D'Angelo et al., Heart Rhythm 2026; Optum Clinformatics, 2016–2022; n=13.311) de pacientes ≥65 anos com FA após falha a 1 antiarrítmico, comparando trocar de fármaco (n=7.230) × ablação por cateter (n=6.081), com IPTW.

DesfechoHR (IC 95%)
Recorrência atrial0,76 (0,65–0,89)Significativo
Cardioversão elétrica0,74 (0,60–0,91)Significativo
Internação por IC0,63 (0,45–0,90)Significativo
AVC isquêmico0,45 (0,28–0,72)Significativo
Morte (todas as causas)0,76 (0,48–1,20)NS
Internação por IAM1,01 (0,47–2,14)NS

Segurança: ablação — 5,9% de complicação em 30 dias (AVC isquêmico 1,3%; SCA 1,1%; sangramento 1,1%; tamponamento/perfuração 0,7%; fístula atrioesofágica 0,07%). Antiarrítmicos — 45,4% de algum evento adverso em 1 ano (proarritmia atrial 12,2%; bradicardia 12,2%; IC 9,1%; injúria renal 7,1%; disfunção tireoidiana 6,3%).

Pontos de atenção — por que não mudar de conduta com base nisso
  • Dados administrativos: risco de má-classificação por códigos; a recorrência de FA pode ser subcaptada.
  • Confundimento residual: sem FE, função diastólica, fragilidade ou status funcional nos claims.
  • Janelas assimétricas: complicação da ablação medida em 30 dias × evento adverso do fármaco em 12 meses — a comparação não é 1:1.
  • Discordância com RCTs: metanálise de ensaios randomizados não mostrou benefício em ≥65 anos (HR 0,93; NS); o CABANA em ≥75 anos até sinalizou risco (HR 1,39; NS).
  • Financiamento: estudo financiado pela J&J (fabricante de tecnologia de ablação); três autores são funcionários com participação acionária.
  • Generalização: amostra de Medicare Advantage + comercial.

Numa análise de sensibilidade com ablação de 1ª linha (n=41.845), apareceu benefício de mortalidade (HR 0,49) — possível paralelo ao EAST-AFNET 4 —, mas a recorrência não diferiu (HR 0,90; NS).

Conclusão: nenhuma diretriz indica ablação pela idade. O que decide é sintoma, fragilidade, tamanho atrial e chance real de manter o ritmo sinusal. Coorte observacional bem feita não vira classe de recomendação.

Outras zonas cinzentas

FA subclínica / AHRE detectada por dispositivo — anticoagular?

Dois ensaios randomizados dedicados. NOAH-AFNET 6 (edoxabana × nada, AHRE ≥6 min) foi interrompido precocemente por excesso de sangramento com tendência à futilidade. ARTESiA (apixabana × AAS) mostrou redução pequena de AVC com aumento de sangramento maior. A metanálise dos dois quantifica o dilema: ≈32% de redução relativa de AVC e ≈62% de aumento relativo de sangramento maior.

A ACC/AHA 2023 é a única que dá cortes operacionais: AHRE ≥24 h + CHA₂DS₂-VASc ≥2 → anticoagular é razoável (2a); AHRE de 5 min a 24 h + VASc ≥3 → pode ser razoável (2b); AHRE <5 min sem outra indicação → não anticoagular (3). A ESC 2024 trata o tema em seção própria e recusa-se a equiparar FA subclínica à FA clínica. O eixo é duração do episódio × risco basal — e o benefício líquido é pequeno em qualquer cenário. É conversa, não automatismo.

FA pós-operatória e o muito idoso com risco de queda

POAF: a ACC/AHA manda seguimento ambulatorial da FA descoberta em cirurgia ou doença aguda — "alto risco de recorrência" —, mas admite que, na FA da sepse/doença crítica, o benefício da anticoagulação é incerto. Faltam ensaios randomizados; as classes são fracas. O que é seguro: POAF não é benigna e o paciente precisa ser reavaliado semanas depois, não esquecido.

Risco de queda: o argumento "ele cai, não posso anticoagular" é quantitativamente falso — a estimativa clássica é de que seriam necessárias ~295 quedas por ano para que o hematoma subdural superasse o benefício de evitar o AVC. Nenhuma das três diretrizes aceita queda como contraindicação. O que é genuinamente cinzento: demência avançada com expectativa curta (é discussão de objetivos de cuidado, não de escore); o idoso frágil estável em varfarina (FRAIL-AF: não troque); e a hemorragia intracraniana prévia — a SBC 2025 dedicou seção a isso, e o ENRICH-AF levantou sinal de segurança em hemorragia lobar. Aqui não há resposta de diretriz: há decisão compartilhada.

CHAMPION-AF — a diretriz ainda não acompanhou o ensaio

Nenhuma diretriz vigente aprova a oclusão de apêndice em quem pode anticoagular. Mas o CHAMPION-AF (NEJM, março de 2026) randomizou justamente candidatos elegíveis a DOAC para Watchman FLX × DOAC e, em 3 anos, foi não inferior em eficácia (5,7% × 4,8%) e superior em sangramento não procedural, com benefício clínico líquido a favor do dispositivo (15,1% × 21,8%; p<0,001). As três diretrizes são anteriores a esse dado. Em 2026, um paciente com FA, risco embólico alto e sangramento recorrente já tem base de ensaio randomizado para discutir oclusão — mas não tem cobertura de diretriz. Diga isso a ele com essas palavras.

Capítulo 15

Arritmias Ventriculares, Bradiarritmias e Estimulação Cardíaca

Diretrizes de referência

  • ESC — Arritmias ventriculares e morte súbita 2022 · Estimulação cardíaca e TRC 2021 · SVT 2019.
  • ACC/AHA/HRS — Arritmias ventriculares 2017 · Bradicardia e distúrbios de condução 2018.
  • SBC — Diretriz de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis (DCEI) 2023.

Taquicardias supraventriculares

  • TRN (reentrada nodal) e TRAV (via acessória): manobra vagal → adenosina → cardioversão se instável. Tratamento definitivo: ablação por cateter (alta taxa de cura).
  • Flutter atrial típico: ablação do istmo cavotricuspídeo é muito eficaz.
  • WPW com FA: não usar bloqueadores nodais (adenosina, verapamil, digoxina) — risco de condução rápida e FV.

Arritmias ventriculares e CDI

  • Prevenção primária: ICFEr com FE ≤35%, CF II–III, sob terapia otimizada ≥3 meses — isquêmica (≥40 dias pós-IAM) ou não isquêmica. Na não isquêmica o benefício é mais modesto (DANISH) — individualizar; a RM com realce tardio ajuda.
  • Prevenção secundária: sobrevivente de FV/TV sem causa reversível → CDI.
  • Canalopatias e cardiomiopatias genéticas: risco estratificado por marcadores específicos (Capítulo 20).
  • TV — tratamento agudo: instável → cardioversão/desfibrilação; estável → antiarrítmico (amiodarona, procainamida). Ablação de TV na tempestade elétrica e na TV recorrente com cicatriz. Corrigir isquemia e distúrbios eletrolíticos.

Critérios completos de CDI, TRC e transplante estão no Capítulo 7.

Bradicardia e marcapasso

  • Disfunção do nó sinusal sintomática; BAV de 2º grau Mobitz II; BAVT → marcapasso.
  • Correlacionar sintoma com bradiarritmia antes de implantar — é a regra mais violada da eletrofisiologia clínica.

Ressincronização e estimulação fisiológica

TRC: ICFEr com FE ≤35% + BRE + QRS largo (benefício maior se ≥150 ms), CF II–IV, ritmo sinusal, sob terapia otimizada. Menor benefício sem BRE ou com QRS mais estreito.

Novidade — estimulação do sistema de condução

Estimulação do feixe de His e da área do ramo esquerdo (LBBAP) — ativação mais fisiológica, alternativa à TRC e à estimulação de VD em casos selecionados.

Zona cinzenta

A estimulação do sistema de condução ainda está em incorporação — escores, cortes de FE/QRS e as indicações exatas de dispositivo devem ser conferidos nos documentos originais. A divergência formal mais relevante segue sendo CDI no não isquêmico (ESC IIa × ACC/AHA I) — ver Capítulo 7.

Parte V

Miocárdio e Pericárdio

Capítulo 16

Miocardites

Diretrizes de referência

  • SBC 2022 — Diretriz de Miocardites. Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143-211 (Montera et al.). Atualiza a I Diretriz de 2013.
  • ESC 2025 — Myocarditis and Pericarditis (integrada). Eur Heart J. 2025;46(40):3952-4041. 1ª diretriz formal; conceito IMPS.
  • ACC 2024 — Expert Consensus Decision Pathway. JACC, dez/2024. Estadiamento A→D; via de 5 passos.

O que é cada documento

A diferença começa no escopo: a SBC atualiza um documento nacional consolidado; a ESC cria pela primeira vez uma diretriz formal (antes só havia consensos) e integra miocardite + pericardite; o ACC publica um caminho de decisão, não uma diretriz de classes de recomendação. A SBC é o único documento que dá peso próprio à miocardite chagásica.

Conceito novo — IMPS (ESC 2025)

Miocárdio e pericárdio são um continuum anatômico, e a inflamação raramente respeita a fronteira entre eles. IMPS (síndrome miopericárdica inflamatória) é o termo usado durante a investigação inicial, até se chegar ao diagnóstico final de miocardite, pericardite ou miopericardite. Janelas temporais: agudo ≤1 mês · subagudo · crônico >3 meses.

Definição e classificação histológica

Base histológica/imuno-histoquímica consensual (critérios de Dallas + imuno-histoquímica). Critério imuno-histoquímico (SBC 2022): infiltrado inflamatório anormal = ≥14 leucócitos/mm² (incluindo até 4 monócitos/mm²) + linfócitos T CD3⁺ ≥7/mm², com necrose/degeneração de cardiomiócitos de origem não isquêmica.

Classificação pelo infiltrado (comum às três): linfocítica (a mais comum no adulto, mediana ~42 anos) · eosinofílica · polimórfica · células gigantes · sarcoidose cardíaca. Etiologias: infecciosas (virais em 1º lugar), autoimunes/imunomediadas e tóxicas (álcool, cocaína, antraciclinas, inibidores de checkpoint).

Estratificação — onde as três divergem conceitualmente

SBC — suspeita clínicaESC — grupos de riscoACC — estágios (como IC)
Baixa — sem gravidade, FE preservada, sem arritmia → só acompanhamento.
Intermediária — FE preservada ou disfunção em melhora → cardioproteção.
Alta — disfunção/instabilidade → investigação e tratamento intensivos.
Baixo/intermediário → conduta ambulatorial com reavaliação em 1 semana.
Alto riscointernação imediata.
Tudo sob o guarda-chuva IMPS até o diagnóstico definitivo.
A — fatores de risco, sem doença.
B — evidência de miocardite sem sintomas.
C — sintomático.
D — sintomático com instabilidade hemodinâmica ou elétrica.

Investigação diagnóstica

Convergência forte: RM cardíaca como pilar não invasivo e biópsia endomiocárdica (BEM) como padrão-ouro, reservada e dirigida.

  • SBC 2022: RMC pelos critérios de Lake Louise — sensibilidade 67% / especificidade 91%. Classe I: troponina elevada + coronárias normais; miocardiopatia dilatada com suspeita >6 meses. Classe IIa: reavaliar RMC em ≤4 semanas no risco intermediário/alto.
  • ESC 2025: RMC no início e repetir em 6 meses. Sorologia viral NÃO é rotina — só HCV, HIV e Lyme. BEM reservada a formas graves/choque/refratárias, em centro de referência; valoriza PCR viral no tecido. Teste genético se história familiar de cardiomiopatia/morte súbita, pericardite recorrente ou achados sugestivos.
  • ACC 2024: hs-cTn útil e prognóstica, mas valor normal não exclui. FDG-PET em casos selecionados (sarcoidose). BEM dirigida à etiologia (células gigantes) ou para excluir mimetizadores. Aconselhamento + teste genético para todos, quando possível.
Pegadinha

Troponina, ECG e ecocardiograma normais não afastam miocardite quando a suspeita clínica é alta — os três documentos reforçam isso. O ECG clássico tem supra de ST côncavo, difuso, sem imagem em espelho, transitório e reversível (≠ isquemia).

Tratamento

  • SBC: suspeita baixa sem disfunção → sem medicação, só seguimento. Intermediária → betabloqueador + IECA/BRA por ≥12 meses (cardioproteção). FE reduzida → tratar como ICFEr. Linfocítica com pesquisa viral negativa → imunossupressão por 6 meses pode beneficiar.
  • ESC: IC pela diretriz de IC; arritmia → considerar betabloqueador. Corticoide com indicação e dose especificadas; 2ª/3ª linha imunossupressora. Colete desfibrilador (~6 meses) nas arritmias ameaçadoras, reavaliando CDI depois.
  • ACC: AINE/colchicina para dor pericárdica — evitar na IC sintomática. Seguimento longitudinal com imagem.
Imunossupressão — a regra comum às três

Indicada nas miocardites autoimunes/imunomediadas comprovadas por biópsia: células gigantes, eosinofílica e sarcoidose cardíaca. Na linfocítica viral-negativa, SBC e ESC admitem benefício. Nunca imunossuprimir com PCR viral positivo ativo sem essa ressalva.

Retorno à atividade física — a maior divergência

DocumentoAbstençãoReavaliação antes do retorno
SBC 2022~6 meses de afastamento de esporte competitivo/esforço intensoEco, RMC, Holter, marcadores
ACC 20243–6 meses sem exercício extenuante (estágio C/D)RMC/eco, ECG de 24 h, teste de esforço
ESC 2025Repouso absoluto encurtado para ~1 mêsHolter, eco, marcadores inflamatórios/de dano, teste de esforço
Divergência — a ESC é a mais liberal

A ESC 2025 encurtou o repouso absoluto para ~1 mês, enquanto SBC e ACC mantêm a postura clássica de 3–6 meses. Em todas, o retorno é condicionado à reavaliação, não ao calendário puro.

Formas específicas

  • Células gigantes: curso agressivo — BAV + arritmias ventriculares + IC refratária. BEM confirma. Imunossupressão precoce e avaliação para suporte circulatório/transplante. Alta mortalidade sem tratamento.
  • Sarcoidose cardíaca: suspeitar em BAV em jovem ou TV inexplicada. FDG-PET e RMC no diagnóstico; corticoide + imunossupressor; frequente indicação de CDI.
  • Eosinofílica: hipersensibilidade, parasitoses, síndrome hipereosinofílica. Buscar causa + corticoide. Pode cursar com trombo mural.
  • Fulminante: instabilidade hemodinâmica aguda. Suporte circulatório precoce (ECMO/Impella) — a sobrevida na fase aguda costuma trazer boa recuperação de FE.
  • Por inibidor de checkpoint: alta letalidade. Suspender o fármaco + corticoide em dose alta; imunossupressão adicional se refratário (ver Capítulo 28).
  • Chagásica (ênfase SBC): causa relevante de miocardite aguda no Brasil, sobretudo em surtos de transmissão oral. Sorologia/parasitemia + benznidazol na fase aguda. Diferencial obrigatório no nosso meio.

Capítulo 17

Doenças do Pericárdio

Diretrizes de referência

  • ESC 2025 — Myocarditis and Pericarditis (integrada). Substitui a diretriz de pericárdio de 2015. Anti-IL-1 na pericardite recorrente.
  • SBC — I Diretriz de Miocardites e Pericardites. TB como etiologia relevante.
  • AHA/ACC — statements científicos; sem diretriz formal dedicada.
  • Ensaios: ICAP/CORP (colchicina) · RHAPSODY (rilonacepte).

Pericardite aguda

Diagnóstico clínico — ≥2 de 4 critérios:

  1. Dor torácica pleurítica que melhora sentado e inclinado para frente;
  2. Atrito pericárdico;
  3. Supra de ST difuso côncavo e/ou infra de PR;
  4. Derrame pericárdico novo ou em piora.

Marcadores: PCR/VHS elevados; troponina se miopericardite.

Tratamento — a colchicina é o que previne recorrência

AINE em dose plena (AAS se pós-IAM) + colchicina por 3 meses — reduz a recorrência pela metade. Corticoide só em 2ª linha (contraindicação a AINE, autoimune) e em dose baixa: dose alta favorece a cronificação. Restrição de exercício até a normalização de sintomas e marcadores.

Pericardite recorrente — a grande novidade

ESC 2025 — bloqueadores de IL-1

Recorrência dependente de corticoide ou refratária à colchicina → anakinra ou rilonacepte (bloqueio de IL-1) mudam o curso (ensaios RHAPSODY). Considerar também azatioprina e IVIG como poupadores de corticoide. O objetivo é sair do corticoide, que perpetua o ciclo.

Tamponamento e derrame

A urgência do pericárdio. É diagnóstico clínico + eco — não esperar exame para tratar o instável.

  • Tríade de Beck: hipotensão + turgência jugular + bulhas abafadas.
  • Pulso paradoxal (queda >10 mmHg da PAS na inspiração).
  • Eco: colapso de câmaras direitas, variação respiratória dos fluxos, VCI pletórica.
  • Tratamento: pericardiocentese (guiada por eco). Não dar diurético nem vasodilatador.

Quando drenar: tamponamento; suspeita de causa bacteriana ou neoplásica; derrame grande sintomático. Derrame crônico grande e estável → considerar drenagem se >3 semanas.

Etiologia no Brasil

Tuberculose é causa importante de derrame/pericardite (e de constrição) no nosso meio. Investigar também neoplasia, uremia, autoimune, viral e pós-IAM (Dressler).

Pericardite constritiva

A "grande imitadora" da IC direita. Pericárdio rígido → enchimento restrito. Sinais: knock pericárdico, sinal de Kussmaul, VCI dilatada. Eco: interdependência ventricular (septo em bounce, variação respiratória dos fluxos mitral/tricúspide).

Diferencial-chave — constritiva × restritiva

Constritiva = pericárdio (interdependência ventricular, Kussmaul, knock) → tratamento definitivo é a pericardiectomia. Restritiva = miocárdio (ex.: amiloidose — Capítulo 18). Formas transitórias/inflamatórias da constrição podem responder a anti-inflamatório — distinguir a constrição "definitiva" da transitória é a zona cinzenta prática.

Capítulo 18

Amiloidose Cardíaca

Diretrizes de referência

  • SBC 2021 — Posicionamento sobre Diagnóstico e Tratamento da Amiloidose Cardíaca. Arq Bras Cardiol. 2021;117(3):561-598 (Simões et al.).
  • ESC 2021 — Position statement do WG on Myocardial & Pericardial Diseases. Eur Heart J. 2021;42(16):1554-1568 (Garcia-Pavia et al.). + ESC 2023 (cardiomiopatias).
  • ACC 2023 — Expert Consensus Decision Pathway (Kittleson et al.) + ACC 2025 — Concise Clinical Guidance.
  • Ensaios: ATTR-ACT (tafamidis) · ATTRibute-CM (acoramidis) · HELIOS-B (vutrisiran).

Conceito

Cardiomiopatia infiltrativa por depósito extracelular de fibrilas amiloides no interstício miocárdico → rigidez ventricular, disfunção diastólica e fenótipo de cardiomiopatia restritiva com ICFEp que evolui para FE reduzida nas fases avançadas. Marca fisiopatológica: espessamento parietal por infiltração (não por hipertrofia de miócitos) → discrepância clássica paredes grossas ao eco com baixa voltagem ao ECG.

AL × ATTR

Mais de 95–98% dos casos cardíacos são AL ou ATTR. Diferenciá-los é obrigatório — tratamento e prognóstico são radicalmente distintos.

AL (cadeia leve)ATTR (transtirretina)
ProteínaCadeia leve de imunoglobulina (discrasia plasmocitária)Transtirretina (produzida no fígado)
SubtiposAssociada a mieloma / MGUSATTRwt (wild-type) e ATTRv (variante/hereditária)
PerfilQualquer idade; sistêmica agressivaATTRwt: homens >70 anos. ATTRv: depende da mutação (V122I/Val142Ile em afrodescendentes; Val30Met neuropático)
VelocidadeRápida — "emergência cardiológica"Mais indolente
ExtracardíacoRim (síndrome nefrótica), macroglossia, púrpura periorbital, neuropatiaTúnel do carpo bilateral, estenose de canal lombar, ruptura do bíceps, neuropatia (ATTRv)
CintilografiaHabitualmente negativa/baixa captaçãoPositiva (Perugini 2–3)
TratamentoQuimioterapia (dara-CyBorD)Estabilizadores / silenciadores de TTR

Red flags

Cardíacos: ICFEp com espessamento de VE sem hipertensão que o justifique; baixa voltagem no ECG apesar de paredes grossas; padrão de pseudoinfarto (ondas Q em precordiais sem coronariopatia); estenose aórtica de baixo fluxo/baixo gradiente no idoso; distúrbios de condução, FA; intolerância a IECA/BRA e betabloqueador (hipotensão).
Extracardíacos: túnel do carpo bilateral (precede anos), estenose de canal lombar, ruptura espontânea do tendão do bíceps, polineuropatia/disautonomia. Na AL: macroglossia, púrpura periorbital, proteinúria.

Armadilha — a baixa voltagem não é sensível

A SBC registra que <40% dos ATTR confirmados por biópsia têm baixa voltagem no ECG. Portanto, um ECG normal ou com sobrecarga de VE não afasta amiloidose. O sinal de maior valor é a desproporção entre voltagem e espessura miocárdica.

Imagem

  • Eco: espessamento biventricular, aspecto miocárdico granular/"sparkling", aumento biatrial, espessamento do septo interatrial e das valvas, derrame pericárdico. Strain com apical sparing (bull's-eye em "cereja no topo") — sensível e relativamente específico, mas não patognomônico.
  • RMC: realce tardio subendocárdico difuso → transmural; cinética anômala do gadolínio; T1 nativo elevado e VEC aumentado (carga amiloide e prognóstico).

O algoritmo diagnóstico — consenso entre as três

  1. Suspeita — red flags + imagem sugestiva. Dosar troponina e NT-proBNP.
  2. Rastreio de proteína monoclonal — SEMPRE primeiro. Os três exames juntos: imunofixação sérica + imunofixação urinária + cadeias leves livres séricas (κ/λ). Eletroforese isolada não basta.
  3. Cintilografia com traçador ósseo (PYP/DPD/HMDP) → grau de Perugini.
  4. Cruzamento decisório.
Perugini 0–1Perugini 2–3
Monoclonal negativoATTR improvável (RM/biópsia se a suspeita persistir)ATTR-CM confirmada sem biópsia → teste genético TTR
Monoclonal positivoBiópsia + espectrometria de massaBiópsia obrigatória — não assumir ATTR
A regra de ouro — e o erro clássico

Só se dispensa a biópsia no quadrante monoclonal negativo + Perugini 2–3 (especificidade ~100% na ausência de gamopatia). Qualquer proteína monoclonal presente reabre a necessidade de biópsia com tipagem — porque a causa mais comum de "falso ATTR" é uma AL não excluída. A AL também pode captar.
Escala de Perugini: 0 = sem captação · 1 = captação < óssea (duvidoso) · 2 = captação ≈ óssea · 3 = captação > óssea com atenuação do sinal ósseo. Relação coração/hemitórax contralateral ≥1,5 reforça positividade. Sempre confirmar com SPECT para garantir que a captação é miocárdica (evita falso-positivo por pool cavitário).

Divergência — o gatilho de rastreio

ESC 2021: gatilho objetivo — espessura de parede do VE ≥12 mm + ao menos 1 red flag. SBC e ACC: gatilho clínico-radiológico (red flags + imagem). O algoritmo em si é praticamente sobreponível entre as três (lógica de Gillmore).

Tratamento modificador — ATTR

TerapiaSBC 2021 / ESC 2021ACC 2023ACC 2025
Estabilizador de TTRTafamidis (ATTR-ACT) — único com desfecho; diflunisal off-label mencionadoTafamidis consolidado; agentes emergentes citadosTafamidis + acoramidis (ATTRibute-CM)
Silenciador de TTRPatisiran/inotersen — na época aprovados só para polineuropatia, não para cardiomiopatiaEm investigação para o fenótipo cardíacoVutrisiran (HELIOS-B) aprovado para ATTR-CM — exige suplementação de vitamina A; eplontersen em fase III
A divergência aqui é cronológica — e como usá-la

Se a questão citar SBC ou ESC (2021), a resposta terapêutica esperada para ATTR-CM é tafamidis. Se citar a ACC atualizada ou "cenário 2024–2025", entram acoramidis e vutrisiran. Silenciadores para polineuropatia ≠ silenciadores para cardiomiopatia — a aprovação cardíaca do vutrisiran é recente (2025).
Ponto fino de evidência: metanálises mostram que a classe dos estabilizadores reduziu significativamente mortalidade e hospitalização; a evidência de redução de mortalidade dos silenciadores na doença cardíaca ainda é menos robusta. Todas as drogas freiam, não revertem — daí a ênfase unânime no diagnóstico precoce e no início em NYHA I–II.

AL — consenso nas três: tratamento hematológico (esquemas com bortezomibe; dara-CyBorD), transplante autólogo em elegíveis. O cardiologista maneja a IC e articula o cuidado; a resposta hematológica precoce é o que protege o coração.

Manejo de suporte — o que evitar

O coração amiloide é dependente de pré-carga e de frequência

Isso inverte várias condutas habituais da IC.
Pilar: diurético de alça (± antagonista mineralocorticoide) para a congestão. Anticoagular na FA com baixo limiar — alto risco tromboembólico (trombo atrial mesmo sem FA sustentada), independentemente do CHA₂DS₂-VASc.
Evitar: betabloqueadores (débito dependente de FC — mal tolerados); IECA/BRA (hipotensão, sobretudo com disautonomia); digoxina (liga-se às fibrilas → toxicidade); verapamil/diltiazem (mesma lógica de ligação e bradicardia).

Prognóstico: NT-proBNP e troponina são os pilares dos escores (Mayo na AL; na ATTR o estadiamento combina NT-proBNP com função renal/TFG). RMC (VEC, T1) e grau de realce tardio agregam informação. Marcapasso nos distúrbios de condução; transplante cardíaco em casos selecionados.

Capítulo 19

Cardiomiopatia Hipertrófica

Diretrizes de referência

  • SBC 2024 — Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e202400415 (Fernandes, Simões et al.). 1ª diretriz nacional dedicada.
  • AHA/ACC 2024 — Hypertrophic Cardiomyopathy. JACC 83(23):2324.
  • ESC 2023 — Cardiomiopatias (documento único). Eur Heart J 44(37):3503.

Definição

Hipertrofia miocárdica que aumenta a espessura das paredes sem dilatação ventricular nas fases iniciais, na ausência de outra doença capaz de justificá-la.

  • Espessura diastólica ≥15 mm em qualquer segmento (adultos) — consenso entre as três.
  • ≥13 mm em familiar de caso confirmado ou com teste genético positivo.
  • Pediatria: indexar à superfície corporal (z-score >2).
Terminologia atual

CMH "com ou sem obstrução" da via de saída — abandona-se a divisão rígida obstrutiva/não obstrutiva, pois a obstrução é dinâmica e pode surgir ao longo do tempo. Prevalência 1:500 pelo fenótipo (até 1:200 incluindo genótipo+); ~400 mil afetados no Brasil. Herança autossômica dominante, sarcomérica. É a cardiopatia genética mais prevalente e a principal causa de morte súbita em jovens e atletas.

Fisiopatologia e limiares de gradiente

Seis mecanismos: obstrução dinâmica (hipertrofia septal + movimento sistólico anterior — MSA da mitral; presente/provocável em ~75%), isquemia (microvascular, sem aterosclerose), arritmias (fibrose como substrato), insuficiência mitral secundária ao MSA, disfunção diastólica e disfunção autonômica.

Os números — consenso entre as três

Pico no TSVE ≥30 mmHg (repouso ou provocado) = CMH obstrutiva. ≥50 mmHg = obstrução significativa → considerar terapia de redução septal se sintomas refratários. Manobras provocativas se o gradiente em repouso for <30 mmHg: Valsalva, ortostase, nitrito de amilo, exercício.

Exames

  • ECG (alterado em 90%): pseudoinfarto (ondas Q ínfero-laterais); ondas T negativas gigantes laterais → marcador de CMH apical; BRE é incomum e sugere intervenção septal prévia.
  • Eco (I·B, método inicial): manobras provocativas se gradiente <50; strain/GLS; função diastólica; aneurisma apical (aumenta o risco de morte súbita). Reavaliar a cada 1–2 anos mesmo sem mudança clínica.
  • RMC: realce tardio (fibrose) = pior prognóstico — ≥15% da massa dobra o risco de morte súbita. Diagnóstico diferencial de fenocópias; mapa T1.
  • TC: coronárias e ramos septais (planejamento de alcoolização). BNP/NT-proBNP e troponina são prognósticos, não diagnósticos — e não predizem morte súbita nem implante de CDI.

Genética e fenocópias

Doença do sarcômero; diagnóstico molecular em 45–60% dos casos (NGS). MYH7 + MYBPC3 ≈ 70% das variantes patogênicas. SARC+: mais jovem, mais fibrose, mais história familiar/MS, menos obstrução em repouso. SARC−: comorbidades (HAS/obesidade), septo sigmoide, mais obstrução.

Genótipo+ / Fenótipo−: prognóstico benigno; conversão ~0,3%/ano no adulto. Seguimento a cada 1–2 anos (crianças) e 3–5 anos (adultos). CDI ou fármaco profilático NÃO indicados (III); sem restrição a esporte se não houver história familiar de morte súbita.

Fenocópias — padrões de realce tardio na RMC

CMH sarcomérica: mesocárdico e juncional. Amiloidose: subendocárdico circunferencial. Doença de Fabry: subepicárdico ínfero-lateral basal + mapa T1 nativo baixo (único entre as HVE); PR curto por condução AV acelerada; ligada ao X; terapia específica disponível. CMH hipertensiva: ausente ou mínimo.
Pré-excitação (PR curto + onda delta) → suspeitar de Danon e PRKAG2 (também Pompe). PRKAG2: HVE simétrica maciça >30 mm sem obstrução.

Tratamento medicamentoso

FármacoIndicaçãoClasse · Nível (SBC 2024)
Betabloqueadores1ª linha sintomática — obstrutiva e não obstrutivaI B
BCC não di-hidropiridínicos (verapamil/diltiazem)Intolerância/ineficácia do betabloqueadorI B
MavacamtenoObstrutiva, FEVE ≥55%, gradiente ≥50, CF II–III refratária a BB/BCC em dose máximaIIa B
BRAMelhora de capacidade física e controle de HASIIb B
Evitar vasodilatadoresEspecialmente na forma obstrutivaIIa C

Inibidores da miosina cardíaca: mavacamtenoEXPLORER-HCM (fase 3, 251 pacientes): melhora de VO₂ pico + classe NYHA em 37% × 17% com placebo; resolveu o MSA em 80,9%. VALOR-HCM: reduziu a elegibilidade para redução septal (18% × 77%). Aprovado pela ANVISA em jan/2023. Aficanteno (2ª geração): REDWOOD-HCM fase 2 positivo, SEQUOIA-HCM fase 3 — sem recomendação formal na diretriz brasileira ainda.

Disopiramida: eficaz na obstrução, mas não disponível no Brasil. Digoxina: evitar (o inotropismo positivo piora a obstrução).

Terapias de redução septal

Para CMH obstrutiva com gradiente ≥50 mmHg (repouso ou provocado) e CF III–IV refratária ao tratamento otimizado (~5–10% dos pacientes). Decisão em Heart Team experiente — consenso entre as três.

  • Favorece miectomia: valvopatia com indicação cirúrgica; septo >30 mm; coronariopatia multiarterial; obstrução médio-apical; artéria septal de pequeno calibre; jovem; BRE. Resultados: abole o gradiente em ~90%; sobrevida ≈ população geral; marcapasso por BAVT ~5%.
  • Favorece alcoolização (ASA): gradiente <100 mmHg; septo <30 mm; alto risco cirúrgico; idosos. Resultados: mortalidade <1% em centros experientes; marcapasso definitivo ~10% (× 5% na miectomia); monitorização por eco-contraste obrigatória.
  • Contraindicações (Classe III·C): redução septal em assintomático com capacidade normal ao exercício; substituição valvar mitral isolada para aliviar a via de saída.

Morte súbita e seleção do CDI — a principal divergência

Fatores de risco maiores (SBC 2024): PCR/TV sustentada/FV prévia · síncope inexplicada · morte súbita em parente ≤50 anos · HVE ≥28 mm · FE <50% · aneurisma apical · realce tardio ≥15% · TVNS no Holter (múltipla ≥3, >10 batimentos, FC ≥200).

Indicação: TV sustentada/FV/MS revertida → Classe I (prevenção secundária). Com ≥1 fator de risco maior: <40 anos → IIa (fortemente considerado); 40–60 anos → IIa com decisão compartilhada; >60 anos → IIb. Sem fator de risco, sem TVNS e sem RT ≥15% → CDI não indicado (Classe III).

Divergência — calculadora × marcadores de risco

ESC 2023: centrada na calculadora HCM Risk-SCD (risco em 5 anos: <4% baixo · 4–6% intermediário · ≥6% alto) como passo inicial — mais específica, menos implantes. A calculadora não inclui FE<50%, aneurisma apical nem realce tardio.
AHA/ACC 2024: abordagem por marcadores de risco individuais (inclui RT ≥15%, aneurisma apical, FE<50%) — mais sensível, mais implantes.
SBC 2024 faz a ponte: adota a lógica de fatores de risco estratificada por idade e mantém a HCM Risk-SCD como ferramenta complementar (IIa·B).
Na comparação direta: HCM Risk-SCD tem sensibilidade 33% / especificidade 92% × abordagem por fatores de risco sensibilidade 95% / especificidade 78%.

FA e anticoagulação

Consenso entre as três — e uma exceção às regras habituais

Após o 1º episódio de FAanticoagulação vitalícia, independentemente do CHA₂DS₂-VASc (I·B) — porque CHADS₂ e CHA₂DS₂-VASc têm desempenho ruim na CMH. DOAC de 1ª linha; varfarina de 2ª. Antiplaquetário não protege (III·B). Aneurisma apical: anticoagular independentemente do tamanho (I·B).
Preferir controle de ritmo (a perda da contração atrial é mal tolerada): amiodarona, sotalol; propafenona só se houver CDI. Evitar digoxina. Ablação por cateter IIa·B — recidiva maior que sem cardiopatia.

Situações especiais

  • Exercício: estratificar risco antes de liberar (I·C); reabilitação estruturada melhora capacidade funcional no baixo risco (I·B). Não recomendada alta/moderada intensidade se houver síncope ao esforço, TV ou MS abortada (III).
  • IC avançada/transplante: 2–3% dos casos; a IC responde por 2/3 dos óbitos. O fenótipo restritivo com FE preservada também é candidato. Suspender inotrópicos negativos.
  • Cirurgia não cardíaca: risco ~3× de IAM/óbito; manter o betabloqueador (I·C); evitar jejum prolongado e hipovolemia.
  • Gravidez: estratificar pela OMS-modificada (I·C). BB cardiosseletivos e verapamil são seguros; cardioversão sem contraindicação; parto vaginal na classe I/II-OMSm.

Capítulo 20

Cardiopatias Genéticas

Diretrizes de referência

  • ESC 2023 — Management of Cardiomyopathies. Eur Heart J 2023. Unifica todas; nova entidade NDLVC.
  • AHA/ACC 2024 — Hypertrophic Cardiomyopathy (multissociedade). Circulation 2024.
  • SBC — Posicionamentos sobre cardiomiopatias. Ensaios EXPLORER-HCM e VALOR-HCM.

A lógica: fenótipo → gene → família

A ESC 2023 organizou todas as cardiomiopatias num só documento, pelo fenótipo. O pilar comum: identificar a variante no probando e fazer o rastreio em cascata nos parentes de 1º grau.

Regra do teste genético

Testar o probando quando isso muda diagnóstico, prognóstico ou manejo. Teste em cascata dos familiares de 1º grau APENAS se uma variante patogênica for encontrada no probando. Testar toda criança que preencha critério de CMH (ESC 2023 e AHA/ACC 2024).

Fenótipos (ESC 2023): CMH (hipertrófica) · CMD (dilatada) · DAVD/CAVD (arritmogênica) · CMR (restritiva) · NDLVC — cardiomiopatia de VE não dilatada (nova entidade: disfunção/fibrose de VE sem dilatação, muitas vezes genética e arritmogênica).

Cardiomiopatia hipertrófica

Diagnóstico por hipertrofia inexplicada: ≥15 mm (ou ≥13 mm com história familiar/genética). Sarcômero: MYBPC3 e MYH7 são os mais comuns. Excluir fenocópias: Fabry, amiloidose, Danon. Marcadores de risco de morte súbita: MS familiar, síncope inexplicada, hipertrofia maciça ≥30 mm, aneurisma apical, realce tardio extenso, TVNS, FE <50%.

Tratamento: obstrutiva sintomática → betabloqueador / verapamil / disopiramida. Mavacamteno (inibidor de miosina) antes da terapia invasiva quando a 1ª linha falha (EXPLORER/VALOR-HCM). Refratário → miectomia septal ou ablação alcoólica. Detalhamento completo no Capítulo 19.

Divergência — a estratificação de morte súbita

ESC usa a calculadora HCM Risk-SCD; AHA/ACC usa o conjunto de marcadores. É a divergência que atravessa toda a cardiopatia genética (ver Capítulo 19).

Dilatada, NDLVC e a genética arritmogênica

  • CMD / NDLVC: genes TTN (titina — o mais comum), LMNA (lamina), RBM20, DSP, FLNC.
  • Genes que baixam o limiar de CDI: LMNA e os desmossômicos (DSP, FLNC) — alto risco arrítmico, com limiar mais baixo para CDI mesmo com FE menos reduzida.
  • DAVD (arritmogênica): genes desmossômicos (PKP2, DSG2, DSP); critérios da Task Force (ECG, imagem, arritmia, história). O exercício acelera a doença → restrição de esporte competitivo/intenso. É a cardiomiopatia em que o exercício é vilão.
  • Canalopatias: QT longo (KCNQ1, KCNH2, SCN5A), Brugada (SCN5A), TVPC (RYR2), QT curto. Coração estruturalmente normal; risco de morte súbita por arritmia. Betabloqueador, evitar gatilhos, CDI conforme risco.
Zona cinzenta

Genes, cortes e critérios de CDI nas cardiomiopatias genéticas não têm base de evidência randomizada — derivam de coortes e de consenso. A entidade NDLVC é nova (ESC 2023) e ainda não tem correspondente formal nos documentos americano e brasileiro.

Capítulo 21

Doença de Chagas Cardíaca

Diretrizes de referência

  • SBC 2023 — Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento de Pacientes com Cardiomiopatia da Doença de Chagas. Arq Bras Cardiol. 2023;120(6):e20230269 (Marin-Neto, Rassi Jr et al.).
  • OPAS/WHO — Guidelines for the diagnosis and treatment of Chagas disease.
  • AHA 2018 — Chagas Cardiomyopathy (Scientific Statement). Circulation 2018.

Fases e formas clínicas

  • Aguda: parasitemia patente; sinal de Romaña/chagoma; miocardite aguda rara mas grave. Transmissão vetorial, transfusional, congênita e oral (surtos por alimentos).
  • Crônica indeterminada: sorologia positiva, ECG/RX/eco normais, sem sintomas — a maioria dos infectados.
  • Crônica determinada: forma cardíaca, digestiva (megaesôfago/megacólon) ou mista.
A assinatura eletrocardiográfica

Bloqueio de ramo direito (BRD) + bloqueio divisional anterossuperior (BDAS) — consenso nas três fontes. O ECG anormal define a transição da forma indeterminada para a cardíaca.

Manifestações da forma cardíaca

  • Arritmias: distúrbios de condução (BRD+BDAS, BAV avançado), disfunção sinusal; TV/FV — causa importante de morte súbita, frequentemente por reentrada na fibrose ínfero-lateral; FA em fases avançadas.
  • Aneurisma apical de VE ("lesão em dedo de luva") — quase patognomônico; fonte de trombo mural e tromboembolismo sistêmico. Fibrose regional detectável na RM (realce tardio).
  • Insuficiência cardíaca: ICFEr tipicamente biventricular e de pior prognóstico que outras etiologias. Tratamento com os pilares da IC (Capítulo 5). Transplante em fase avançada.
Por que a Chagas mata mais

Combinação perigosa: a morte súbita arrítmica pode ocorrer mesmo com função ventricular ainda preservada, e a IC chagásica tem pior prognóstico que a isquêmica/idiopática. Por isso a estratificação de risco e a decisão sobre dispositivos são centrais.

Estratificação — escore de Rassi

Seis variáveis: NYHA III/IV = 5 · cardiomegalia no RX = 5 · alteração segmentar/global de VE ao eco = 3 · TVNS no Holter = 3 · baixa voltagem do QRS = 2 · sexo masculino = 2.
Risco: baixo 0–6 · intermediário 7–11 · alto 12–20. Mortalidade em 10 anos: ~10% (baixo), ~44% (intermediário), ~84% (alto).

A SBC 2023 recomenda estratificar com Rassi + Holter + imagem, e usa a RM com realce tardio para carga de fibrose e risco arrítmico. A AHA 2018 endossa o Rassi. A OPAS/WHO foca em acesso ao diagnóstico e encaminhamento oportuno.

Tratamento etiológico

Benznidazol — e o que o BENEFIT mostrou

Indicação clara: fase aguda, congênita, reativação (imunossupressão), crianças e adultos jovens na forma crônica recente/indeterminada. Alternativa: nifurtimox.
Na cardiopatia crônica avançada, o ensaio BENEFIT mostrou redução da parasitemia sem reduzir a progressão clínica — decisão individualizada. Vigiar efeitos adversos (dermatite, neuropatia, leucopenia).

Dispositivos e anticoagulação

  • Marcapasso: BAV avançado/sintomático e disfunção sinusal — indicações usuais de bradiarritmia.
  • CDI — prevenção secundária (parada/TV sustentada): consensual. Prevenção primária: considerar em alto risco (FE reduzida, TVNS, síncope, alto Rassi) — evidência menos robusta que na isquêmica (ver o ensaio CHAGASICS, Capítulo 7).
  • Anticoagulação: além do CHA₂DS₂-VASc, existe escore específico de risco de AVC da Chagas. Anticoagular na presença de trombo apical, FA, aneurisma com risco embólico ou evento prévio.
Cuidado com a amiodarona

É muito usada para controle de arritmia ventricular na Chagas — mas o CHAGASICS avaliou justamente CDI × amiodarona na prevenção primária. A decisão sobre dispositivo deve pesar risco arrítmico, FE, escore de Rassi e disponibilidade — não apenas a supressão de ectopia.

Parte VI

Aorta e Circulação Pulmonar

Capítulo 22

Doenças da Aorta

Diretrizes de referência

  • ESC 2024 — Peripheral Arterial and Aortic Diseases. Eur Heart J. 2024;45(36):3538-3700. Junta aorta + arterial; nova classificação TEM.
  • ACC/AHA 2022 — Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation 2022. Conceito de "Aortic Team".
  • SBC — Posicionamentos sobre doenças da aorta, alinhados às diretrizes internacionais.

Aneurisma da aorta torácica — quando operar

A tendência recente é baixar o limiar em centros experientes e individualizar pelo corpo e pela genética, não só pelo diâmetro absoluto.

Limiares de cirurgia (raiz/ascendente)
  • ≥5,5 cm em geral.
  • ≥5,0 cm em centro com Aortic Team experiente, ou com fatores de risco — crescimento rápido, válvula bicúspide de alto risco, história familiar de dissecção, baixa estatura.
  • ≥4,5 cm se houver cirurgia valvar concomitante, ou em aortopatia hereditária (Marfan, Loeys-Dietz).
  • Usar também índices (diâmetro/altura, área/altura).
  • Aneurisma abdominal (AAA): reparar se ≥5,5 cm em homens, ~5,0 cm em mulheres, ou crescimento rápido/sintomático. EVAR × cirurgia aberta pela anatomia e risco. Rastreio por ultrassom em homens ≥65 anos tabagistas.
  • Aortopatias hereditárias (HTAD): Marfan (FBN1), Loeys-Dietz (TGFBR/SMAD), EDS vascular (COL3A1) — limiar de cirurgia mais baixo, rastrear familiares de 1º grau, betabloqueador/BRA para controle.
  • Válvula bicúspide: frequente aortopatia associada (dilatação da ascendente) — vigiar e operar em conjunto conforme o diâmetro (ver também Capítulo 30).

Síndromes aórticas agudas

Dissecção, hematoma intramural e úlcera penetrante. Exame de escolha: angiotomografia (rápida, disponível). Suspeitar: dor torácica/dorsal súbita, dilacerante; assimetria de pulsos/PA; sopro de insuficiência aórtica novo; alargamento do mediastino.

A regra que salva vida

Tipo A (envolve a ascendente) → cirurgia de emergência (risco altíssimo de ruptura/tamponamento).
Tipo B (só descendente): não complicado → tratamento clínico agressivo (controle de PA e FC com betabloqueador) + vigilância; complicado (malperfusão, ruptura iminente, dor/HAS refratárias) → TEVAR (endovascular).

Nova classificação TEM (ESC 2024)

Tipo de síndrome · Entry (localização da porta de entrada) · Malperfusão. Agrega prognóstico e decisão terapêutica além do clássico A/B.

Tratamento clínico e vigilância

Controle rigoroso da PA (alvo baixo); betabloqueador (reduz o dP/dt) e BRA (especialmente no Marfan); cessação do tabagismo; estatina. Vigilância por imagem (TC/RM/US) em intervalos conforme diâmetro e etiologia. Aconselhamento sobre esforço isométrico intenso e sobre gestação nas aortopatias.

Zona cinzenta

Os limiares de diâmetro são o ponto mais variável entre os documentos, e a decisão de operar a 5,0 cm depende explicitamente da experiência do centro — um critério que não é numérico. A classificação TEM ainda não foi incorporada pela ACC/AHA.

Capítulo 23

Hipertensão Pulmonar

Diretrizes de referência

  • ESC/ERS 2022 — Pulmonary Hypertension. Eur Heart J 2022. Nova definição (mPAP >20) e 4 estratos de risco.
  • SBC — Diretriz Brasileira de Hipertensão Pulmonar, alinhada à ESC/ERS. Esquistossomose como causa do grupo 1.
  • AHA/ACC / CHEST — statements e consensos; sem diretriz formal dedicada.

A nova definição hemodinâmica (2022)

Os cortes que mudaram

HP: mPAP >20 mmHg (antes ≥25).
Pré-capilar: PAOP (capilar) ≤15 mmHg + RVP >2 unidades Wood.
Pós-capilar (do coração esquerdo): PAOP >15 mmHg.
O cateterismo cardíaco direito segue sendo o padrão-ouro para confirmar e classificar.

Os cinco grupos

  • Grupo 1 — HAP: idiopática, hereditária, tóxica, associada (esclerodermia, HIV, cardiopatia congênita, esquistossomose no Brasil).
  • Grupo 2 — coração esquerdo: a causa mais comum (ICFEr/ICFEp, valvopatia). Pós-capilar.
  • Grupo 3 — pulmonar/hipóxia: DPOC, fibrose, apneia, altitude.
  • Grupo 4 — HPTEC (tromboembólica crônica): o único potencialmente curável — endarterectomia pulmonar.
  • Grupo 5: mecanismos multifatoriais/não claros (hematológicas, sarcoidose, metabólicas).
Regra de ouro

Não tratar grupo 2 nem grupo 3 com drogas de HAP — pode piorar. Tratar a doença de base. Encaminhar HAP e HPTEC a centro de referência.

Tratamento da HAP (grupo 1)

Guiado por risco: a diretriz de 2022 adotou 4 estratos no seguimento (baixo, intermediário-baixo, intermediário-alto, alto).

  • Terapia inicial: combinação dupla na maioria — inibidor de PDE5 (sildenafila/tadalafila) + antagonista do receptor de endotelina (ambrisentana/macitentana).
  • Alto risco → acrescentar análogo/agonista da prostaciclina (epoprostenol IV, treprostinila, selexipague).
  • As vias: óxido nítrico–GMPc (iPDE5 e riociguat — usado na HPTEC inoperável); endotelina; prostaciclina.
  • Teste de vasorreatividade → poucos respondedores usam bloqueador de cálcio em alta dose.
Novidade — sotatercepte (4ª via)

O sotatercepte (modula a sinalização de activina) abre uma quarta via. No ensaio STELLAR, melhorou capacidade funcional e desfechos na HAP. Aprovado recentemente; tende a entrar nas próximas atualizações — ainda não plenamente codificado nas diretrizes vigentes.

Capítulo 24

Tromboembolismo Venoso e TEP

Diretrizes de referência

  • AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN 2026 — 1ª diretriz americana multissociedade dedicada à TEP aguda. Circulation 2026;153:e977-e1051.
  • ESC 2019 — TEP. Eur Heart J 2020;41:543. Sem atualização posterior — ainda vigente.
  • CHEST 2021 (2ª atualização) · ASH 2020 (TVP/TEP no adulto).

O que a diretriz de 2026 mudou

Sai "maciço/submaciço", entram as categorias A–E

A linguagem maciço/submaciço/baixo risco era grosseira demais: "submaciço" abrangia desde o paciente hipoxêmico deteriorando até o que só tinha troponina discretamente elevada e se sentia bem — condutas radicalmente diferentes no mesmo rótulo. Entram cinco categorias clínicas A→E por gravidade crescente, com subtiers e um modificador respiratório "R". Atribui-se sempre pela pior variável clínica, laboratorial ou de imagem — e o paciente pode migrar de categoria ao longo do tempo.

Escopo — cuidado

A diretriz de 2026 cobre só TEP aguda. TVP isolada, profilaxia primária e doença tromboembólica crônica ficam de fora — para esses pontos, usar CHEST 2021 / ASH 2020 / ESC 2019.

Categorias A–E

Cat.DefiniçãoConduta
AAssintomático — TEP incidental; hemodinâmica e biomarcadores normaisAlta do PS · anticoagulação ambulatorial
BSintomático, escore baixo (PESI ≤85 · sPESI 0 · Bova ≤4), sem disfunção cardiopulmonarAlta precoce / tratamento domiciliar (critérios Hestia)
CEscore elevado (PESI >85 / sPESI ≥1 / Bova >4), com ou sem elevação de biomarcador ou disfunção de VD. Sem instabilidade hemodinâmica.Internar · terapia avançada de benefício INCERTO aqui
DFalência cardiopulmonar incipiente (pré-choque): PAS ainda preservada, porém com hipoperfusão — lactato >2, IRA, diurese <0,5 mL/kg/h, alteração do sensório, índice cardíaco <2,2, PAM <60UTI · terapia avançada PODE ser considerada (trombectomia mecânica 2b)
EE1 = hipotensão persistente/recorrente com choque cardiogênico (SCAI C). E2 = choque refratário (SCAI D–E) ou PCR sem RCE após 30 minReperfusão · terapia avançada RAZOÁVEL em E1 (trombectomia 2a)
RModificador respiratório — some-se a qualquer subcategoria com hipóxia/taquipneia/necessidade crescente de O₂ (>6 L/min em cateter nasal ou máscara não reinalante). Ex.: C3R, D2R
A pegadinha central

Disfunção de VD isolada, sem comprometimento hemodinâmico (Categoria C), NÃO justifica escalada reflexa para cateter ou cirurgia. Terapia avançada é razoável em E1 e considerável em D1–2não no C.

Tradução: 2026 (EUA) × ESC 2019

AHA/ACC 2026Equivalente ESC 2019Termo antigoLocal de tratamento
A / BBaixo risco (sPESI 0, sem disfunção de VD)Baixo riscoAlta precoce / domiciliar
CIntermediário-baixo e intermediário-altoSubmaciçoInternação / monitorização
DIntermediário-alto deteriorando (pré-choque)Submaciço "alto"UTI
EAlto risco (instabilidade hemodinâmica)MaciçoReperfusão / UTI

ESC 2019 — alto risco (instabilidade hemodinâmica), qualquer um: parada cardíaca com necessidade de RCP; choque obstrutivo (PAS <90 mmHg ou vasopressor + hipoperfusão de órgão-alvo); hipotensão persistente (PAS <90 mmHg ou queda ≥40 mmHg por >15 min) não explicada por arritmia, hipovolemia ou sepse → reperfusão imediata (Classe I). sPESI — 1 ponto para cada: idade >80 anos · câncer · doença cardiopulmonar crônica · FC ≥110 bpm · PAS <100 mmHg · SatO₂ <90% (0 = baixo risco).

Anticoagulação

Consenso entre 2026, CHEST 2021 e ASH 2020: DOAC > varfarina na maioria; quando se precisa de parenteral, HBPM > HNF (menos sangramento, menos TIH). A HNF fica para instabilidade, reperfusão iminente ou insuficiência renal grave.

A regra da "fase de ataque"

Início oral direto (sem heparina antes): apixabana 10 mg 2×/dia por 7 dias → 5 mg 2×/dia · rivaroxabana 15 mg 2×/dia por 21 dias → 20 mg 1×/dia (com alimento).
Exigem 5–10 dias de heparina parenteral antes: dabigatrana → 150 mg 2×/dia · edoxabana → 60 mg 1×/dia (30 mg se ClCr 15–50 ou peso ≤60 kg).
Só apixabana e rivaroxabana têm esquema de dose alta inicial que dispensa a ponte.

Quando o DOAC NÃO é a 1ª escolha

CenárioEscolhaPor quê
GestaçãoHBPMDOAC e varfarina contraindicados (varfarina teratogênica; DOAC cruza a placenta). Reforçado na 2026.
SAAF triplo-positivoVarfarina (INR 2–3)TRAPS: rivaroxabana com mais eventos trombóticos.
Prótese valvar mecânicaVarfarinaRE-ALIGN: dabigatrana com mais trombose e sangramento. Todo DOAC contraindicado.
Câncer ativoDOAC ou HBPMApixabana, edoxabana, rivaroxabana ou HBPM. Em tumor GI/urotelial preferir apixabana ou HBPM (menos sangramento). Manter enquanto o câncer estiver ativo.
IRC grave / diáliseCautelaApixabana com cautela, ou HNF/varfarina. Evitar dabigatrana (depuração renal).

Reperfusão e terapias avançadas

A diretriz de 2026 aloca as terapias avançadas por categoria e reforça o PERT (time multidisciplinar de resposta à TEP). Arsenal: trombólise sistêmica, trombólise dirigida por cateter (CDT), trombectomia mecânica e embolectomia cirúrgica.

PEITHO — não trombolizar o intermediário-alto de rotina

No intermediário-alto (≈ C/D), a trombólise sistêmica reduziu descompensação, mas às custas de excesso de sangramento maior e AVC. Reserve para resgate na deterioração — não como conduta automática.

Contraindicações absolutas à trombólise sistêmica: AVC hemorrágico prévio (qualquer momento); AVC isquêmico <6 meses; neoplasia ou lesão estrutural do SNC; TCE ou trauma maior / cirurgia de grande porte <3 semanas; sangramento ativo; diátese hemorrágica conhecida.

Duração — provocado × não provocado

  • Provocado por fator transitório maior (cirurgia de grande porte, trauma, imobilização prolongada com resolução do fator) → 3 meses e suspende.
  • Não provocado ou fator de risco persistente (câncer, IC, obesidade, doença inflamatória, trombofilia, SAAF) → anticoagulação estendida, sem data de parada — reavaliar risco/benefício anualmente.
  • Fase estendida: DOAC em dose reduzida — apixabana 2,5 mg 2×/dia ou rivaroxabana 10 mg 1×/dia. Se o paciente decidir parar, o AAS reduz recorrência (recomendação fraca), mas é claramente inferior ao DOAC de baixa dose.

TVP: distal, filtro de VCI e meias

  • TVP distal isolada (panturrilha), sem sintomas graves nem fatores de risco de extensão → USG seriado por ~2 semanas é alternativa à anticoagulação. TVP proximal → sempre anticoagular.
  • Filtro de VCI: não é rotina (Classe III). Reservado a contraindicação absoluta à anticoagulação ou TEP recorrente apesar de anticoagulação plena. Retirar assim que possível.
  • Meias de compressão não previnem síndrome pós-trombótica — o CHEST sugere contra o uso rotineiro com esse fim. Podem aliviar sintomas, mas não reduzem SPT nem recorrência.

Parte VII

Fatores de Risco e Prevenção

Capítulo 25

Hipertensão Arterial Sistêmica

Diretrizes de referência

  • SBC 2020 — Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol 2021. HAS ≥140/90.
  • ESC 2024 — Elevated Blood Pressure and Hypertension. Eur Heart J. 2024;45(38):3912. Nova categoria "pressão elevada".
  • ACC/AHA 2017 — High Blood Pressure in Adults. Hypertension/JACC 2018. Limiar 130/80.

Classificação — o ponto de maior divergência

A divergência central

ACC/AHA 2017 diagnostica hipertensão a partir de 130/80 (elevada 120–129/<80; estágio 1 130–139/80–89; estágio 2 ≥140/90).
ESC e SBC mantêm o rótulo de hipertensão em ≥140/90 — mas a ESC 2024 abandonou "pré-hipertensão" e criou a categoria "pressão elevada" (PAS 120–139 ou PAD 70–89), tratada conforme o risco CV (SCORE2, lesão de órgão-alvo). A Europa se aproxima do espírito americano sem adotar o limiar de 130.
SBC 2020: ótima <120/80 · normal 120–129/80–84 · pré-HAS 130–139/85–89 · estágio 1 140–159/90–99 · estágio 2 160–179/100–109 · estágio 3 ≥180/110.

Diagnóstico — MAPA e MRPA

Convergência forte: a medida fora do consultório deixou de ser complemento e virou peça central — confirma o diagnóstico e desmascara a hipertensão do jaleco branco e a hipertensão mascarada.

Cortes fora do consultório (aproximados)

MAPA vigília ≥135/85 · MAPA 24 h ≥130/80 · MAPA sono ≥120/70 · MRPA/domiciliar ≥135/85 mmHg.

Alvos de tratamento

O alvo mais agressivo da década

ESC 2024: alvo de PAS 120–129 mmHg na maioria dos tratados, se bem tolerado — não mais "<140 e depois considerar mais baixo", mas a meta de partida. Exige confirmação por MAPA/MRPA e ausência de intolerância. Alvo mais leniente em ≥85 anos, fragilidade moderada-grave, hipotensão ortostática, expectativa de vida limitada.
ACC/AHA 2017: alvo geral <130/80 para a maioria. Tratar com fármaco se risco ASCVD ≥10% e PA ≥130/80, ou PA ≥140/90 independentemente do risco.
SBC 2020: <140/90 no baixo/moderado risco; <130/80 no alto risco. PAS ideal 120–129 e PAD 70–79 quando bem tolerado. Cautela com PAD muito baixa em coronariopatas (curva J).

Tratamento farmacológico

Consenso amplo: começar já com combinação, de preferência em comprimido único (single-pill), para melhorar controle e adesão. A monoterapia ficou restrita a poucos cenários.

  1. Passo 1: IECA ou BRA + antagonista de cálcio ou diurético tiazídico — idealmente em comprimido único.
  2. Passo 2: tríplice combinação (IECA/BRA + BCC + tiazídico).
  3. Passo 3 (resistente): adicionar espironolactona.

SBC: cinco classes de 1ª linha (tiazídicos, BCC, IECA, BRA — betabloqueador em indicação específica); monoterapia só em estágio 1 de baixo risco/idoso frágil; não associar IECA + BRA. ESC 2024: betabloqueador quando há indicação específica (pós-IAM, IC, FA, angina). ACC/AHA: iniciar com 2 fármacos se a PA estiver ≥20/10 mmHg acima do alvo.

Hipertensão resistente

PA não controlada apesar de 3 fármacos otimizados (incluindo diurético), ou controle exigindo ≥4 fármacos. Antes de rotular, excluir pseudorresistência.

  1. Confirmar com MAPA/MRPA (excluir jaleco branco) e verificar adesão e técnica.
  2. Rever fármacos que elevam a PA (AINE, corticoide, descongestionante) e o excesso de sal.
  3. Rastrear causas secundárias — hiperaldosteronismo (relação aldosterona/renina), apneia do sono (Capítulo 27), estenose de artéria renal.
  4. Otimizar: adicionar espironolactona — 4º fármaco de escolha nas três (PATHWAY-2). A denervação renal é opção adjuvante em casos selecionados.

Capítulo 26

Dislipidemia e Prevenção Cardiovascular

Diretrizes de referência

  • ESC 2019 (dislipidemias, com EAS) + ESC 2021 (prevenção CV) + Focused Update 2025.
  • ACC/AHA 2018 — Management of Blood Cholesterol (multissociedade). Circulation 2019.
  • SBC — Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose.

Estratificação de risco

O primeiro passo antes de qualquer meta — porque o LDL alvo é consequência direta da categoria.

  • SBC: baixo, intermediário, alto e muito alto risco. Estratificação pelo ER Global (Framingham) + reclassificadores (síndrome metabólica, hipercolesterolemia familiar, escore de cálcio). DAC estabelecida, DM com lesão de órgão-alvo e DRC = muito alto risco.
  • ESC 2021: adotou o SCORE2 / SCORE2-OP — inclui eventos fatais e não fatais, por região de risco.
  • ACC/AHA 2018: calculadora Pooled Cohort (ASCVD 10 anos) + risk-enhancers. "Muito alto risco" = múltiplos eventos ASCVD, ou 1 evento + múltiplas condições de alto risco.
O reclassificador que mais ganhou espaço

Escore de cálcio coronariano (CAC): um CAC = 0 permite adiar a estatina no risco intermediário (exceto DM, tabagista, história familiar forte), enquanto um CAC alto reclassifica para cima. É a ponte entre "risco calculado" e "aterosclerose real".

Metas de LDL — o coração da divergência

CategoriaSBCESCACC/AHA 2018
Muito alto risco<50 mg/dL (não-HDL <80)<55 mg/dL e ↓≥50% do basalSem meta — limiar ≥70 mg/dL para adicionar não-estatina
Alto risco<70<70 e ↓≥50%Estatina de alta intensidade (↓≥50%)
Intermediário/moderado<100<100
Baixo<130<116
2º evento vascular <2 anos sob estatina máximaConsiderar <40 mg/dL
Duas lógicas incompatíveis

ESC/SBC: metas numéricas — "lower is better", sem limiar inferior de segurança demonstrado; meta e redução percentual, ambas exigidas no muito alto risco.
ACC/AHA: foco na intensidade da estatina e em limiares de ação, não em metas numéricas formais.

A escada terapêutica

  1. Estatina de alta potência na dose máxima tolerada (atorvastatina 40–80 / rosuvastatina 20–40).
  2. + Ezetimiba (↓LDL ~15–20%).
  3. + iPCSK9 (evolocumabe/alirocumabe, ↓LDL ~60%) ou inclisirana (siRNA, 2×/ano).
  4. Ácido bempedoico — reduziu eventos no CLEAR Outcomes e é chave no intolerante à estatina.
Ácido bempedoico — por que importa

Inibidor da ATP-citrato liase, pró-fármaco de ativação hepáticanão causa mialgia por não se ativar no músculo. Entrou no update focado ESC 2025. A ACC/AHA aplica os limiares: ezetimiba se LDL ≥70 no muito alto risco; iPCSK9 se ainda ≥70; aferir aderência e resposta em 4–12 semanas.

Lipoproteína(a)

Marcador causal, genético — e sem terapia de desfecho

Dosar ao menos uma vez na vida em todo adulto (ESC), para identificar elevação hereditária. Valores muito altos (>180 mg/dL ou >430 nmol/L) conferem risco vital comparável à hipercolesterolemia familiar. Não há terapia aprovada que reduza a Lp(a) com desfecho — a conduta é otimizar todos os demais fatores de risco (LDL, PA, tabagismo). Antisenso/siRNA anti-Lp(a) em fase 3. Fator de risco independente também para estenose aórtica.

Triglicérides e outros pontos

  • Ômega-3 (etil icosapente) 4 g/dia pode ser considerado se TG >135 mg/dL em uso de estatina (SBC 2025 — SCC).
  • Fibratos NÃO reduzem risco CV se TG >200 mg/dL em uso de estatina (SBC). Fibrato fica para a hipertrigliceridemia grave (risco de pancreatite).
  • iSGLT2 / GLP-1 RA no DM com risco ou doença CV estabelecida (ESC 2021).
  • Rastreamento de hipercolesterolemia familiar (critérios clínicos + genético) — ênfase da SBC.
Zona cinzenta — acesso

A SBC chama atenção explícita para acesso e custo dos iPCSK9 na realidade nacional. Um paciente com LDL de 60 mg/dL merece iPCSK9? Pela meta brasileira (<50), sim; pelo limiar americano (70), não. É a mesma zona cinzenta do Capítulo 1.

Capítulo 27

Apneia do Sono e Coração

Diretrizes de referência

  • AHA 2021 — Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease (Scientific Statement). Circulation 2021.
  • ESC — a apneia é abordada dentro das diretrizes de HAS, FA (AF-CARE) e IC.
  • SBC / Medicina do Sono — posicionamentos sobre apneia obstrutiva e doença cardiovascular.
  • Ensaios: SAVE · SERVE-HF.

Obstrutiva × central

  • Apneia obstrutiva (AOS): a via aérea colaba apesar do esforço respiratório — ronco, sonolência, obesidade, pescoço largo.
  • Apneia central (ACS): ausência de esforço respiratório; na IC aparece como respiração de Cheyne-Stokes (crescendo-decrescendo com apneias).
  • Gravidade pelo IAH (índice de apneia-hipopneia): leve 5–15 · moderada 15–30 · grave >30.

Por que o cardiologista se importa

HAS resistente — a AOS é a causa secundária mais comum. Fibrilação atrial — a AOS não tratada aumenta a recorrência após cardioversão/ablação. Também: insuficiência cardíaca (AOS e ACS), doença coronariana, AVC, hipertensão pulmonar e arritmias/morte súbita noturna. Mecanismos: hipóxia intermitente, surtos adrenérgicos, oscilação de pressão intratorácica, inflamação.

Diagnóstico e rastreio

Questionários: STOP-BANG; Epworth (sonolência). Rastrear ativamente em HAS resistente, FA e IC. Confirmação: polissonografia (padrão-ouro) ou poligrafia domiciliar em casos selecionados — define IAH, dessaturação e o tipo (obstrutiva × central).

Tratamento — e a nuance do CPAP

O que o CPAP faz — e o que não faz

O CPAP é o tratamento de escolha da AOS sintomática: melhora sonolência, qualidade de vida e reduz modestamente a PA (útil na HAS resistente). Porém o ensaio SAVE mostrou que o CPAP não reduziu eventos CV maiores em prevenção — em parte por baixa adesão.
Trate os sintomas e a PA, mas não prometa redução de infarto/AVC só com CPAP.

Armadilha — apneia central na ICFEr

Na ICFEr com apneia central predominante, a servoventilação adaptativa (ASV) foi associada a aumento de mortalidade (ensaio SERVE-HF) — está contraindicada nesse cenário. Otimizar a IC costuma melhorar a apneia central.

Medidas gerais: perda de peso, tratamento posicional, evitar álcool e sedativos, aparelhos intraorais na AOS leve-moderada.

Parte VIII

Condições Especiais

Capítulo 28

Cardio-oncologia

Diretrizes de referência

  • ESC 2022 — Cardio-oncology (com EHA/ESTRO/IC-OS). Eur Heart J. 2022;43(41):4229. 1ª diretriz ESC do tema; risco HFA-ICOS; definição de CTRCD.
  • SBC — Diretriz / Posicionamento Brasileiro de Cardio-oncologia. Arq Bras Cardiol.
  • ACC/AHA — documentos de consenso e vias de cuidado em cardiotoxicidade.

Estratificação de risco basal — o pilar da ESC 2022

HFA-ICOS

Avaliar o risco de toxicidade CV em todos os pacientes antes do tratamento, com os formulários HFA-ICOS, que classificam em baixo, moderado, alto ou muito alto risco. Alto e muito alto risco → encaminhamento à cardio-oncologia. Os fatores incluem doença CV prévia, fatores de risco, idade e o tipo/dose da terapia oncológica planejada. Isso define a intensidade da vigilância e influencia a escolha do tratamento oncológico.

CTRCD — a definição padronizada

A ESC 2022, com a IC-OS, padronizou a disfunção cardíaca relacionada à terapia do câncer, incorporando strain e biomarcadores para captar o dano subclínico antes da queda da FEVE.

Graus (definição IC-OS/ESC)

Sintomática (leve/moderada/grave, conforme sintomas de IC) e assintomática.
A assintomática é definida por: queda de FEVE ≥10 pontos para <50%; ou queda <10 pontos mas FEVE <50% com queda relativa do GLS >15% e/ou elevação de biomarcadores; ou FEVE preservada com queda de GLS/biomarcadores (grau leve).
Captar a fase subclínica é o objetivo do strain.

Ferramentas: GLS (strain longitudinal global) — cai antes da FEVE; troponina e peptídeos natriuréticos na monitorização; RM cardíaca quando o eco é inconclusivo.

Vigilância por classe de fármaco

ClassePadrão de toxicidadeVigilância / prevenção
AntraciclinasDose-dependente e potencialmente irreversível (tipo I)FEVE/GLS; troponina basal e após o ciclo. Cardioproteção com dexrazoxano, formulação lipossomal e limitação da dose cumulativa.
Anti-HER2 (trastuzumabe)Disfunção geralmente reversível (tipo II), potencializada por antraciclina préviaFEVE a cada ~3 meses durante o tratamento; troponina basal antes do anti-HER2 se houve antraciclina.
iVEGF / TKIHipertensão, disfunção de VE, eventos vascularesControle rigoroso da PA
iBCR-ABL, iproteassoma, iBTKHAS, IC, arritmia (FA)Vigilância clínica e ECG
Radioterapia torácicaDoença coronariana, valvar e pericárdica tardiaSeguimento de longo prazo do sobrevivente
Miocardite por inibidor de checkpoint — a toxicidade mais temida

Rara, mas de alta letalidade. Suspeitar em qualquer sintoma cardíaco novo sob anti-PD-1/PD-L1/CTLA-4: dosar troponina, ECG, eco e RM cardíaca; confirmar com biópsia quando necessário. Tratamento: corticoide em altas doses + suspensão do imunoterápico, com imunossupressão adicional nos refratários. O reconhecimento precoce salva vida (ver também Capítulo 16).

Cardioproteção e manejo da disfunção

  • Antes/durante: controlar PA, dislipidemia e DM; considerar IECA/BRA + betabloqueador e/ou dexrazoxano no alto risco sob antraciclina; estatina em selecionados.
  • Na CTRCD: tratar como IC (IECA/BRA-ARNI, betabloqueador, ARM, iSGLT2) e decidir sobre continuar/interromper a terapia oncológica em conjunto com a oncologia — muitas disfunções (anti-HER2) recuperam.
  • Sobreviventes: seguimento CV estruturado de longo prazo; reabilitação e atividade física.
Zona cinzenta — interromper ou não o tratamento do câncer

A decisão de suspender a terapia oncológica diante de CTRCD é compartilhada e não tem regra numérica única. O risco de interromper um tratamento potencialmente curativo compete com o risco cardíaco — e a maioria das diretrizes recomenda não interromper sem necessidade, tratando a disfunção em paralelo.

Capítulo 29

Cardiologia do Esporte

Diretrizes de referência

  • ESC 2020 — Sports Cardiology and Exercise in Patients with CVD. Eur Heart J 2020. Primeira diretriz formal.
  • AHA/ACC — Eligibility and Disqualification Recommendations for Competitive Athletes (séries científicas).
  • SBC — Diretriz de Cardiologia do Esporte e do Exercício · Critérios Internacionais de ECG do Atleta.

Avaliação pré-participação — o grande debate

ECG de rotina no rastreio: incluir ou não?

ESC e SBC incluem: história + exame físico + ECG de 12 derivações em atletas competitivos, interpretado pelos critérios internacionais (que separam adaptação fisiológica de doença).
AHA: história + exame físico (14 pontos); o ECG não é obrigatório em massa — por custo-efetividade discutível e falsos-positivos. O foco americano é na qualidade do questionário e no sistema de resposta a emergências.

Coração de atleta × doença: adaptações fisiológicas incluem bradicardia, hipertrofia excêntrica leve e alterações de repolarização benignas. A zona cinzenta é diferenciá-las de CMH, DAVD e miocardite — usar RM, Holter, teste de esforço e genética.

Morte súbita no atleta

Causas por faixa etária

Jovem (<35 anos): cardiomiopatias (CMH, DAVD), canalopatias (QT longo, Brugada, TVPC), anomalias de coronária, miocardite, valvopatia.
Acima de 35 anos: predomina a doença coronariana.
Prevenção na comunidade: DEA acessível e treino em RCP salvam mais do que qualquer rastreio em massa.

Liberação para o esporte — a virada do modelo

Saímos da "proibição em bloco" para a decisão compartilhada: informar o risco e decidir junto com o atleta, individualizando por condição.

  • Muitas condições antes de restrição absoluta hoje admitem esporte após avaliação e diálogo de risco — por exemplo, na CMH a restrição relaxou (esporte de baixa/moderada intensidade e até competitivo em casos selecionados; ver Capítulo 19).
  • Prescrição de exercício: a ESC 2020 prescreve exercício na maioria das cardiopatias — o exercício é terapia, não apenas algo a liberar ou proibir. Estratifica o esporte por componente estático × dinâmico e pelo risco da doença.
  • Pós-miocardite: afastamento e reavaliação antes do retorno (eco, RM, Holter, marcadores) — e aqui as diretrizes divergem no tempo (Capítulo 16).
  • Canalopatias: evitar gatilhos específicos — natação e esforço na TVPC e no QT longo tipo 1.
  • DAVD: o exercício acelera a doença — restringir esporte intenso (Capítulo 20).

Capítulo 30

Cardiopatia Congênita no Adulto

Diretrizes de referência

  • ACC/AHA/HRS/ISACHD/SCAI 2025 — Management of Adults With Congenital Heart Disease. JACC/Circulation, dez/2025. Revisão completa que substitui a de 2018.
  • ESC 2020 — Adult Congenital Heart Disease. Eur Heart J. 2021;42(6):563-645.
  • SBC/DCC-CP e SBP — referência brasileira e pediátrica.

Panorama

A cardiopatia congênita é o defeito congênito mais frequente (~1% dos nascidos vivos). Com o sucesso da cirurgia, mais de 90% chegam à vida adulta — hoje há mais adultos do que crianças vivendo com CC. No Brasil, estimam-se ~28–30 mil recém-nascidos/ano com CC; cerca de metade necessita de intervenção. O DCC-CP/SBC e a SBP enfatizam a triagem neonatal por oximetria de pulso ("teste do coraçãozinho") e o diagnóstico fetal.

Transição de cuidados

A passagem do seguimento pediátrico para o adulto (ACHD) deve ser preparada e estruturada — muitos pacientes se perdem do seguimento na adolescência, ponto de risco reconhecido por todas as diretrizes. Os desfechos são melhores quando o adulto é acompanhado em centro ACHD.

Classificação

Duas lógicas complementares: a complexidade anatômica (define onde e por quem o paciente é seguido) e o estágio fisiológico (define a intensidade da vigilância e o prognóstico).

  • ESC 2020 — complexidade: leve (CIA pequena/moderada, CIV pequena, PCA pequeno, EP leve, bicúspide sem repercussão); moderada (CIA ostium primum/seio venoso, DSAV, coarctação, Ebstein, TOF reparada, estenose subaórtica); grave/complexa (Fontan, TGA, truncus, atresia pulmonar, Eisenmenger, cianose).
  • ACC/AHA — sistema anatômico-fisiológico (AP): classe anatômica I–III + estágio fisiológico A–D. A revisão de 2025 incorporou NT-proBNP, endocardite recente e hospitalização por IC ao componente fisiológico.

Shunts esquerda→direita

O princípio comum a todas as diretrizes

Fechar o shunt hemodinamicamente significativo (sobrecarga de volume / Qp:Qs ≥1,5) na ausência de RVP proibitiva. Fechamento é contraindicado na síndrome de Eisenmenger. A avaliação invasiva da RVP é mandatória quando há sinais de hipertensão pulmonar.

  • CIA: a indicação de fechamento independe de sintomas quando há dilatação/sobrecarga de VD. Apenas a ostium secundum é candidata a fechamento percutâneo — primum e seio venoso são cirúrgicas. ESC: sobrecarga de VD e RVP <3 WU → fechar (I); 3–5 WU individualizar; ≥5 WU apesar de tratamento: contraindicado. ACC/AHA 2025: fechar com shunt significativo e RVP ≤2 WU; muitos com RVP >2 a <5 WU também são candidatos.
  • CIV: fechar com sobrecarga de volume de VE e Qp:Qs significativo, ou antecedente de endocardite, sem RVP proibitiva. Atenção à insuficiência aórtica associada (prolapso de cúspide na CIV subarterial/infundibular).
  • DSAV: forte associação com síndrome de Down (que evolui mais rápido para doença vascular pulmonar). No adulto: regurgitação da valva AV esquerda ("cleft mitral"), arritmias e obstrução subaórtica residual.
  • PCA: ver Capítulo 31.

Lesões obstrutivas

  • Coarctação da aorta: intervir se gradiente pico-a-pico ≥20 mmHg (invasivo), ou HAS/colaterais com estreitamento anatômico significativo (ESC: ≥50% do diâmetro da aorta ao diafragma). Stent é preferencial no adulto. Vigilância vitalícia de aneurisma no sítio de reparo/stent; a HAS pode persistir mesmo após a correção.
  • Estenose valvar pulmonar: valvoplastia por balão é o tratamento de escolha — gradiente pico ao Doppler >64 mmHg (Vmáx >4 m/s) ou sintomas/repercussão de VD. Boa evolução a longo prazo.
  • Válvula aórtica bicúspide: a CC mais comum. Ponto-chave é a aortopatia associada — cirurgia da aorta ascendente ≥55 mm; ≥50 mm com fatores de risco (coarctação, HAS, história familiar, crescimento rápido). A estenose subaórtica (membrana) tende a progredir e a lesar a valva aórtica.

Cianóticas e complexas

  • Tetralogia de Fallot (a cianótica mais comum): no adulto reparado, o problema dominante é a insuficiência pulmonar crônica → dilatação/disfunção de VD, TV e risco de morte súbita. A decisão central é o momento da troca valvar pulmonar (PVR).
    Mudança-chave 2025

    A ACC/AHA 2025 passou a orientar a PVR por volume sistólico final de VD (RVESV >80 mL/m²) e outras métricas, em vez do volume diastólico final (RVEDV) usado antes — e incorporou a ablação de TV ao manejo das arritmias. A ESC 2020 dava IIa a assintomáticos com dilatação progressiva (RVESV ≥80 e/ou RVEDV ≥160 mL/m²).

  • Transposição das grandes artérias: distinguir os cenários é essencial. Na D-TGA com switch atrial (Mustard/Senning) e na ccTGA, o VD é o ventrículo sistêmico — sujeito a falência, regurgitação da valva AV sistêmica e arritmias atriais. Na D-TGA com switch arterial (Jatene): vigiar neoaorta, óstios coronarianos e estenose supravalvar pulmonar.
  • Anomalia de Ebstein: deslocamento apical da tricúspide, "atrialização" do VD, CIA associada e vias acessórias (WPW). Cirurgia (reparo do cone) na IT grave sintomática ou disfunção progressiva de VD.
  • Fisiologia univentricular / Fontan: circulação em série sem bomba subpulmonarpré-carga dependente. Complicações multissistêmicas: arritmias atriais, tromboembolismo, enteropatia perdedora de proteína, bronquite plástica e, sobretudo, doença hepática associada ao Fontan (FALD) — a diretriz de 2025 pede vigilância hepática anual e referência precoce a transplante.
  • Síndrome de Eisenmenger: shunt invertido D→E por doença vascular pulmonar avançada. Fechar o defeito é contraindicado. Manejo clínico com terapia-alvo para HAP (ESC: antagonista do receptor de endotelina se TC6min <450 m, combinando se não houver melhora). Evitar: depleção volêmica agressiva, flebotomia de rotina, altitude, gestação (contraindicada), fármacos que reduzam a RVS. Filtro de ar em acessos venosos (embolia paradoxal).

Temas transversais

  • Arritmias: causa maior de morbidade; baixo limiar para anticoagulação. Novidade 2025: em pacientes complexos (VD sistêmico, Fontan), preferir controle de ritmo ao de frequência.
  • Endocardite: profilaxia reservada ao alto risco — próteses/material protético, EI prévia, cardiopatia cianótica não reparada ou reparada com defeito residual/próximo a material protético (primeiros 6 meses). 2025: investigar EI diante de disfunção aguda/subaguda de biopróteses pulmonares.
  • Gestação: aconselhamento pré-concepcional e estratificação (mWHO). Contraindicada em HP/Eisenmenger, VE sistêmico gravemente disfuncional, obstrução grave à esquerda, aorta muito dilatada. Novidade 2025: a maioria das gestantes com CC pode ter parto vaginal com estratificação adequada.
  • Atividade física: recomendação individualizada, estimulando atividade em vez de restrição generalizada.
  • IC e saúde mental: a IC é causa crescente de morbimortalidade; GDMT por extrapolação. 2025: rastreio de saúde mental e desfechos neurocognitivos como parte do cuidado.
Lacunas reconhecidas — a agenda de pesquisa 2025

Momento ótimo das reintervenções em defeitos moderados/complexos; cuidado geriátrico do adulto envelhecido; vias de saúde mental; eficácia da GDMT em fisiologias específicas (ela é usada por extrapolação, não por evidência própria); ferramentas de predição de morte súbita. As classes indicadas nos resumos aproximam o sentido das diretrizes e variam conforme RVP, sintomas e anatomia.

Capítulo 31

Persistência do Canal Arterial

Diretrizes de referência

  • AAP 2025 — Patent Ductus Arteriosus in Preterm Infants (clinical report). Pediatrics. 2025;155(5):e2025071425.
  • ESC 2020 — Adult Congenital Heart Disease.
  • ACC/AHA 2025 — seção inédita dedicada à PCA, com recomendações inteiramente novas.
  • SBC/SBP — perspectiva brasileira. Classificação angiográfica de Krichenko.

Anatomia e fechamento fisiológico

O canal arterial deriva do 6º arco aórtico esquerdo e conecta o tronco da artéria pulmonar à aorta descendente (logo abaixo da subclávia esquerda). Na vida fetal, sua patência é mantida por baixa PaO₂ e prostaglandinas. Fechamento funcional em 24–72 h de vida a termo (elevação da PaO₂ e queda das prostaglandinas); fechamento anatômico em 2–3 semanas, formando o ligamento arterial. A persistência é favorecida por prematuridade, hipóxia, rubéola congênita e altitude elevada.

Ducto-dependência — o erro grave

Em cardiopatias com fluxo sistêmico ou pulmonar dependente do canal (atresia pulmonar, coarctação crítica, SHVE), a patência é salvadora — mantida com PGE₁ (alprostadil) até a intervenção. Nunca fechar antes de definir a anatomia. Administrar AINE fechando um canal salvador é erro grave.

Fisiopatologia do shunt

Fora do contexto ducto-dependente, gera shunt esquerda→direita da aorta para a artéria pulmonar, presente em sístole e diástole (a pressão aórtica é sempre maior).

  • Hiperfluxo pulmonar → sobrecarga de volume das câmaras esquerdas.
  • Roubo diastólico aórtico → pressão de pulso ampla, pulsos em martelo d'água; queda da perfusão coronariana, mesentérica, renal e cerebral (crítico no prematuro).
  • Canal grande não tratado → doença vascular pulmonar progressiva → elevação da RVP → inversão do shunt → Eisenmenger. Como o canal desemboca após a subclávia esquerda, surge a cianose diferencial: poupa membros superiores e predomina nos inferiores.

Classificação e clínica

Por repercussão: silencioso (sem sopro; achado incidental) · pequeno (sopro contínuo; câmaras normais) · moderado (sobrecarga de volume de VE; fechamento indicado) · grande (IC/hiperfluxo, HP).
Angiográfica (Krichenko) — orienta o dispositivo: A cônico (o mais comum) · B janela · C tubular · D complexo · E cônico alongado.

Sinais clássicos

Sopro contínuo "em maquinaria" (de Gibson) — região infraclavicular/subclávia esquerda, com reforço tele-sistólico que cruza a 2ª bulha. Pressão de pulso ampla; precórdio hiperdinâmico. Atenção: num canal grande com HP, o componente diastólico do sopro pode desaparecer (equalização de pressões).

Diagnóstico

A ecocardiografia com Doppler é a pedra angular — confirma o canal, mede o calibre e avalia a repercussão. No prematuro, marcadores de significância: diâmetro do PCA, padrão de fluxo, relação átrio esquerdo/raiz da aorta (AE/Ao) e sinais de hipoperfusão sistêmica (fluxo diastólico reverso em aorta descendente). O cateterismo fica reservado à medida invasiva da RVP (quando há HP) e à terapêutica.

O prematuro — a virada conservadora (AAP 2025)

A grande mudança da última década

Ensaios randomizados (PDA-TOLERATE, BeNeDuctus, Baby-OSCAR) não demonstraram benefício do fechamento precoce/profilático. Portanto: não há benefício do fechamento profilático nem do fechamento medicamentoso precoce (<2 semanas) versus manejo expectante — não recomendados.

  1. Manejo expectante com monitorização próxima — conduta inicial para a maioria. Muitos canais fecham espontaneamente (mais tardiamente quanto maior a imaturidade).
  2. Fechamento farmacológico do hsPDA além de 2 semanas — é razoável tentar fechar um PCA hemodinamicamente significativo após 2 semanas de vida. Ibuprofeno é o agente preferido (melhor perfil de segurança); acetaminofeno e indometacina são alternativas aceitáveis. Até 2 cursos.
  3. Fechamento procedimental se persistir — transcateter (ex.: Amplatzer Piccolo, cada vez mais favorecido) ou ligadura cirúrgica. Decisão multidisciplinar.
AgenteEsquema usualObservações
Ibuprofeno10 mg/kg → 5 mg/kg (24h e 48h), IV ou VOPreferido pela AAP. Não reduz o fluxo mesentérico/renal/cerebral como a indometacina. Cautela em oligúria, plaquetopenia, sangramento.
Acetaminofeno15 mg/kg 6/6h por 3–7 dias, IV ou VOAlternativa com perfil favorável (menos efeitos GI/renais); monitorar função hepática. Útil quando AINEs são contraindicados.
Indometacina0,2 mg/kg → 2 doses de 0,1–0,25 mg/kg, IV a cada 12–24hEficaz, porém mais efeitos adversos: vasoconstrição renal/mesentérica/cerebral, ECN, sangramento.

Contraindicações aos inibidores da COX: sangramento ativo, plaquetopenia significativa, oligúria/insuficiência renal, enterocolite necrosante e dependência do canal.

Zona cinzenta — causa ou marcador?

O PCA hemodinamicamente significativo (hsPDA) associa-se a displasia broncopulmonar, enterocolite necrosante, hemorragia intraventricular e mortalidade — mas permanece incerto o quanto é causa direta versus marcador da imaturidade. É essa incerteza que sustenta a virada conservadora.

Criança maior e adulto

Fora da prematuridade, o fechamento é quase sempre percutâneo (coil ou oclusor ductal — Amplatzer ADO/ADO II), com excelente segurança. A cirurgia fica para anatomias desfavoráveis, calibre muito grande ou falha do dispositivo.

  • Canal com repercussão (sobrecarga de VE) e RVP não proibitiva → fechar — Classe I nas três (SBC/SBP, ESC 2020, ACC/AHA 2025). ESC: RVP <3 WU; dispositivo é o método de escolha.
  • PCA pequeno, audível, sem sobrecarga → fechamento pode ser considerado pelo risco de endarteriteIIa (ESC 2020 e ACC/AHA 2025).
  • PCA silencioso (sem sopro) → fechamento de rotina não recomendado; decisão individualizada (IIb, ESC 2020).
RVP (com Qp:Qs >1,5)RecomendaçãoClasse
<3 WUFecharI
3 a 5 WUDecisão individualizada em centro especializadoIIa–IIb
>5 WU (mesmo caindo <5 com terapia-alvo)Decisão individual criteriosa, em centro especializadoIIb
≥5 WU persistente / EisenmengerFechamento contraindicadoIII
Endarterite infecciosa

A vegetação tende a se localizar na extremidade pulmonar do canal (jato de alta velocidade). O risco justifica considerar o fechamento mesmo de canais pequenos audíveis; após um episódio de EI, o fechamento é indicado.

Eisenmenger: fechamento contraindicado quando há doença vascular pulmonar fixa com shunt invertido. Casos muito selecionados de HAP grave (não Eisenmenger fixo) podem responder a terapia-alvo prolongada, com teste de oclusão e reavaliação de RVP em centro especializado — estratégia de exceção ("treat-and-repair").

Colofão. Livro digital compilado em julho de 2026 a partir da coleção ESTUDOS do Dr. Hugo Benchimol — 31 capítulos condensados de 37 arquivos-fonte distribuídos em 28 pastas temáticas.

Cada capítulo é uma síntese: preserva o essencial (definição, classificação, diagnóstico, tratamento) e privilegia as divergências entre ESC, ACC/AHA e SBC e as zonas cinzentas. Todo o conteúdo deriva dos resumos originais desta pasta — nenhuma classe de recomendação, nível de evidência, corte numérico ou nome de ensaio foi acrescentado de fora deles. Onde o resumo original era vago ou explicitamente ressalvado, esta condensação manteve a mesma cautela.

Material de estudo pessoal. Não substitui a leitura integral das diretrizes nem o julgamento clínico. Antes de aplicar à beira do leito, em prova ou em publicação, confira classes de recomendação, níveis de evidência, cortes numéricos e doses nos documentos-fonte originais.