Trinta e um capítulos condensados — SBC · ESC · ACC/AHA
Dr. Hugo Benchimol
Compilado em julho de 2026 · Coleção ESTUDOS
Nota. Este é um material de estudo pessoal, construído a partir dos
resumos comparativos da própria coleção. Cada capítulo é uma condensação do resumo
original — definição, diagnóstico, tratamento e, sobretudo, as divergências entre ESC, ACC/AHA
e SBC e as zonas cinzentas. Não substitui a leitura integral das diretrizes:
classes de recomendação, níveis de evidência, cortes numéricos e doses devem ser conferidos nos
documentos originais antes de qualquer decisão clínica. Ao fim de cada capítulo há o link para o
resumo completo correspondente.
Os três documentos abandonaram o termo "doença estável": a aterosclerose coronariana é um processo
dinâmico, com fases silenciosas longas e momentos de agudização. A SBC publicou diretriz própria em 2025 e
adotou "síndrome coronariana crônica", alinhando-se à ESC. A ACC/AHA usa "chronic coronary disease" —
foca a patologia, não a estabilidade do sintoma.
O alvo também se ampliou: não basta procurar estenose epicárdica. Num estudo com quase 400 mil pacientes
levados a coronariografia eletiva, apenas 41% dos que tinham isquemia funcional apresentavam
DAC obstrutiva (dado citado pela SBC 2025). Disfunção microvascular e vasoespasmo (ANOCA/INOCA) explicam
boa parte da angina com coronárias "limpas".
Probabilidade pré-teste
ESC 2024: estimar pelo modelo RF-CL (probabilidade clínica ponderada por
fatores de risco) — I B; refinar com dados clínicos adicionais (I C). Impacto: o RF-CL classifica
quase metade dos avaliados como probabilidade muito baixa (≤5%), contra apenas 19% pelo modelo ESC 2019 —
muito mais gente sai sem exame.
SBC 2025: usar o modelo com o qual o examinador esteja mais familiarizado. Faixas: <5% não
investigar; 5–15% individualizar; 15–85% teste funcional ou anatômico; >85% estratificação invasiva.
ACC/AHA 2023: não impõe modelo único. Contra-recomendação forte: não repetir testes de rotina
em paciente estável assintomático (3: sem benefício).
Divergência 1 — como estimar a chance
O mesmo paciente pode ser "muito baixa probabilidade, sem exame" pela ESC e "5–15%, individualizar" pela SBC.
A ESC ponderou a probabilidade por fatores de risco e por isso dispensa exame em muito mais gente; a SBC não
adotou o RF-CL como obrigatório.
Escolha do exame não invasivo
Regra de ouro comum: angio-TC para excluir DAC obstrutiva (alto valor preditivo negativo);
teste funcional para correlacionar sintoma com isquemia e guiar revascularização.
ESC 2024: angio-TC na probabilidade >5–50% (I A); eco de estresse e SPECT/PET
(preferencialmente PET) na faixa >15–85% (I B); RM de perfusão (I). Holter na suspeita de angina vasoespástica
(IIa B). O teste ergométrico praticamente saiu como ferramenta diagnóstica de 1ª linha.
SBC 2025: teste ergométrico mantido — I C para capacidade funcional, arritmia e
resposta pressórica; IIb como alternativa diagnóstica quando imagem não invasiva não está disponível.
Escore de cálcio I para reestratificar assintomático de risco intermediário e HF heterozigótica.
ACC/AHA 2023: aceita via anatômica ou funcional, sem hierarquia rígida; o exame só se justifica se
mudar a conduta.
Alto risco em teste não invasivo (SBC 2025)
Escore de Duke < −10 no TE · isquemia reversível ≥10% da massa do VE na cintilografia · alteração contrátil
induzida em ≥3 de 16 segmentos ao eco de estresse · isquemia induzida ≥2 segmentos à RM · lesão de tronco,
triarterial com lesões proximais ou DA proximal na angio-TC/CATE.
Viabilidade pela RM: realce tardio <25% → revascularizar; 25–50% → avaliar reserva contrátil antes;
>50% → sem benefício.
Antiagregação
ESC 2024: em SCC com IAM prévio ou ICP, clopidogrel 75 mg/dia é alternativa plena ao AAS
(I A), apoiado na metanálise PANTHER. Pós-CRM: AAS vitalício (I A). Dupla via (AAS + rivaroxabana 2,5 mg
12/12h) no alto risco isquêmico sem alto risco hemorrágico (IIa); risco moderado (IIb). DAPT pós-ICP eletiva:
6 meses padrão, 1–3 meses se alto risco hemorrágico.
SBC 2025: AAS 100 mg se IAM/revascularização prévios (I A); clopidogrel como alternativa, com efeito
"no mínimo similar", preferido em DAP ou AVC isquêmico prévio (I B). AAS na DAC sem IAM/revascularização: IIb.
Pós-ICP: AAS (I A) + clopidogrel ≥6 meses (I A); ≥3 meses se alto risco de sangramento (IIa).
ACC/AHA 2023: AAS 75–100 mg como padrão (1); clopidogrel na intolerância. Rivaroxabana 2,5 mg +
AAS no alto risco isquêmico (2a).
Divergência 2 — clopidogrel em monoterapia
ESC: I A (pode trocar). SBC: I B (perto disso). ACC/AHA: AAS segue padrão, clopidogrel
na intolerância (troque se precisar). É a diferença entre "pode trocar" e "troque se precisar".
Terapia de base
Eixo
SBC 2025
ESC 2024
ACC/AHA 2023
Alvo de LDL
<50 mg/dL + ↓≥50%; <40 se re-evento <2 anos
<55 mg/dL + ↓>50% (I A)
Sem meta; limiar 70 mg/dL para intensificar (2a)
Colchicina
IIb
IIa A
2b
iSGLT2 / GLP-1
No DM2, prevenção secundária
iSGLT2 no DM2 (I A), independe da HbA1c
1 — inclusive em alguns sem diabetes; iSGLT2 se FEVE ≤40% independente de DM
IECA/BRA de rotina
IIa se rotina; I se disfunção/IC/DM
Se HAS, DM, IC, disfunção de VE
1 se HAS, DM, FEVE ≤40%, DRC
Antianginosos
Sem 1ª/2ª linha — individualizar
Sem 1ª/2ª linha (I C)
Mantém betabloqueador como inicial
Divergências 3 e 4 — LDL e colchicina
LDL: a diretriz brasileira é a mais agressiva das três (<50); a americana é a única que evita fixar
um número-alvo. Colchicina: ESC IIa A (a mais entusiasta) · SBC IIb · ACC/AHA 2b. A ESC tomou posição
antes do CLEAR SYNERGY (OASIS-9), que veio depois e foi neutro no pós-IAM.
Betabloqueador — as três convergem, com nuances
A SBC 2025 cita o REDUCE-AMI: sem benefício no pós-IAM com FEVE >50%. Mantém a indicação como
antianginoso e na disfunção ventricular. A ACC/AHA é a mais explícita: não usar de rotina, a longo prazo, apenas
para melhorar desfecho, em paciente >1 ano pós-IAM sem FEVE ≤50% e sem outra indicação (2b).
Não é "suspender sempre": é reavaliar.
Terapia anti-isquêmica e revascularização
ESC 2024 e SBC 2025 abandonaram a categorização em drogas de 1ª e 2ª linha — individualizar pelo
mecanismo da isquemia. A ACC/AHA 2023 ainda mantém o betabloqueador como primeiro degrau. Pelo endótipo:
FC alta/pós-IAM/disfunção → betabloqueador (ou ivabradina); vasoespasmo → antagonista de cálcio + nitrato,
evitando betabloqueador não seletivo; disfunção microvascular → betabloqueador, IECA, estatina, ranolazina.
O ISCHEMIA fixou o princípio. Na letra da ESC 2024: em pacientes com SCC, função de VE normal e sem
lesão significativa de tronco ou de DA proximal, a revascularização, sobre a terapia médica otimizada isolada,
não prolonga a sobrevida global. E: em DAC multiarterial complexa sem tronco, particularmente no
diabético, a evidência indica maior sobrevida com CRM do que com ICP.
Tronco: CRM é o modo preferencial (ESC I); ICP é alternativa aceitável no tronco de baixa
complexidade (SYNTAX ≤22).
SBC 2025 — CRM: multiarterial com DA e SYNTAX >23, multiarterial + disfunção de VE, lesão de tronco.
ICP: controle de sintomas, multiarterial de menor complexidade, tronco de menor complexidade, estenose
com repercussão de fluxo aferida invasivamente.
Fisiologia invasiva: FFR ≤0,80 / iFR ≤0,89 antes de revascularizar lesões intermediárias
(ESC I; SBC enfática no mesmo sentido). Imagem intracoronária (IVUS/OCT) em tronco, bifurcação
verdadeira e lesão longa: ESC I A.
FEVE ≤35%: decisão pelo Heart Team (ESC I C). A SBC usa a FEVE ≤35% como um dos gatilhos que
impedem a estratégia conservadora inicial.
ANOCA / INOCA
Metade dos suspeitos de SCC pode ter ANOCA/INOCA. Diante de angina + isquemia sem lesão obstrutiva
(>50%), o CATE sozinho não fecha o diagnóstico. Cortes do fluxo invasivo, adotados por ESC e SBC:
FFR <0,80 (exclui obstrução funcional) · RFC <2,0 (a ESC também trabalha com 2,5) ·
IMR ≥25 · acetilcolina para vasoespasmo. Angina vasoespástica isolada: antagonista de cálcio
I A (ESC).
Zonas cinzentas
Onde a diretriz cala, hesita ou se contradiz
Clopidogrel I A com base em metanálise. O PANTHER é metanálise de dados individuais, não um RCT
dedicado cabeça a cabeça. Trocar todo mundo de AAS para clopidogrel é defensável pela ESC, mas não é consenso —
e no Brasil há custo e aderência.
Meta de LDL: <50, <55 ou sem meta? A crítica americana é que nenhum RCT randomizou pacientes
para alvos numéricos — os ensaios randomizaram drogas. Onde importa de verdade: um LDL de 60 mg/dL merece iPCSK9?
Pela SBC, sim; pela ACC/AHA, não.
Colchicina — a IIa da ESC envelheceu mal. LoDoCo2 e COLCOT positivos; CLEAR SYNERGY (OASIS-9),
o maior, neutro no pós-IAM. Posição defensável: reservar ao risco inflamatório residual documentado (PCR-us
persistentemente elevada) com LDL no alvo.
Revascularização na FEVE ≤35%. O ISCHEMIA excluiu esses pacientes. Restam STICH (benefício
tardio da CRM) e REVIVED-BCIS2 (ICP não superou terapia médica). A ESC resolve com recomendação processual
(Heart Team, I C) em vez de resposta clínica.
ICP para alívio sintomático. ORBITA (sham) não mostrou ganho; ORBITA-2 (sem antianginosos) mostrou
melhora real. O benefício existe, mas é menor do que a prática sugere e se dilui em quem já está bem medicado.
Angio-TC como porteiro universal. Acha ateromatose não obstrutiva em muita gente e dispara cascata.
A SBC foi mais cautelosa no risco baixo.
Teste ergométrico: relíquia ou ferramenta? A SBC o preservou porque a capacidade funcional em METs
é variável prognóstica de grande impacto — e porque grande parte do Brasil não tem PET, RM de estresse ou angio-TC.
Zona cinzenta de recursos, não de ciência.
AAS + anticoagulante na DAC crônica. O ensaio AQUATIC (2025) mostrou que, em SCC já
stentado e em anticoagulação crônica, acrescentar AAS aumentou sangramento maior e mortalidade sem reduzir eventos
isquêmicos. Ainda não codificado nas diretrizes.
Inconsistência interna da ESC. Imagem intracoronária: I A na SCC (2024), mas
IIa na SCA (2023) — artefato de cronologia (ILUMIEN IV, OCTOBER).
iSGLT2/GLP-1 sem diabetes. A ACC/AHA vai além: 1 para iSGLT2 em DAC + IC com FEVE ≤40%
independentemente de diabetes. SBC e ESC amarram ao DM2 — se o coronariopata é obeso e não diabético, a diretriz
brasileira não o cobre, mas a evidência já aponta.
SBC — SCA sem supra: Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181-264. IAMCSST: V Diretriz, 2015 — desatualizada.
Formato dos documentos
ESC e ACC/AHA passaram a tratar a SCA como um continuum único, num só documento cada — as diferenças
ficam concentradas no timing da estratégia invasiva. A SBC ainda não fez essa fusão, e sua diretriz de IAM com
supra é de 2015.
Alerta prático para o Brasil
A V Diretriz da SBC (2015) antecede COMPLETE, CULPRIT-SHOCK, ISAR-REACT 5, DanGer Shock, REDUCE-AMI e a era da
imagem intracoronária. Permanece excelente naquilo que é genuinamente brasileiro — lógica de rede, tempo-agulha,
estratégia fármaco-invasiva com tenecteplase, resgate. Para antiagregação, revascularização completa, imagem
intracoronária e manejo do choque, é preciso recorrer à ESC/ACC. O cardiologista brasileiro opera num híbrido.
Diagnóstico
Pilar da SCA sem supra: algoritmo 0/1h (alternativa 0/2h) com troponina ultrassensível. Valor muito baixo
na chegada (ou baixo + delta pequeno) → rule-out; valor muito alto ou delta significativo → rule-in; zona
intermediária → 3ª dosagem e imagem. Os pontos de corte são específicos do ensaio — não se transporta número
de um kit para outro. Regra que não muda: supra de ST → ativar reperfusão, não esperar a troponina.
Angio-TC no PS — ESC: posição restritiva — apenas na suspeita de SCA de baixo risco, com troponina
e ECG normais/inalterados.
Angio-TC no PS — ACC/AHA: posição mais ampla — também na SCA sem supra confirmada de risco
baixo/intermediário quando se optou por estratégia seletiva (base: VERDICT).
IAMCSST — reperfusão
ESC: ICP primária se o tempo do diagnóstico até a abertura for ≤120 min (I A). Se não for
factível → fibrinólise em ≤10 min do diagnóstico (I), seguida de transferência; angiografia em 2–24h após
fibrinólise bem-sucedida (I A); ICP de resgate imediata na falha (I A). Acesso radial padrão (I A).
ACC/AHA: porta–balão ≤90 min em centro com hemodinâmica; ≤120 min do primeiro contato em transferência.
Radial preferido ao femoral (1) — menos sangramento, menos complicação vascular, menos mortalidade (MATRIX).
SBC 2015: estratégia fármaco-invasiva como espinha dorsal — tenecteplase em bolus ajustada ao peso,
metade da dose se ≥75 anos, + transferência.
Critérios de reperfusão bem-sucedida após fibrinólise
Avaliar em 60–90 min: redução ≥50% do supradesnivelamento na derivação de maior supra + alívio da dor +
estabilidade hemodinâmica/elétrica. Não preencheu → resgate imediato. Preencheu → angiografia entre 2 e 24h
(não antes de 2h, não depois de 24h).
SCA sem supra — o momento da invasiva
Muito alto risco → invasiva imediata (<2h), I. Instabilidade hemodinâmica/choque, dor refratária,
IC aguda presumidamente isquêmica, arritmia ameaçadora ou PCR, complicação mecânica, alterações dinâmicas
recorrentes do ST/T. Aqui não há discussão nenhuma.
Alto risco (ESC): invasiva em ≤24h — rebaixada de I A para IIa A.
Risco intermediário/alto (ACC/AHA): estratégia invasiva durante a internação — Classe 1.
Não replicou o rebaixamento europeu.
Divergência 1 — a invasiva em 24h
O motivo do rebaixamento europeu: as metanálises não mostraram ganho de mortalidade da invasiva "em 24h" sobre a
invasiva "durante a internação" — o benefício era de isquemia recorrente e tempo de internação. Na prática as duas
convergem no comportamento; o que muda é a rigidez do relógio.
Antiagregação
Divergência 2 — pré-tratamento com P2Y12 (SCA sem supra)
ESC: não administrar rotineiramente antes de conhecer a anatomia quando a invasiva precoce está
planejada — III A. Pode ser considerado se postergada (IIb). ACC/AHA: se a angiografia estiver prevista para >24h, o pré-tratamento com clopidogrel ou
ticagrelor pode ser considerado (2b).
Tradução: CATE em poucas horas → não carregue. Espera longa → a americana te dá cobertura.
Divergência 3 — prasugrel × ticagrelor
ESC: prasugrel "deve ser considerado em preferência ao ticagrelor" (IIa B, ISAR-REACT 5). ACC/AHA: ticagrelor ou prasugrel em preferência ao clopidogrel (1) — sem
hierarquizar. O ISAR-REACT 5 foi aberto, com administração assimétrica (prasugrel após a anatomia; ticagrelor
antes). Contraindicações do prasugrel: AVC/AIT prévio (contraindicado); ≥75 anos ou <60 kg (evitar ou reduzir dose).
Divergência 4 — quando encurtar a DAPT
Padrão nas duas: DAPT 12 meses sem alto risco de sangramento (I A / 1). Mas as saídas divergem — e a
americana é a mais agressiva em encurtar: ACC/AHA: em quem tolerou DAPT com ticagrelor, transição para monoterapia com ticagrelor a partir de
1 mês pós-ICP — Classe 1. Monoterapia com clopidogrel/prasugrel: 2b. Desescalonamento após 1 mês: 2b. ESC: livre de eventos após 3–6 meses e sem alto risco isquêmico → monoterapia (preferencialmente P2Y12),
IIa A; alto risco hemorrágico → monoterapia após 1 mês (IIb B). Regra comum: não desescalonar nos primeiros 30 dias pós-SCA — ESC III B.
SCA + indicação de anticoagulação oral
Convergência quase total: tripla curta e depois retirar o AAS. ACC/AHA: retirar em 1 a 4 semanas
após a ICP (1), mantendo anticoagulante + P2Y12 (preferencialmente clopidogrel) até ~12 meses; depois anticoagulante
isolado. Prasugrel e ticagrelor não compõem terapia tripla. Preferir DOAC (exceto prótese mecânica e estenose
mitral reumática moderada/grave).
Revascularização, choque e imagem
Revascularização completa na doença multiarterial: Classe I nas duas. ESC: no procedimento
índice ou dentro de 45 dias (I A, COMPLETE). ACC/AHA: no IAMCSST, alguma preferência por tempo único.
Choque cardiogênico: revascularizar só a culpada; não tratar as não-culpadas no mesmo
procedimento — III / 3 (CULPRIT-SHOCK). A ACC/AHA admite ICP estagiada depois (2a).
Bomba microaxial em pacientes selecionados com choque do IAM: ACC/AHA 2a (DanGer Shock).
A ESC 2023 é anterior ao ensaio e silente. Balão intra-aórtico não tem benefício de sobrevida (IABP-SHOCK II).
Divergências 5 e 6 — imagem intracoronária e suporte no choque
Imagem: ACC/AHA 2025 dá Classe 1 a IVUS/OCT em lesão complexa; ESC 2023 dá apenas
IIa — enquanto a própria ESC 2024 (SCC) dá I A. A Europa dá Classe I na doença crônica e IIa
na aguda: inconsistência interna que é puro artefato de cronologia. Choque: o DanGer Shock reduziu mortalidade em 6 meses, ao custo de mais sangramento, isquemia de membro e
terapia renal substitutiva.
Prevenção secundária e alta
"A prevenção do próximo evento começa no momento do diagnóstico da SCA" (ESC 2023). Metas de alta da ESC:
LDL <55 mg/dL e ↓≥50%; PA <130/80; HbA1c <7%; estatina de alta potência desde a
fase aguda; reabilitação cardíaca e consulta de seguimento marcada antes da alta.
ACC/AHA 2025: estatina de alta potência para todos (1), com a opção de já iniciar ezetimiba junto.
Em estatina máxima e LDL ≥70 → adicionar não-estatina (1). LDL 55 a <70 → razoável intensificar (2a). Perfil lipídico
4–8 semanas após iniciar/ajustar (1). Betabloqueador precoce (<24h) no IAM (1). Reabilitação antes da alta (1).
Transfusão para Hb ~10 g/dL na anemia sem sangramento ativo: 2b. Colchicina: 2b.
Divergência 7 — o alvo de LDL após a SCA
ESC <55 · SBC 2025 (SCC) <50 (e <40 se re-evento em 2 anos) · ACC/AHA sem meta, com limiares de ação
(≥70 → intensificar, Classe 1; 55–69 → razoável, 2a). Resultado prático parecido, lógica diferente: europeus e
brasileiros perseguem um número; americanos perseguem uma escada de drogas.
Zonas cinzentas
Onde os documentos hesitam ou ainda não sabem
Prasugrel é mesmo melhor? Um único ensaio aberto sustenta a preferência europeia, com desenho que
confunde efeito da droga e efeito da estratégia. O ticagrelor é o único dos dois utilizável na estratégia conservadora
ou pré-anatomia.
Monoterapia com ticagrelor em 1 mês — Classe 1 é forte demais? O mesmo documento americano dá Classe 1
para DAPT de 12 meses e Classe 1 para sair dela em 1 mês — só se resolve individualizando pelo risco hemorrágico.
A ESC, com a mesma base (TWILIGHT, TICO, ULTIMATE-DAPT), foi mais tímida.
Revascularização completa: mesmo tempo ou estagiada? O COMPLETE não respondeu quando.
MULTISTARS-AMI e FULL REVASC deram sinais divergentes. Num paciente instável, com muito contraste, DRC ou lesão
complexa, estagiar é mais seguro — e nenhuma diretriz obriga o contrário.
Bomba microaxial no choque — a que preço? A população do DanGer era selecionada (choque por IAM, sem
PCR com dano neurológico). Extrapolar para todo choque é injustificado.
Transfusão na SCA. MINT favoreceu (marginalmente) a estratégia liberal; REALITY mostrou não-inferioridade
da restritiva. Decida pelo contexto isquêmico, não pelo número isolado.
MINOCA e SCAD — o vazio de evidência. Orientação quase toda observacional; sem RCT definindo tipo nem
duração do antitrombótico. Na SCAD a conduta padrão é conservadora. Se você não fizer RM, você não vai saber
o que o paciente teve.
Angio-TC no PS: onde parar? A posição americana arrisca cascata (TC → CATE → stent em lesão talvez não
culpada); a europeia arrisca internar e cateterizar quem a TC dispensaria.
Colchicina pós-IAM. COLCOT positivo; CLEAR SYNERGY neutro. ACC/AHA 2b, reconhecendo resultados
conflitantes. Não é conduta de rotina.
AHA 2019 — Scientific Statement on MINOCA. Circulation. 2019. Define o fluxo do "diagnóstico de trabalho".
ESC — 4ª Definição Universal de IAM + Diretriz de SCA 2023.
SBC — Posicionamentos sobre síndromes coronarianas agudas.
Definição — e o que NÃO é
MINOCA = infarto do miocárdio (critérios da definição universal) com coronárias <50% de estenose à
angiografia. É um diagnóstico de trabalho: obriga a caçar a causa, não a parar a investigação.
Critérios (AHA 2019): (1) IAM pela definição universal — troponina elevada com curva + clínica/ECG/imagem
de isquemia; (2) coronárias não obstrutivas (<50%); (3) ausência de outra causa clínica evidente para a elevação de
troponina. Se há causa clara, não é MINOCA.
Os "impostores" — excluir antes de rotular
Miocardite, Takotsubo e outras cardiomiopatias não são MINOCA — são diagnósticos
alternativos. Também excluir IAM tipo 2 (desequilíbrio oferta/demanda: sepse, taquiarritmia, anemia, crise
hipertensiva) e injúria miocárdica não isquêmica (TEP, IC, DRC).
Causas do MINOCA verdadeiro
Epicárdicas: ruptura/erosão de placa com trombo que lisou (causa frequente); espasmo coronariano;
dissecção coronariana espontânea (SCAD) — clássica em mulheres jovens/periparto; embolia/trombose
coronariana (trombofilia, FA, endocardite).
Microvascular: disfunção microvascular — coronárias epicárdicas "limpas", mas isquemia real.
Mais frequente em mulheres e em pacientes mais jovens que o IAM obstrutivo clássico. O prognóstico
não é benigno — merece investigação e prevenção.
Investigação dirigida
A ressonância cardíaca é o exame-chave: diferencia IAM (realce subendocárdico/transmural em território
coronariano) de miocardite (realce mesocárdico/subepicárdico) e Takotsubo (balonamento apical, edema sem realce).
A imagem intracoronária (OCT/IVUS) revela erosão de placa e SCAD. O teste provocativo com
acetilcolina confirma espasmo. Investigar trombofilia quando pertinente.
Tratamento — pela causa
Espasmo → antagonistas de cálcio / nitrato.
SCAD → geralmente conservador (a maioria cicatriza; stent só se isquemia/instabilidade).
Ruptura de placa → prevenção secundária como no IAM (antiagregante, estatina).
Zona cinzenta
Na dúvida ou na causa aterotrombótica, a prevenção secundária (estatina, IECA/BRA, antiagregante) é razoável, embora
a evidência seja menos robusta que no IAM obstrutivo. Não há RCT definindo tipo nem duração do
antitrombótico no MINOCA, nem o papel do betabloqueador e do IECA (ver também as zonas cinzentas do Capítulo 2).
ESC 2024 — Chronic Coronary Syndromes. Integra a VSA ao espectro ANOCA/INOCA.
SBC — não há diretriz brasileira dedicada; o tema é abordado dentro da doença coronária crônica.
Conceito
Constrição transitória e reversível de uma artéria coronária — epicárdica ou microvascular — causando isquemia na
ausência de obstrução fixa significativa. A marca registrada é a angina de repouso com supra de ST transitório,
predomínio noturno/madrugada, e resposta dramática a nitrato e a bloqueador de canal de cálcio.
Espasmo epicárdico — constrição ≥90% de artéria epicárdica visível à angiografia. É a angina
vasoespástica (VSA) propriamente dita.
Espasmo microvascular — sintoma + alterações isquêmicas no ECG sem espasmo epicárdico ≥90%.
Fisiopatologia e gatilhos
Denominador comum: hiper-reatividade do músculo liso vascular. Mecanismo molecular mais consagrado é a
via Rho-quinase (aumento da sensibilidade ao cálcio do aparato contrátil); somam-se disfunção endotelial
(menor óxido nítrico, endotelina-1) e tônus autonômico — que explica o ritmo circadiano.
Gatilhos:tabagismo (o fator de risco modificável mais fortemente associado), hiperventilação
(alcalose), cocaína/anfetaminas/álcool, frio, estresse, Valsalva, fármacos vasoconstritores (ergotamínicos, triptanos,
5-FU, betabloqueador não seletivo), hipomagnesemia. Prevalência marcadamente maior em populações do
Leste Asiático — daí a escola japonesa ser a referência histórica.
Quadro clínico e ECG
Angina em repouso, sobretudo noite/madrugada, com variação diurna, desencadeada por hiperventilação e com alívio
rápido por nitrato. Pode cursar com síncope (bradiarritmia/BAV ou TV durante o espasmo), palpitações. Complicações
graves: IAM (inclusive MINOCA), arritmias ventriculares malignas, BAV avançado transitório, morte súbita abortada.
No episódio: supra de ST transitório e reversível (clássico, isquemia transmural); infra de ST ou inversão de T
quando o espasmo é subtotal/microvascular; pseudonormalização de T. Fora do episódio o ECG costuma ser normal.
Holter é útil para flagrar o supra espontâneo — IIa B na ESC 2024.
Critérios COVADIS
#
Critério para VSA
1
Angina responsiva a nitrato, com ao menos um: (a) angina de repouso; (b) variação diurna/circadiana; (c) angina induzida por hiperventilação; (d) melhora com bloqueador de canal de cálcio.
2
Alterações isquêmicas transitórias no ECG durante episódio espontâneo — supra ou infra de ST ≥0,1 mV, ou novas ondas U negativas, em ≥2 derivações contíguas.
3
Espasmo coronariano documentado — constrição ≥90% de artéria epicárdica, espontânea ou provocada, com angina e alterações isquêmicas no ECG.
VSA definitiva = os três critérios. VSA suspeita = apenas dois. Espasmo microvascular =
reprodução da angina habitual + ECG isquêmico, sem espasmo epicárdico ≥90% durante o teste com acetilcolina.
Teste provocativo
Padrão-ouro quando o episódio espontâneo não pôde ser documentado. Agentes: acetilcolina (receptores
muscarínicos; em endotélio disfuncional gera vasoconstrição — permite avaliar também o componente microvascular) ou
ergonovina/ergometrina. Antes: excluir estenose epicárdica significativa (>50% visual ou FFR ≤0,80) e
suspender vasoativos (BCC, nitratos) por 24–72h. Positivo = os três componentes (angina habitual + ECG isquêmico +
constrição ≥90%). Risco globalmente baixo em mãos experientes, mas pode induzir espasmo prolongado, arritmias e BAV —
exige nitrato intracoronário à mão.
Diferencial dentro do espectro ANOCA/INOCA
Endótipo
Achado no teste
Direção do tratamento
VSA (epicárdico)
ACh → constrição ≥90% + angina + ECG
BCC ± nitrato; cessar tabagismo
Espasmo microvascular
ACh → angina + ECG, sem espasmo ≥90%
BCC; abordar disfunção endotelial
DMC estrutural
CFR <2,0–2,5 e/ou IMR ≥25
Betabloqueador, IECA, ranolazina, estatina
MINOCA
RMC, imagem intracoronária, provocação
Conforme a causa identificada
Tratamento
Cessação do tabagismo — a medida não farmacológica mais importante.
Bloqueadores de canal de cálcio — pilar. Primeira linha; na ESC 2024, para VSA isolada é
I A. Casos graves exigem doses altas, e a combinação de duas classes de BCC
(di-hidropiridínico + diltiazem) é válida no refratário. Preferir formulações de longa ação, cobrindo o pico
circadiano da madrugada.
Nitratos: sublingual para a crise (com valor diagnóstico); de longa ação como adjuvante (atenção à
tolerância). Nicorandil — útil, sobretudo na escola japonesa.
Evitar:betabloqueador não seletivo (piora o espasmo por atividade alfa sem oposição),
ergotamínicos, triptanos. Se o betabloqueador for necessário por DAC obstrutiva concomitante, preferir agentes com
vasodilatação, sempre sob cobertura de BCC.
Refratário: combinar BCC de classes diferentes + nitrato de longa ação ± nicorandil; estatina;
inibidor de Rho-quinase (fasudil — escola asiática/pesquisa); magnésio em selecionados; CDI em
sobreviventes de parada cardíaca por arritmia relacionada ao espasmo apesar de terapia otimizada. O
stent não trata o espasmo difuso e pode deslocar o sítio espástico.
Prognóstico e divergências
Em geral favorável com BCC e controle de gatilhos. Marcadores de pior evolução: espasmo multivaso, arritmia ventricular
maligna/parada no episódio, coexistência com aterosclerose obstrutiva ou DMC, refratariedade e manutenção do tabagismo.
JCS 2023 × ESC 2024
JCS: doença muito prevalente no Japão; foco em diagnóstico invasivo refinado, protocolo rigoroso de
provocação, uso forte de nicorandil e de fasudil. ESC 2024: integra a VSA ao espectro ANOCA/INOCA e centra tudo na caracterização do endótipo;
teste de função coronária invasivo na VSA suspeita com episódios repetidos (I B); Holter (IIa B); BCC
I A.
Ambas alinhadas aos critérios COVADIS. Não há diretriz brasileira dedicada.
A Definição Universal de IC (2021) unificou os critérios: sintomas/sinais de IC + evidência objetiva de
disfunção cardíaca (peptídeos natriuréticos elevados ou congestão). Faixas de FEVE: ICFEr ≤40% ·
ICFEmr 41–49% · ICFEp ≥50%. IC com FE recuperada: era ICFEr e melhorou para >40% —
mantém-se a GDMT, pois a retirada precipita recaída (TRED-HF). Não é cura.
Estágios A (em risco) → B (pré-IC, doença estrutural sem sintomas) → C (sintomática) → D (avançada) são
progressivos e irreversíveis; a NYHA é reversível e oscila com a compensação.
Diagnóstico
Peptídeos natriuréticos (alto valor preditivo negativo; elevados também em FA, DRC, idade, TEP, sepse; reduzidos
na obesidade) + ecocardiograma como pilar de imagem. RM cardíaca para etiologia (fibrose/realce tardio, miocardite,
infiltrativas, amiloidose).
Particularidades brasileiras
O PCDT/MS 2024 recomenda os Critérios de Framingham (2 maiores, ou 1 maior + 2 menores) para
o diagnóstico clínico de IC no SUS. E sempre pesquisar doença de Chagas — pior prognóstico, disautonomia,
aneurisma apical, BRD+HBAE, alto risco de morte súbita.
Os quatro pilares da GDMT
Em ICFEr sintomática, as quatro classes reduzem mortalidade e hospitalização de forma aditiva e independente,
com benefício já nos primeiros 30 dias. Todas têm Classe I nas três diretrizes.
Bloqueio do SRAA — ARNI / IECA / BRA. Sacubitril/valsartana é o agente preferencial (PARADIGM-HF).
Washout de 36h entre IECA e ARNI (angioedema); nunca associar ARNI + IECA. Dose-alvo 97/103 mg 2×/dia.
Betabloqueio. Apenas os quatro com evidência — carvedilol, succinato de metoprolol, bisoprolol,
nebivolol (não é classe intercambiável). Iniciar euvolêmico e estável, "start low, go slow".
Antagonista mineralocorticoide. Espironolactona (RALES, NYHA III–IV) e eplerenona (EMPHASIS-HF, NYHA II;
EPHESUS pós-IAM). Monitorar K⁺ e função renal em 1 e 4 semanas.
iSGLT2. Dapagliflozina e empagliflozina — benefício independente do diabetes (DAPA-HF,
EMPEROR-Reduced). Dose fixa, sem titulação. Suspender em jejum prolongado/cirurgia (cetoacidose euglicêmica).
Divergência — o fraseado do ARNI
É o ponto de maior divergência: a ACC/AHA 2022 e o Decision Pathway 2025 colocam o ARNI como
preferencial de saída (I-A). ESC (I-B) e SBC (I-B) o consolidam como Classe I para
substituir IECA/BRA em quem permanece sintomático, admitindo início de novo.
Sequenciamento e titulação rápida
O paradigma mudou: em vez de escalonar uma classe por vez até a dose-alvo, iniciar as quatro rapidamente em baixas
doses e depois titular. O STRONG-HF mostrou que a titulação intensiva precoce após descompensação reduz
morte/reinternação. ESC 2023: otimização em ~6 semanas após a alta. ACC 2024/2025: as quatro classes na dose-alvo/máxima
tolerada idealmente em ≤3 meses.
Parâmetros de segurança (modelo STRONG-HF): PAS ≥100 mmHg · FC ≥60 bpm · K⁺ ≤5,0 mEq/L · TFG ≥30
mL/min/1,73m². Não há sequência única obrigatória — iSGLT2 e betabloqueador toleram PA/FC limítrofes melhor que
ARNI/MRA.
Terapias adicionais
Terapia
Indicação
Classe
Ensaio
Diurético de alça
Congestão
I-C
— (sem efeito em mortalidade)
Ivabradina
Ritmo sinusal, FC ≥70 apesar de BB máx. tolerado, FE ≤35%, NYHA II–IV
IIa-B
SHIFT
Vericiguat
ICFEr com piora recente apesar de GDMT
IIb-B
VICTORIA
Hidralazina + nitrato
Autodeclarados afrodescendentes NYHA III–IV; ou intolerância ao SRAA
IIa · I-A
A-HeFT
Digoxina
Sintomas persistentes / controle de FC na FA
IIb-B
DIG (janela estreita)
Ferro EV (carboximaltose)
Deficiência de ferro
IIa-A
AFFIRM-AHF · IRONMAN
Evitar na ICFEr: AINEs, glitazonas (retenção hídrica), verapamil e diltiazem (inotropismo negativo).
Anlodipino é seguro se necessário para PA.
Dispositivos e IC avançada
Indicados após ≥3 meses de GDMT otimizada, com FEVE persistentemente reduzida e expectativa de vida >1 ano
com boa qualidade. CDI: FEVE ≤35%, NYHA II–III — isquêmica ≥40 dias pós-IAM (ESC I-A / ACC I); não isquêmica
ESC IIa-A (rebaixada após DANISH) × ACC/AHA I. TRC: BRE com QRS ≥150 ms → I-A. Detalhamento no
Capítulo 7.
IC avançada (estágio D): sinais "I NEED HELP" — inotrópico, NYHA III–IV/PN persistente, disfunção de
órgão-alvo, FE muito baixa, choques do CDI/hospitalizações, escalada de diurético, PA baixa, intolerância à GDMT.
TEER mitral (COAPT) na regurgitação secundária significativa apesar de GDMT com anatomia favorável.
Transplante e DAV/LVAD — encaminhamento precoce ao centro especializado antes de disfunção irreversível de
órgão-alvo.
No Brasil, além da diretriz SBC/DEIC, o PCDT do Ministério da Saúde (2024) regula o acesso no SUS. Ao
responder questões de conduta pública, verificar disponibilidade de fármacos e critérios administrativos, que não coincidem
com as recomendações internacionais.
Resumo completo
Doses-alvo detalhadas, tabela de classes por diretriz e mapa de ensaios:
ICFEr — guia de estudo
Capítulo 6
Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada
Diretrizes de referência
ESC 2023 — Focused Update da diretriz de IC de 2021. iSGLT2 Classe I para ICFEmr e ICFEp.
SBC — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca (crônica e aguda) + atualizações.
Ensaio-chave posterior: FINEARTS-HF (2024).
Definição e diagnóstico
ICFEp = sintomas/sinais de IC + FE ≥50% + evidência objetiva de disfunção diastólica / pressões de enchimento
elevadas. O desafio é provar que a dispneia é de origem cardíaca com FE normal.
ESC — HFA-PEFF: escore por etapas — funcional (E/e', e', VR de IT), morfológico (volume do AE indexado,
massa do VE) e biomarcador (BNP/NT-proBNP). Zona intermediária → teste de estresse diastólico (eco de esforço) ou medida
invasiva de pressão.
ACC/AHA — H2FPEF: escore clínico simples — IMC (Heavy), Hipertensão, Fibrilação atrial,
PSAP (Pulmonary), idade (Elder), E/e' (Filling). Pontuação alta torna ICFEp provável sem mais testes.
Rastrear amiloidose cardíaca (ATTR) na ICFEp do idoso com hipertrofia, especialmente com túnel do carpo,
baixa voltagem no ECG e realce difuso na RM — muda completamente a conduta (ver Capítulo 18). Também excluir
valvopatia, pericardite constritiva e isquemia.
Tratamento — a virada dos iSGLT2
Por décadas a ICFEp não tinha terapia que mudasse desfecho. Isso acabou.
1º pilar — iSGLT2. Dapagliflozina (DELIVER) e empagliflozina (EMPEROR-Preserved)
reduzem hospitalização/morte CV. Classe I na ICFEmr e ICFEp (ESC 2023), independentemente de diabetes.
2º pilar — finerenona. O FINEARTS-HF (2024) mostrou que a finerenona (ARM não esteroidal)
reduz eventos de IC + morte CV na ICFEmr/ICFEp, mesmo sobre iSGLT2. Aprovação ampliada (FDA, jul/2025) para
FE ≥40%. Novo pilar antes inexistente.
Suporte e comorbidades. Diuréticos para congestão. A ICFEp é doença de comorbidades: tratar
HAS, FA, obesidade, DM, apneia. Semaglutida (STEP-HFpEF) melhora sintomas na ICFEp com obesidade.
Onde ficaram o ARM esteroidal e o ARNI
Espironolactona (TOPCAT) e sacubitril/valsartana (PARAGON-HF): benefício limítrofe, maior no
extremo inferior da FE preservada e nas mulheres → recomendação fraca (Classe IIb / 2b). A novidade sólida
da classe ARM veio com a finerenona (não esteroidal).
Síntese comparativa
Eixo
SBC
ESC 2023
ACC/AHA 2022
Corte de FE
≥50%
≥50%
≥50%
Escore diagnóstico
Eco + peptídeos
HFA-PEFF
H2FPEF
iSGLT2
Recomendado
Classe I
Classe 2a (favorece)
ARM esteroidal
2b
Não recomendava (pré-FINEARTS)
Espironolactona 2b
ARNI
Individualizado
2b (FE mais baixa)
2b
Obesidade
Tratar
Semaglutida (STEP-HFpEF)
Tratar comorbidades
Zona cinzenta — a finerenona ainda não está codificada
A incorporação da finerenona é recente (2024–2025) e tende a entrar nas próximas atualizações — mas não está
formalmente nas diretrizes vigentes citadas acima. Note também a divergência de classe do iSGLT2 (I na ESC 2023 × 2a na
ACC/AHA 2022), que é cronológica: a americana é anterior ao DELIVER.
Os três degraus pressupõem GDMT otimizada e reavaliação da FEVE antes da indicação. O CDI trata o risco de
morte súbita arrítmica; a TRC trata a dissincronia; o transplante trata a IC refratária terminal.
A regra dos 3 meses
Reavaliar a FEVE após ≥3 meses de GDMT otimizada antes de indicar CDI/TRC em prevenção primária. Muitos
pacientes recuperam FE e deixam de ter indicação — evita implante desnecessário.
CDI
Prevenção secundária — Classe I, independente da FE (cardiopatia estrutural, sem causa reversível):
sobreviventes de parada por FV ou TV; TV sustentada espontânea com instabilidade hemodinâmica ou com cardiopatia
estrutural; síncope indeterminada com TV/FV induzível ou clinicamente relevante. Base: AVID, CIDS, CASH.
Prevenção primária:
Isquêmica: FEVE ≤35%, NYHA II–III, GDMT ≥3 meses → I-A; FEVE ≤30% em NYHA I → IIa
(MADIT-II). Exige ≥40 dias pós-IAM e ≥90 dias pós-revascularização.
Não isquêmica: FEVE ≤35%, NYHA II–III, GDMT ≥3 meses → ESC IIa-A (rebaixada após DANISH)
× ACC/AHA I. Benefício maior em mais jovens; a RM com realce tardio ajuda a estratificar.
Divergência — o CDI no não isquêmico (DANISH)
O DANISH (2016) não reduziu mortalidade total (reduziu morte súbita), com efeito atenuado em idosos e pela
alta taxa de TRC no estudo. A ESC rebaixou de I para IIa; a ACC/AHA manteve Classe I. É a principal
divergência formal entre as duas.
CDI na cardiomiopatia chagásica
Doença essencialmente arritmogênica: 55–65% das mortes por Chagas são súbitas, majoritariamente por FV.
A estratificação usa o escore de Rassi.
Variável
Pontos
NYHA III ou IV
5
Cardiomegalia (RX de tórax)
5
Disfunção segmentar/global (eco)
3
TVNS no Holter
3
Baixa voltagem no ECG
2
Sexo masculino
2
Risco (mortalidade em 10 anos): baixo 0–6 pts (~10%) · intermediário 7–11 (~44%) · alto 12–20 (~84%).
Zona cinzenta — CHAGASICS
RCT (JAMA Cardiol 2024) com 323 chagásicos, Rassi ≥10 + ≥1 episódio de TVNS, CDI × amiodarona: o CDI
não reduziu a mortalidade total (desfecho primário), mas reduziu morte súbita em 72% e
hospitalização por IC em 47%. Estudo subdimensionado (parou antes dos 1.100 previstos) — interpretar com cautela.
Na prática e na DCEI/SBC 2023, o CDI é considerado sobretudo em prevenção secundária e em prevenção primária
de alto risco (TVNS + disfunção, síncope de provável origem arrítmica).
Terapia de Ressincronização Cardíaca
Pré-requisitos: sintomático apesar de GDMT otimizada, FEVE ≤35% e, idealmente, ritmo sinusal.
O ganho é proporcional à largura do QRS e maior no BRE.
Padrão do QRS
Duração
Classe
Comentário
BRE
≥150 ms
I-A
Indicação mais forte; maior benefício
BRE
130–149 ms
I-B
Benefício consistente
não-BRE
≥150 ms
IIa
Benefício menor
não-BRE
130–149 ms
IIb
Benefício incerto
qualquer
<130 ms
III
Não indicar — Echo-CRT mostrou possível dano
Situações específicas: FA + IC com necessidade de estimulação biventricular ~100% (frequentemente após
ablação do nó AV) → IIa. Indicação de MP com FEVE reduzida e expectativa de alta carga de estimulação ventricular →
preferir TRC à estimulação isolada de VD (I). Upgrade de MP/CDI com alta carga de estimulação de VD e piora da
IC (BUDAPEST-CRT). ~30% de não respondedores; preditores de boa resposta: BRE verdadeiro, QRS muito largo,
sexo feminino, etiologia não isquêmica, ausência de cicatriz extensa.
Transplante cardíaco
Indicação
Classe / NE
IC refratária dependente de inotrópico e/ou suporte circulatório mecânico e/ou ventilação mecânica
I-C
VO₂ pico ≤12 mL/kg/min em uso de betabloqueador
I-B
VO₂ pico ≤14 mL/kg/min em intolerantes a betabloqueador
IIa
VE/VCO₂ slope >35 (+ VO₂ pico ≤14)
IIa-C
Angina refratária sem possibilidade de revascularização
I-C
Arritmia ventricular refratária a todas as terapias
I-C
Teste de caminhada de 6 min <300 m (marcador auxiliar)
IIa-C
Não indicar (Classe III): disfunção sistólica isolada sem sintomas refratários; NYHA III/IV sem otimização
terapêutica prévia; listar baseando-se apenas no VO₂ isolado, sem contexto clínico.
Contraindicações absolutas:hipertensão pulmonar fixa/irreversível — RVP >5 unidades Wood, ou
GTP >15 mmHg / PSAP >60 mmHg sem resposta a vasodilatador; doença sistêmica com expectativa de vida limitada; neoplasia
ativa; infecção ativa não controlada; disfunção irreversível de outro órgão-alvo.
Relativas: idade avançada, obesidade/caquexia, DM com lesão de órgão-alvo (HbA1c >7,5%), doença
renal/hepática significativa, doença vascular grave, tabagismo, abuso de substâncias, não adesão.
Deixaram de ser contraindicação absoluta
HIV+ estável (CD4 >200, carga viral indetectável, TARV); HBV/HCV sem cirrose/hipertensão
portal/CHC; amiloidose (AL/ATTR) em cenários selecionados, com abordagem multidisciplinar.
Ponte: DAV/LVAD como ponte para transplante, para candidatura (recuperar órgãos-alvo/RVP), para decisão ou
como terapia de destino. Seleção pelo perfil INTERMACS (1 = choque crítico → 7). Ensaios: REMATCH,
MOMENTUM 3 (HeartMate 3).
Zona cinzenta — o timing
Reconhecer a IC avançada e encaminhar cedo, antes de RVP fixa ou disfunção irreversível de órgão-alvo — que
convertem um candidato em não candidato. É o erro mais custoso e o menos visível.
ESC/EACTS 2021 — Valvular Heart Disease. Eur Heart J 2021. TAVI ≥75 anos; intervir mais cedo no assintomático.
ACC/AHA 2020 — Valvular Heart Disease. Circulation 2020. TAVR >80 / SAVR <65 / Heart Team no meio.
SBC — Diretriz Brasileira de Valvopatias. Peso próprio à doença reumática.
Princípios comuns
Decisão pelo Heart Team; quantificação por eco integrando múltiplos parâmetros; e a grande tendência:
intervir mais cedo no assintomático de alto risco e usar cateter quando indicado.
Diferença Brasil × mundo
A doença reumática ainda pesa muito no Brasil (estenose/insuficiência mitral em jovens) — a SBC dá peso
próprio a isso. Nos guias europeu e americano predomina a valvopatia degenerativa do idoso.
Válvula aórtica
ESC/EACTS 2021: TAVI transfemoral preferida em ≥75 anos (ou alto risco cirúrgico);
cirurgia (SAVR) preferida em jovens/baixo risco. EAo grave assintomática: intervir se FE <50%, teste de esforço com
sintomas, ou EAo muito grave.
ACC/AHA 2020: TAVR >80 anos (ou expectativa <10 anos); SAVR <65 anos;
Heart Team entre 65 e 80. EAo grave assintomática: FE <50% (I) ou muito grave/gatilhos (2a).
Insuficiência aórtica: operar se sintomas, FE ≤50%, ou VE dilatado (DSVE >50 mm ou DDVE muito
aumentado). Raiz de aorta dilatada muda o gatilho (associar à doença de aorta — Capítulo 22).
Detalhamento da estenose aórtica, dos ensaios de longo prazo e da escolha SAVR × TAVI: Capítulo 9.
Válvula mitral
Distinguir primária (degenerativa, prolapso) de secundária (funcional, do VE dilatado) é o que
define a estratégia.
IM primária: grave sintomática → reparo (preferível à troca) por equipe experiente.
Assintomática: operar se FE ≤60%, DSVE ≥40 mm, FA nova ou PSAP >50 mmHg.
IM secundária: TEER (MitraClip) na IM secundária grave sintomática apesar de terapia médica otimizada
(COAPT), selecionando pela "proporcionalidade" — IM desproporcional ao VE responde melhor.
Detalhamento no Capítulo 10.
Estenose mitral reumática: valvoplastia mitral percutânea por balão se anatomia favorável (escore de
Wilkins), sem trombo em AE e sem IM significativa.
Válvula tricúspide e pulmonar
A tricúspide era a "valva esquecida". IT grave sintomática: considerar intervenção antes de disfunção de VD
avançada. Surgiram opções transcateter — T-TEER (TriClip; ensaio TRILUMINATE: melhora
sintomática e remodelamento de VD) e troca transcateter (TRISCEND II). Ainda em incorporação nas
diretrizes.
A valvopatia pulmonar é dominada por cardiopatia congênita: estenose pulmonar → valvoplastia por balão; regurgitação
pós-correção de Fallot → troca valvar cirúrgica ou percutânea (ver Capítulo 30). Endocardite da pulmonar é rara (usuários
de droga IV).
Próteses e anticoagulação
Regra de ouro
Mecânica → varfarina vitalícia (INR-alvo conforme posição/risco); DOACs são
contraindicados em prótese mecânica. Biológica → antitrombótico conforme risco. A escolha
mecânica × biológica é pela idade e preferência (durabilidade × não anticoagular). Esquemas detalhados no
Capítulo 13.
Síntese comparativa
Tema
SBC
ESC/EACTS 2021
ACC/AHA 2020
TAVI × cirurgia (idade)
Heart Team + risco
TAVI ≥75 anos
TAVR >80 / SAVR <65
EAo assintomática grave
FE <50%, gatilhos
Intervir mais cedo
FE <50% (I)
IM primária
Reparo > troca
Reparo; gatilhos precoces
Reparo > troca
IM secundária
TMO + considerar TEER
TEER (COAPT)
TEER selecionado
EM reumática
Valvoplastia por balão
Balão se favorável
Balão se favorável
Tricúspide
Intervir antes de VD ruim
Cirurgia + T-TEER emergente
Cirurgia; transcateter emergente
Prótese mecânica
Varfarina (DOAC proibido)
Idem
Idem
Zona cinzenta
Cortes numéricos (FE, diâmetros, idade) e classes variam entre as diretrizes — o mesmo paciente de 70 anos
pode ir a TAVI pela ESC e a Heart Team pela ACC/AHA. A tricúspide transcateter ainda não tem posição consolidada em
nenhum dos documentos.
ACC/AHA 2020 e ESC/EACTS 2021 — diretrizes de valvopatias vigentes.
EARLY TAVR (NEJM 2024) e EVOLVED (JAMA 2024) — intervenção no assintomático.
PARTNER 3 (5 e 7 anos) e Evolut Low Risk (5 anos) — baixo risco cirúrgico.
Tratamento clínico
Princípio central
Na EAo grave não existe fármaco que reverta ou freie comprovadamente a progressão. O tratamento definitivo é
a troca valvar. Tudo o mais é suporte — nunca substituto da intervenção quando ela está indicada.
Hipertensão: tratar (a contraindicação antiga foi superada). Iniciar com doses baixas e titular, evitando
queda abrupta de pós-carga. IECA/BRA são seguros e razoáveis.
Estatina:não retarda a progressão da EAo (SALTIRE, SEAS, ASTRONOMER negativos). Indicada
apenas pelo perfil aterosclerótico/DAC, não pela valvopatia.
Fibrilação atrial: controle prioritário — o VE hipertrofiado depende do atrial kick. Betabloqueador
preferível para controle de frequência.
Diuréticos: úteis na congestão, mas o VE é pré-carga-dependente; depleção excessiva causa
hipotensão e baixo débito.
Nitratos/vasodilatadores:evitar na EAo grave sintomática — a obstrução é fixa, o débito não
sobe com vasodilatação. Nitrato SL em dor torácica com EAo grave é armadilha clássica.
Valvuloplastia aórtica por balão: ponte no paciente crítico ou teste da reversibilidade dos sintomas.
Não é definitiva (reestenose precoce).
Vigilância do assintomático: eco seriado (grave ~6–12 meses; muito grave em intervalos mais curtos); teste
ergométrico para desmascarar sintomas ou queda pressórica; BNP/NT-proBNP seriado; educação para relato precoce de sintomas.
Quando trocar — indicações convergentes
Cenário
Classe
EAo grave sintomática de alto gradiente
I
EAo grave sintomática, baixo fluxo–baixo gradiente (com evidência de gravidade real)
I
EAo grave assintomática + FEVE <50%
I
EAo grave ao submeter-se a outra cirurgia cardíaca
I
Assintomática, muito grave (Vmáx ≥5 m/s), baixo risco cirúrgico
IIa
Assintomática + teste de esforço anormal (sintomas ou queda de PA)
IIa
Assintomática + progressão rápida ou BNP muito elevado (>3×)
IIa
Assintomática + queda progressiva da FEVE em seguimento
IIa
Como trocar — a divergência
Divergência — o divisor de idade
ACC/AHA 2020 arbitra por idade / expectativa de vida: <65 anos ou expectativa >20 anos →
SAVR; 65–80 → decisão compartilhada; >80 anos ou expectativa <10 anos → TAVI (se transfemoral). ESC/EACTS 2021 arbitra por idade + risco cirúrgico + anatomia: <75 anos e baixo risco
(STS/EuroSCORE II <4%) → SAVR; ≥75 anos, alto risco ou inoperável → TAVI (se transfemoral); faixa intermediária →
Heart Team. A grande diferença prática: ACC/AHA usa 65 anos como divisor "jovem"; a ESC usa 75.
Ambas exigem Heart Team e via transfemoral como preferencial.
O paradigma do assintomático — EARLY TAVR e EVOLVED (2024)
EARLY TAVR (NEJM 2024; n=901; seguimento 3,8 anos): assintomáticos confirmados por teste de esforço →
TAVI precoce × vigilância. Desfecho composto (morte, AVC, hospitalização CV não planejada): 26,8% × 45,3%
(HR 0,50). Benefício conduzido por menos hospitalizações CV; sem aumento de AVC ou mortalidade.
A vigilância "assintomática" progride rápido: 26% converteram em 6 meses e 47% em 12 meses.
EVOLVED (JAMA 2024; n=224; assintomáticos com fibrose na RM): troca precoce × conservador. Desfecho
composto: 18% × 23% (HR 0,79; p=0,44) — mesma direção, sem significância (menor poder).
Ressalva importante
As diretrizes vigentes (ACC/AHA 2020, ESC 2021) ainda recomendam vigilância no assintomático de FE preservada
sem critérios adicionais. O EARLY TAVR não foi formalmente incorporado, embora já reoriente a prática.
Metanálise (4 ECRs, 1.427 pacientes) mostra redução do desfecho composto com intervenção precoce (29% × 54%; RR 0,56).
Dados de longo prazo no baixo risco
Ensaio · desfecho
TAVI
SAVR
Leitura
PARTNER 3 — composto, 1 ano
8,5%
15,1%
Superioridade inicial da TAVI
PARTNER 3 — composto, 5 anos
22,8%
27,2%
Diferença se atenua (p=0,07)
PARTNER 3 — composto, 7 anos
34,6%
37,2%
Mantêm-se semelhantes
PARTNER 3 — falência da bioprótese (5 anos)
3,3%
3,8%
Durabilidade semelhante até aqui
Evolut LR — morte/AVC incapacitante (5 anos)
15,5%
16,4%
Não inferior (HR 0,90)
O dado que ainda falta
A durabilidade é semelhante até ~5–7 anos, mas os desfechos de 10 anos — cruciais para o
paciente jovem de baixo risco — ainda não existem. É exatamente essa incerteza que sustenta a preferência por
SAVR nos mais jovens.
Comparativo cabeça a cabeça
Aspecto
SAVR
TAVI
Abordagem
Esternotomia/CEC; recuperação longa
Percutânea; alta precoce
FA nova pós-op
Maior
Menor
Sangramento
Maior
Menor
Regurgitação paravalvar
Menor
Maior
Marcapasso definitivo
Menor
Maior
Trombose de válvula
Menor
Maior
Complicação vascular/acesso
—
Maior
Procedimentos concomitantes
Permite CABG, outra valva, aortoplastia
Isolada
Durabilidade
Referência histórica
Semelhante até 5–7 anos; 10 anos pendente
Favorece SAVR: mais jovem; DAC com indicação de CABG, outra valvopatia cirúrgica ou aneurisma de aorta
ascendente; anatomia desfavorável à TAVI (ânulo muito pequeno/grande, altura coronária baixa, risco de obstrução coronária);
acesso vascular ruim; endocardite ativa; necessidade de prótese mecânica. Favorece TAVI: idoso, risco alto/proibitivo, fragilidade, tórax hostil (aorta em porcelana, radioterapia prévia,
revascularização prévia com pontes patentes), anatomia favorável ao transfemoral.
Primária / degenerativa (DMR): doença do aparelho valvar — prolapso/flail, ruptura de cordas, doença
reumática. O problema é a válvula. Cirurgia (reparo) é o padrão-ouro; o transcateter entra quando o risco
cirúrgico é proibitivo.
Secundária / funcional (FMR): válvula anatomicamente normal; a regurgitação decorre de remodelamento do VE
(ventricular) ou do átrio/anel (atrial, p.ex. FA). O problema é o ventrículo — daí a GDMT vir primeiro.
Quantificação (MR grave): EROA ≥40 mm² (≥0,40 cm²) · volume regurgitante ≥60 mL · fração regurgitante ≥0,50.
Na FMR, cortes mais baixos (EROA ≥30 mm², VR ≥45 mL) já denotam gravidade prognóstica. Integrar sempre método
qualitativo + semiquantitativo + quantitativo.
Quem não vai para cirurgia — e o pré-requisito na FMR
A porta de entrada do transcateter é o Heart Team: MR grave sintomática com risco cirúrgico alto/proibitivo, anatomia
adequada e expectativa de vida >1 ano com qualidade. A decisão não é só o número (STS-PROM, EuroSCORE II) —
fragilidade e futilidade pesam tanto quanto o escore.
Na FMR: GDMT otimizada primeiro
Quatro pilares da ICFEr na dose-alvo + ressincronização quando indicada. Reavaliar a MR após a otimização — parte
melhora e sai da indicação. O TEER é add-on à GDMT, não substituto.
TEER — reparo borda-a-borda
Acesso venoso femoral + punção transeptal; sob eco transesofágico 3D, um ou mais clipes aproximam os folhetos (A2–P2),
criando um orifício duplo (Alfieri percutâneo). Dois sistemas com evidência randomizada: MitraClip (Abbott) e
PASCAL (Edwards).
Anatomia favorável: patologia central (A2–P2), sem calcificação de folheto na zona de captura,
gap de coaptação e flail width/gap dentro dos limites, folhetos de comprimento suficiente, sem estenose mitral
associada.
O que o TEER entrega — e o que não entrega
Reduz a MR de forma durável (na maioria para ≤2+) e melhora sintomas. Porém frequentemente deixa MR residual,
e MR residual ≥2+ associa-se a pior prognóstico — ponto em que a substituição (TMVR) tem vantagem teórica.
MR secundária — a grande base de evidência
Ensaio
N
População
Resultado
COAPT
614
FMR 3–4+, IC sintomática, GDMT; FEVE 20–50%, DSVE ≤70 mm
Positivo — internação por IC 35,8% × 67,9%/paciente-ano (HR 0,53); morte 24 m 29,1% × 46,1% (HR 0,62). Sustentado em 5 anos.
MITRA-FR
304
FMR menos grave, VE mais dilatado
Neutro — sem diferença em morte/internação em 12 e 24 meses.
RESHAPE-HF2
~506
FMR moderada-a-grave/grave, não cirúrgica
Positivo — os três desfechos primários (internações + morte CV, total de internações, KCCQ).
MATTERHORN
210
FMR de alto risco cirúrgico (idade média 75 a)
TEER não inferior à cirurgia em 1 ano (16,7% × 22,5%), com melhor perfil de segurança.
O conceito que reconcilia COAPT × MITRA-FR
MR desproporcional × proporcional (Grayburn/Packer). No COAPT a MR era desproporcional ao tamanho
do VE (EROA alto, volumes relativamente menores) → a MR é o motor, e tratá-la ajuda. No MITRA-FR era
proporcional (EROA menor, VE muito dilatado) → a insuficiência ventricular domina. Selecionar o fenótipo
"COAPT-like" é o que torna o TEER eficaz na FMR.
MR primária de alto risco
EVEREST II (n=279): a cirurgia foi superior na redução da MR e na liberdade de reintervenção; o TEER foi
mais seguro, com mortalidade semelhante em 5 anos. Fixou o conceito: TEER reduz menos completamente, porém com
menor morbidade — daí seu papel no inoperável.
CLASP IID (JACC 2025): PASCAL não inferior ao MitraClip em DMR 3–4+ de risco proibitivo.
Em 2 anos, MR ≤2+ em 95,0% × 91,5%; sem diferença em qualidade de vida ou desfechos clínicos.
TMVR e dispositivos de reconstrução
Quando a anatomia é hostil ao TEER (calcificação anular importante, jato complexo, folheto curto) ou se busca eliminação
completa da MR.
SUMMIT-MAC / Tendyne (JACC 2025; n=103; calcificação anular mitral grave): sucesso técnico
94,2%; mortalidade em 30 dias 6,8%; liberdade de morte/internação por IC em 12 m 60,4%; NYHA I/II de 30,6%
→ 87,5%. Base da aprovação FDA do Tendyne em 2025.
SUMMIT (randomizado): primeiro RCT comparando TMVR (Tendyne) com TEER (MitraClip) em MR ≥3+, com desenho
de não inferioridade.
Contras da TMVR: acesso transapical ou transeptal; risco de obstrução de via de saída do VE
(LVOTO); necessidade de anticoagulação; mortalidade precoce maior que a do TEER. Seleção por TC cardíaca
(neo-LVOT, ancoragem) é decisiva.
Outros: Intrepid, Sapien M3, AltaValve (em investigação); anuloplastia direta (Cardioband) e indireta
(Carillon); reparo de cordas (NeoChord, Harpoon).
MR secundária grave, sintomática apesar de GDMT, critérios "COAPT-like"
TEER — IIa
TEER — IIa
Cirurgia mitral na FMR isolada
Selecionados (IIa–IIb)
Selecionados (IIb)
Base exigida na FMR
GDMT otimizada + TRC quando indicada, antes de intervir na válvula
Zona cinzenta — a prática já foi além das diretrizes
ESC/EACTS 2021, ACC/AHA 2020 e SBC 2020 são anteriores a RESHAPE-HF2, MATTERHORN e à aprovação do Tendyne.
MATTERHORN e RESHAPE-HF2 têm n moderado, poucos eventos e seguimento curto — sinalizam direção, não fecham a
questão. A TMVR ainda tem mortalidade precoce e risco de LVOTO que exigem seleção rigorosa por TC.
AHA — Scientific Statements (diagnóstico, terapia, cirurgia, profilaxia).
SBC — Diretriz / posicionamento sobre endocardite infecciosa.
Diagnóstico — Duke 2023
A grande novidade da ESC 2023 foi adotar os critérios Duke-ISCVID 2023, que modernizam a microbiologia e
incorporam a imagem multimodal e o achado cirúrgico.
Imagem como critério maior:PET/TC com ¹⁸F-FDG e TC cardíaca, além do
ecocardiograma.
Novo critério maior: inspeção intraoperatória com evidência direta de EI.
Resultado: maior sensibilidade (~84%) sem perda relevante de especificidade.
O ecocardiograma (ETT/ETE) segue como primeiro exame — o ETE é quase sempre necessário. O PET/TC é
especialmente valioso em prótese e dispositivos (CDI/MP), onde o eco é limitado. A TC cardíaca serve para
abscesso/pseudoaneurisma e planejamento cirúrgico. A SBC adota Duke na prática nacional, considerando as limitações de
acesso ao PET.
Endocarditis Team
A abordagem multidisciplinar deixou de ser recomendação genérica e virou estrutura formal: cardiologista,
cirurgião cardíaco, infectologista, microbiologista e — conforme o caso — neurologista e especialista em imagem.
Reduz mortalidade ao coordenar diagnóstico, momento cirúrgico e antibioticoterapia. A ESC recomenda referência
precoce a centros com Endocarditis Team em EI complicada, protética ou de dispositivo.
Profilaxia antibiótica
Quem é "alto risco" — e a Classe I da ESC 2023
Após anos de restrição, a ESC 2023 reforçou (Classe I) a profilaxia antes de procedimento dentário
invasivo em pacientes de alto risco: prótese valvar (inclui TAVI e reparo com material),
EI prévia, cardiopatia congênita cianótica não corrigida ou com defeito residual.
Também dá IIa à profilaxia peri-procedimento em TAVI e implante de dispositivos (cobrindo flora cutânea).
A AHA restringe do mesmo modo: amoxicilina 2 g VO (ou alternativa se alergia) 30–60 min antes, apenas no alto
risco com manipulação gengival/perfuração de mucosa. A SBC segue a mesma lógica.
Só nesses grupos há indicação — e apenas em procedimentos de alto risco. Higiene bucal é o pilar da prevenção
contínua; atenção crescente a acesso vascular e cateteres como fonte de EI por S. aureus.
Antibioticoterapia — OPAT e POET
A mudança paradigmática da ESC 2023: com base no ensaio POET, parte do tratamento pode migrar para
via oral e/ou ambulatorial em pacientes estáveis e selecionados.
Elegibilidade típica para transição
EI de câmaras esquerdas por estreptococo, E. faecalis, S. aureus ou estafilococo
coagulase-negativo, tratada IV por ≥10 dias (ou ≥7 dias pós-cirurgia), clinicamente estável, sem
abscesso nem disfunção valvar exigindo cirurgia, com ETE de controle antes da troca. Encurta a internação sem
perder eficácia. Duração total geralmente 2–6 semanas, conforme germe, válvula (nativa × prótese) e
complicações.
Indicações de cirurgia e timing
Três motores da cirurgia. O que muda entre as versões é sobretudo o timing.
Insuficiência cardíaca por regurgitação/obstrução valvar aguda grave → em geral urgente/emergente.
Infecção não controlada: abscesso, pseudoaneurisma, fístula, vegetação crescente, germe resistente.
Prevenção de embolia: vegetação grande (>10 mm) com evento embólico prévio, ou muito grande,
sob terapia adequada.
Timing (ESC 2023):emergência <24 h · urgente 3–5 dias · eletiva na mesma
internação. EI de prótese precoce (<6 meses): cirurgia com debridamento e troca. Decisão pelo Endocarditis Team.
Zona cinzenta — o momento cirúrgico no AVC embólico
A AHA individualiza o momento cirúrgico sobretudo em caso de embolia neurológica, pesando risco cirúrgico e
comorbidades. Não há prazo único e categórico — é a decisão mais dependente de julgamento clínico do capítulo.
AHA 2015 — Revision of the Jones Criteria. Circulation 2015. Estratifica por risco populacional.
WHF — critérios ecocardiográficos para doença cardíaca reumática.
SBC — Diretrizes Brasileiras para diagnóstico, tratamento e prevenção da febre reumática. Brasil = população de alto risco.
Conceito e a virada dos critérios de Jones
Doença autoimune pós-faringite por estreptococo do grupo A (reação cruzada). A revisão de 2015 separou populações de
baixo e de alto risco (como o Brasil) — e passou a aceitar o eco para cardite subclínica.
Regra diagnóstica: evidência de infecção estreptocócica prévia (ASLO, cultura/teste rápido) +
2 critérios maiores OU 1 maior + 2 menores. Em população de alto risco, os cortes dos critérios
menores são mais sensíveis.
Critérios maiores
Critérios menores
Cardite — incluindo subclínica pelo eco (novidade de 2015) Poliartrite — em alto risco, também monoartrite ou poliartralgia Coreia de Sydenham
Eritema marginado e nódulos subcutâneos (raros)
Febre; artralgia (em baixo risco)
PCR/VHS elevados
PR alargado no ECG Cortes ajustados por risco populacional
Cardite — a que deixa sequela
A valva que importa
A valvulite é o que importa a longo prazo: insuficiência mitral na fase aguda;
estenose mitral como sequela crônica, anos depois. A valva aórtica é a segunda. A coreia pode
surgir isolada e tardia — e ainda assim fecha diagnóstico. A artrite é migratória e não deixa sequela.
Tratamento e profilaxia
Surto agudo: penicilina benzatina (erradica o estreptococo) — dose única. Artrite/artralgia: AINE
(AAS/naproxeno). Cardite grave: corticoide; tratar a IC; casos extremos → cirurgia valvar. Coreia: repouso;
valproato/carbamazepina se incapacitante.
Profilaxia secundária:penicilina benzatina IM a cada 21 dias — base da prevenção de
recorrência. Duração conforme cardite: sem cardite ~5 anos ou até os 21 anos; com cardite/sequela, até
os 40 anos ou vitalícia.
Profilaxia primária: tratar a faringite estreptocócica previne o 1º surto. Prevenção de endocardite na
doença valvar reumática estabelecida conforme o risco (Capítulo 11).
Zona cinzenta
Doses, cortes por risco populacional e durações de profilaxia variam entre os documentos — o resumo original
adverte explicitamente que devem ser conferidos nas fontes antes de aplicar. O rastreio ecocardiográfico populacional em
áreas endêmicas (WHF) ainda não tem definição sobre custo-efetividade e conduta na "cardite limítrofe".
SBC 2020 — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias. Ensaios COMPASS-CABG e GALILEO.
A decisão em três perguntas
Precisa anticoagular? Existe indicação mandatória — prótese mecânica · FA · TEV/embolia prévia ·
trombo de VE · estenose mitral reumática.
Qual a prótese? Mecânica → varfarina sempre. Biológica / plastia / TAVI → é aqui que mora a
divergência EUA × Europa.
Tem DAC? Se sim → AAS vitalício (Classe I), sem controvérsia.
Cenário 1 — indicações que obrigam anticoagulação plena
Se qualquer uma existir, o paciente sai anticoagulado, independentemente do tipo de prótese ou reparo: prótese mecânica
(qualquer posição); fibrilação/flutter atrial (prévia ou nova no pós-op), guiada pelo CHA₂DS₂-VASc — a SBC
recomenda aplicar o escore exceto em EM reumática e prótese mecânica, que anticoagulam de qualquer forma; TEV,
trombo de VE, hipercoagulabilidade, embolia prévia; estenose mitral reumática.
Janela precoce
Se há FA nos primeiros 3 meses após bioprótese (cirúrgica ou transcateter), a varfarina é preferida ao
DOAC — os dados de DOAC nessa fase inicial ainda são escassos (posição ACC/AHA).
Cenário 2 — prótese mecânica
Varfarina sempre; nunca DOAC (RE-ALIGN interrompido por excesso de AVC e sangramento). Alvos ACC/AHA 2020:
Situação
Conduta
Alvo de INR
AVR mecânica bileaflet/disco atual, sem fatores de risco*
Varfarina
2,5
AVR mecânica com fator de risco* ou prótese antiga
Varfarina
3,0
AVR On-X sem fatores de risco (após 3 meses)
Varfarina + AAS 75–100 mg
1,5–2,0
Prótese mecânica mitral
Varfarina
3,0
*Fatores de risco: FA, disfunção de VE, tromboembolismo prévio,
estado de hipercoagulabilidade. O AAS é associado à varfarina apenas se houver indicação antiplaquetária concomitante
(DAC/aterosclerose) e baixo risco de sangramento.
Cenário 3 — bioprótese / plastia SEM indicação de anticoagulação
Fase inicial (3–6 meses) — convergência. ESC 2021: bioprótese aórtica sem indicação de base → AAS 75–100 mg
ou varfarina nos primeiros 3 meses (IIa). ACC/AHA 2020: bioprótese SAVR/mitral com baixo risco de sangramento →
varfarina com INR 2,5 por ≥3 e até 6 meses é razoável (IIa); alternativa: AAS 75–100 mg.
Divergência central — o longo prazo (após 3 meses)
ACC/AHA (escola americana):AAS vitalício é razoável na ausência de indicação de anticoagulação
(IIa) — o "AAS sempre". ESC/EACTS (escola europeia):sem antitrombótico se não houver outra indicação antiplaquetária
(DAC/aterosclerose). Nesse caso, mantém-se AAS/varfarina só nos 3 meses e depois suspende.
A própria literatura de consenso reconhece que há pouca evidência dura sobre o AAS vitalício após bioprótese —
a decisão acaba sendo institucional. A ESC 2025 manteve essa linha e apenas simplificou os esquemas.
Cenário 4 — DAC/CRM e TAVI
Pós-CRM ou DAC associada (Classe I):AAS vitalício (ACC/AHA/SCAI 2021), faixa
100–325 mg/dia. DAPT (AAS + P2Y12) por 12 meses só se SCA ou anatomia complexa — não na CRM eletiva
por doença estável.
TAVI:monoterapia com AAS é a preferida (ESC 2025). DAPT não é recomendada de
rotina para prevenir trombose pós-TAVI, salvo outra indicação.
A armadilha: AAS + rivaroxabana — dois regimes que não se misturam
A resposta depende inteiramente da DOSE
Rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia + AAS 100 mg — dupla via (regime COMPASS): indicação é
prevenção secundária de aterosclerose (DAC/DAP crônica) — não proteção da prótese nem do enxerto.
O COMPASS-CABG (1.448 pacientes randomizados 4–14 dias pós-CRM) mostrou que a combinação
não reduziu falência/oclusão do enxerto, mas reduziu MACE na mesma magnitude do COMPASS geral, com sangramento
baixo. Uso: coronariano de alto risco isquêmico + baixo risco de sangramento. Nunca associado a DAPT plena.
Rivaroxabana 10 mg 1×/dia + AAS — tromboprofilaxia de prótese pós-TAVI: Classe III (dano).
O GALILEO foi interrompido precocemente por mais óbito, mais tromboembolismo E mais sangramento versus
antiplaquetário. Contraindicado na ausência de outra indicação de anticoagulação (ACC/AHA 2020).
Testando a regra "AAS sempre"
Correto: "precisa anticoagular → deixa anticoagulante" — universalmente verdadeiro (mecânica, FA, TEV,
trombo de VE, EM reumática).
Correto pela escola americana: "não precisa anticoagular, sem DAC → AAS sempre" (IIa). É a linha mais usada
na prática brasileira.
Falso pela escola europeia: sem outra indicação antiplaquetária, mantém-se AAS/varfarina só nos primeiros
3 meses e depois suspende. AAS vitalício só se houver DAC/aterosclerose.
SBC 2025 — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618). Adotou o
CHA₂DS₂-VA; manteve o HAS-BLED; encurtou para 24 h a janela de cardioversão.
ESC 2024 — Management of Atrial Fibrillation (Eur Heart J. 2024;45:3314-3414). Criou o AF-CARE e o escore
CHA₂DS₂-VA; ablação 1ª linha na paroxística I A.
ACC/AHA/ACCP/HRS 2023 — Atrial Fibrillation (Circulation. 2024;149:e1-e156). Estadiamento em 4 estágios;
mantém o CHA₂DS₂-VASc.
FA = desorganização completa da atividade elétrica atrial — RR irregular, sem onda P definida, ondas f. Para ser
FA clínica, exige-se registro de ≥30 segundos. ESC e SBC mantêm a classificação temporal clássica
(paroxística ≤7 dias · persistente >7 dias · persistente de longa duração >12 meses · permanente, que é uma decisão de
não mais tentar o ritmo). A ACC/AHA 2023 acrescentou um estadiamento em 4 estágios:
Estágio 1 — em risco: ainda sem FA, mas com fatores de risco (HAS, obesidade, apneia, álcool, DM).
Estágio 3 — FA: 3A paroxística · 3B persistente · 3C persistente de longa duração · 3D pós-ablação
bem-sucedida.
Estágio 4 — permanente: abandonou-se o controle de ritmo.
O estágio 3D NÃO autoriza suspender o anticoagulante
A ablação trata o gatilho e o sintoma, mas não desfaz a miopatia atrial, e a monitorização convencional
subestima a recorrência assintomática. A ESC exige anticoagulação por ≥2 meses após a ablação em
todos, e depois disso a decisão volta a ser guiada pelo escore, não pelo ritmo. As três diretrizes concordam
nisso. (O ensaio OCEAN foi desenhado exatamente para essa pergunta.)
As três molduras — AF-CARE, SOS e a linha de cuidado brasileira
SBC 2025: sem acrônimo — equipe multidisciplinar, qualidade de vida, fatores de risco, antitrombótico e
controle de FC/ritmo.
A crítica ao AF-CARE
Colocar comorbidade como primeiro passo faz sentido para prevenir FA — não para o paciente que chega
com FA agora, em que a prioridade imediata é o AVC. Editorial do European Cardiology Review aponta que o ABC (ESC 2020) e o
SOS (ACC/AHA) refletem melhor a sequência real de decisões. O AF-CARE é uma boa moldura de cuidado longitudinal,
não um algoritmo de pronto-socorro.
Anticoagulação — a divergência do escore
Divergência central — o sexo saiu do escore?
ESC 2024 e SBC 2025: CHA₂DS₂-VA — o sexo feminino saiu como fator pontuável (virou
"modificador de risco"). C IC (1) · H HAS (1) · A₂ idade ≥75 (2) · D DM (1) · S₂ AVC/AIT prévio (2) · V doença vascular (1) ·
A idade 65–74 (1). 0 → não anticoagular · 1 → considerar (IIa) · ≥2 → anticoagular
(I). ACC/AHA 2023: mantém o CHA₂DS₂-VASc (sexo dentro) e aceita também ATRIA e GARFIELD-AF — o limiar real é
risco anual ≥2% (1). Onde a divergência morde: mulher de 66 anos sem comorbidade tem VASc = 2 (americana
anticoagula) e VA = 1 (europeia/brasileira apenas considera). O contraponto ao movimento europeu é que o
sexo feminino segue associado a AVC mais grave — "atenuação" do risco relativo não é abolição.
Divergência — escore de sangramento
ESC 2024: aposentou o escore estruturado. Avaliação individualizada dos fatores de sangramento
(I B) e proibição de usar escore para negar anticoagulação (III). SBC 2025 e ACC/AHA 2023:mantêm o HAS-BLED — SBC com o corte ≥3 = alto risco, deixando explícito
que alto risco NÃO contraindica anticoagular; serve para corrigir o modificável (PA, álcool, AINE, antiplaquetário
desnecessário, INR lábil). A SBC seguiu a ESC no escore de AVC, mas a ACC/AHA no escore de sangramento — é um documento
deliberadamente híbrido.
Qual anticoagulante — consenso das três:DOAC preferido à varfarina, exceto em prótese
valvar mecânica e estenose mitral reumática moderada a grave (varfarina, INR 2–3). Isso é o que restou da
antiga "FA valvar" — termo abandonado pelas três. Não associar antiplaquetário ao anticoagulante só para prevenir AVC
(III); na DAC crônica >1 ano, anticoagulante em monoterapia (ACC/AHA 1) — o ensaio
AQUATIC depois reforçou. Não reduzir a dose do DOAC fora dos critérios de bula (III) —
erro frequente e caro.
A recomendação europeia mais contraintuitiva — FRAIL-AF
Idoso frágil >75 anos, estável e dentro da faixa terapêutica com varfarina: a ESC 2024 recomenda NÃO
trocar por DOAC — no ensaio FRAIL-AF, a troca aumentou sangramento sem reduzir eventos.
SBC e ACC/AHA não trazem essa ressalva com o mesmo destaque. Regra prática: começando do zero, DOAC; idoso frágil já
bem em varfarina, não mexa.
Oclusão do apêndice atrial esquerdo
Divergência de grau
ACC/AHA 2023 (a mais permissiva): CHA₂DS₂-VASc ≥2 + contraindicação ao anticoagulante →
2a; risco moderado-alto de AVC + alto risco de sangramento em uso de OAC → 2b. ESC 2024: apenas IIb na contraindicação ao anticoagulante; oclusão cirúrgica como
adjuvante (nunca substituto) na cirurgia cardíaca — IIa (LAAOS III). SBC 2025: reserva à contraindicação por alto risco de sangramento — linha europeia. Nenhuma aprova a oclusão como 1ª linha em quem pode anticoagular — ver zona cinzenta do CHAMPION-AF, abaixo.
Controle de frequência × controle de ritmo
O EAST-AFNET 4 desfez o velho "tanto faz" do AFFIRM: em FA diagnosticada há ≤1 ano e com risco
cardiovascular, o controle precoce de ritmo reduziu morte CV, AVC e hospitalização. A ESC codificou isso como
implementar ritmo dentro de 12 meses do diagnóstico (IIa). Não se extrapola para o
octogenário assintomático em FA permanente há anos com átrio de 6 cm.
SBC 2025 — quem prioriza ritmo (a lista mais útil das três): <65 anos com remodelamento
atrial discreto/moderado · sintomáticos · IC · taquicardiomiopatia · FC de difícil
controle · alto risco tromboembólico. Só frequência basta no muito idoso ou no
assintomático com função ventricular normal.
Controle de FC: betabloqueador (qualquer FE) · digoxina — reabilitada pela ESC 2024 como opção de 1ª
linha (qualquer FE) · diltiazem/verapamil somente se FEVE >40%.
Cardioversão elétrica como teste diagnóstico na FA persistente, quando há dúvida sobre quanto o ritmo sinusal
melhora o sintoma ou a FEVE (ESC IIa) — subutilizada.
Divergência brasileira — a janela para cardioverter sem anticoagulação prévia
A SBC 2025 encurtou o corte clássico de 48 h para 24 h: só reverta o paciente estável se a FA tiver
<24 horas de início e baixo risco tromboembólico. Fora disso — 3 semanas de
anticoagulação efetiva antes, ou ETE sem trombo e reverte. 4 semanas de anticoagulação depois,
sempre. A ACC/AHA 2023 trabalha com a lógica tradicional das 48 h + baixo risco. No Brasil, o corte
que vale é 24 horas.
Ablação por cateter
ESC 2024 — FA paroxística, ablação como 1ª linha: subiu de IIa B para I A. O lastro são o
EARLY-AF e o STOP-AF First (criobalão × antiarrítmico como terapia inicial) — não o
CABANA.
ACC/AHA 2023: 1ª linha na paroxística sintomática 1 em selecionados — jovens, poucas
comorbidades; nos demais, 2a. Após falha/intolerância a antiarrítmico: 1.
SBC 2025: 1ª linha em jovem sem comorbidades e na FA + IC com FE reduzida;
indicada na falha/intolerância ao antiarrítmico.
FA + ICFEr: ablação recomendada nas três (CASTLE-AF; reforçado pelo
CASTLE-HTx).
FA persistente:não recebeu o mesmo I A — o isolamento de veias pulmonares rende menos e nenhuma
estratégia adicional (linhas, CFAE) provou benefício (STAR-AF II foi neutro).
O CABANA não provou que a ablação é melhor
Desfecho primário composto negativo na intenção de tratar; positivo apenas na análise as-treated (que não
é randomizada) e em qualidade de vida/recorrência. No subgrupo ≥75 anos chegou a sinalizar HR 1,39
(NS) contra a ablação. Citar o CABANA como base do "I A" da ESC é erro comum.
Antiarrítmicos — a pergunta que organiza tudo: há cardiopatia estrutural?
Coração estruturalmente normal:propafenona / flecainida (classe IC) — sempre com
bloqueador do nó AV associado, sob risco de organizar a FA em flutter 1:1.
DAC, hipertrofia importante, disfunção de VE:classe IC está CONTRAINDICADA (proarritmia — a
lição do CAST). Restam: amiodarona (a mais eficaz, a única segura na ICFEr, e a mais tóxica —
tireoide, pulmão, fígado, córnea); sotalol (vigiar QT e função renal); dronedarona
(contraindicada na IC descompensada/FEVE reduzida e na FA permanente — ANDROMEDA e PALLAS mostraram
aumento de mortalidade).
Ponto contraintuitivo (ESC e SBC concordam): a amiodarona é eficaz em todos, mas justamente pela toxicidade
extracardíaca outras opções devem ser tentadas antes quando o perfil permite. Ela é a droga
cardiologicamente segura — não "a droga segura".
Arsenal citado pela SBC 2025: propafenona, amiodarona e sotalol.
FA na pré-excitação (WPW) — o que NÃO fazer
Não usar bloqueadores do nó AV (adenosina, verapamil, diltiazem, digoxina, betabloqueador) — favorecem a condução
pela via acessória, com risco de degeneração em fibrilação ventricular. Instável →
cardioversão elétrica. Estável → procainamida (ou ibutilida). Definitivo: ablação da via
acessória.
Modificação de fatores de risco — agora com números
ESC 2024: perda de peso com meta de ≥10% do peso corporal (I) · álcool
≤3 doses padrão (≤30 g) por semana (I) · programa de exercício individualizado
(I), mantendo 150–300 min/sem moderado · iSGLT2 na IC + FA independentemente da
FEVE (I).
ACC/AHA 2023: emagrecer se IMC >27 · exercício 210 min/semana · cessar
tabagismo · minimizar/eliminar álcool · controle ótimo da PA · rastrear distúrbio respiratório do sono.
Apneia: tratar é apenas IIb na ESC (os RCTs de CPAP para reduzir FA decepcionaram), mas
rastrear só com questionário de sintomas é III — se suspeitar, faça o exame do sono, não o STOP-BANG isolado.
Leitura crítica — antiarrítmico × ablação no idoso
Coorte retrospectiva (D'Angelo et al., Heart Rhythm 2026; Optum Clinformatics, 2016–2022; n=13.311) de pacientes
≥65 anos com FA após falha a 1 antiarrítmico, comparando trocar de fármaco (n=7.230) × ablação por cateter
(n=6.081), com IPTW.
Desfecho
HR (IC 95%)
Recorrência atrial
0,76 (0,65–0,89)
Significativo
Cardioversão elétrica
0,74 (0,60–0,91)
Significativo
Internação por IC
0,63 (0,45–0,90)
Significativo
AVC isquêmico
0,45 (0,28–0,72)
Significativo
Morte (todas as causas)
0,76 (0,48–1,20)
NS
Internação por IAM
1,01 (0,47–2,14)
NS
Segurança: ablação — 5,9% de complicação em 30 dias (AVC isquêmico 1,3%; SCA 1,1%; sangramento
1,1%; tamponamento/perfuração 0,7%; fístula atrioesofágica 0,07%). Antiarrítmicos — 45,4% de algum evento adverso
em 1 ano (proarritmia atrial 12,2%; bradicardia 12,2%; IC 9,1%; injúria renal 7,1%; disfunção tireoidiana 6,3%).
Pontos de atenção — por que não mudar de conduta com base nisso
Dados administrativos: risco de má-classificação por códigos; a recorrência de FA pode ser subcaptada.
Confundimento residual: sem FE, função diastólica, fragilidade ou status funcional nos claims.
Janelas assimétricas: complicação da ablação medida em 30 dias × evento adverso do fármaco em 12 meses —
a comparação não é 1:1.
Discordância com RCTs: metanálise de ensaios randomizados não mostrou benefício em ≥65 anos
(HR 0,93; NS); o CABANA em ≥75 anos até sinalizou risco (HR 1,39; NS).
Financiamento: estudo financiado pela J&J (fabricante de tecnologia de ablação); três autores são
funcionários com participação acionária.
Generalização: amostra de Medicare Advantage + comercial.
Numa análise de sensibilidade com ablação de 1ª linha (n=41.845), apareceu benefício de mortalidade
(HR 0,49) — possível paralelo ao EAST-AFNET 4 —, mas a recorrência não diferiu (HR 0,90; NS).
Conclusão: nenhuma diretriz indica ablação pela idade. O que decide é sintoma, fragilidade, tamanho
atrial e chance real de manter o ritmo sinusal. Coorte observacional bem feita não vira classe de recomendação.
Outras zonas cinzentas
FA subclínica / AHRE detectada por dispositivo — anticoagular?
Dois ensaios randomizados dedicados. NOAH-AFNET 6 (edoxabana × nada, AHRE ≥6 min) foi interrompido
precocemente por excesso de sangramento com tendência à futilidade. ARTESiA (apixabana × AAS) mostrou
redução pequena de AVC com aumento de sangramento maior. A metanálise dos dois quantifica o dilema:
≈32% de redução relativa de AVC e ≈62% de aumento relativo de sangramento maior.
A ACC/AHA 2023 é a única que dá cortes operacionais: AHRE ≥24 h + CHA₂DS₂-VASc ≥2 →
anticoagular é razoável (2a); AHRE de 5 min a 24 h + VASc ≥3 → pode ser razoável
(2b); AHRE <5 min sem outra indicação → não anticoagular (3).
A ESC 2024 trata o tema em seção própria e recusa-se a equiparar FA subclínica à FA clínica. O eixo
é duração do episódio × risco basal — e o benefício líquido é pequeno em qualquer cenário. É conversa, não
automatismo.
FA pós-operatória e o muito idoso com risco de queda
POAF: a ACC/AHA manda seguimento ambulatorial da FA descoberta em cirurgia ou doença aguda —
"alto risco de recorrência" —, mas admite que, na FA da sepse/doença crítica, o benefício da anticoagulação é
incerto. Faltam ensaios randomizados; as classes são fracas. O que é seguro: POAF não é benigna e o
paciente precisa ser reavaliado semanas depois, não esquecido.
Risco de queda: o argumento "ele cai, não posso anticoagular" é quantitativamente falso — a estimativa clássica
é de que seriam necessárias ~295 quedas por ano para que o hematoma subdural superasse o benefício de evitar o AVC.
Nenhuma das três diretrizes aceita queda como contraindicação. O que é genuinamente cinzento: demência avançada com
expectativa curta (é discussão de objetivos de cuidado, não de escore); o idoso frágil estável em varfarina (FRAIL-AF: não
troque); e a hemorragia intracraniana prévia — a SBC 2025 dedicou seção a isso, e o ENRICH-AF
levantou sinal de segurança em hemorragia lobar. Aqui não há resposta de diretriz: há decisão compartilhada.
CHAMPION-AF — a diretriz ainda não acompanhou o ensaio
Nenhuma diretriz vigente aprova a oclusão de apêndice em quem pode anticoagular. Mas o CHAMPION-AF (NEJM,
março de 2026) randomizou justamente candidatos elegíveis a DOAC para Watchman FLX × DOAC e, em 3 anos, foi
não inferior em eficácia (5,7% × 4,8%) e superior em sangramento não procedural, com benefício
clínico líquido a favor do dispositivo (15,1% × 21,8%; p<0,001). As três diretrizes são anteriores a esse dado.
Em 2026, um paciente com FA, risco embólico alto e sangramento recorrente já tem base de ensaio randomizado para discutir
oclusão — mas não tem cobertura de diretriz. Diga isso a ele com essas palavras.
Arritmias Ventriculares, Bradiarritmias e Estimulação Cardíaca
Diretrizes de referência
ESC — Arritmias ventriculares e morte súbita 2022 · Estimulação cardíaca e TRC 2021 · SVT 2019.
ACC/AHA/HRS — Arritmias ventriculares 2017 · Bradicardia e distúrbios de condução 2018.
SBC — Diretriz de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis (DCEI) 2023.
Taquicardias supraventriculares
TRN (reentrada nodal) e TRAV (via acessória): manobra vagal → adenosina → cardioversão se instável.
Tratamento definitivo: ablação por cateter (alta taxa de cura).
Flutter atrial típico: ablação do istmo cavotricuspídeo é muito eficaz.
WPW com FA:não usar bloqueadores nodais (adenosina, verapamil, digoxina) — risco de condução
rápida e FV.
Arritmias ventriculares e CDI
Prevenção primária: ICFEr com FE ≤35%, CF II–III, sob terapia otimizada ≥3 meses — isquêmica
(≥40 dias pós-IAM) ou não isquêmica. Na não isquêmica o benefício é mais modesto (DANISH) — individualizar;
a RM com realce tardio ajuda.
Prevenção secundária: sobrevivente de FV/TV sem causa reversível → CDI.
Canalopatias e cardiomiopatias genéticas: risco estratificado por marcadores específicos (Capítulo 20).
TV — tratamento agudo: instável → cardioversão/desfibrilação; estável → antiarrítmico (amiodarona,
procainamida). Ablação de TV na tempestade elétrica e na TV recorrente com cicatriz. Corrigir isquemia e
distúrbios eletrolíticos.
Critérios completos de CDI, TRC e transplante estão no Capítulo 7.
Bradicardia e marcapasso
Disfunção do nó sinusal sintomática; BAV de 2º grau Mobitz II; BAVT → marcapasso.
Correlacionar sintoma com bradiarritmia antes de implantar — é a regra mais violada da eletrofisiologia
clínica.
Ressincronização e estimulação fisiológica
TRC: ICFEr com FE ≤35% + BRE + QRS largo (benefício maior se ≥150 ms), CF II–IV, ritmo sinusal,
sob terapia otimizada. Menor benefício sem BRE ou com QRS mais estreito.
Novidade — estimulação do sistema de condução
Estimulação do feixe de His e da área do ramo esquerdo (LBBAP) — ativação mais fisiológica,
alternativa à TRC e à estimulação de VD em casos selecionados.
Zona cinzenta
A estimulação do sistema de condução ainda está em incorporação — escores, cortes de FE/QRS e as indicações
exatas de dispositivo devem ser conferidos nos documentos originais. A divergência formal mais relevante segue sendo
CDI no não isquêmico (ESC IIa × ACC/AHA I) — ver Capítulo 7.
SBC 2022 — Diretriz de Miocardites. Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143-211 (Montera et al.). Atualiza a I Diretriz de 2013.
ESC 2025 — Myocarditis and Pericarditis (integrada). Eur Heart J. 2025;46(40):3952-4041. 1ª diretriz formal; conceito IMPS.
ACC 2024 — Expert Consensus Decision Pathway. JACC, dez/2024. Estadiamento A→D; via de 5 passos.
O que é cada documento
A diferença começa no escopo: a SBC atualiza um documento nacional consolidado; a ESC cria pela primeira vez uma
diretriz formal (antes só havia consensos) e integra miocardite + pericardite; o ACC publica um caminho de
decisão, não uma diretriz de classes de recomendação. A SBC é o único documento que dá peso próprio à
miocardite chagásica.
Conceito novo — IMPS (ESC 2025)
Miocárdio e pericárdio são um continuum anatômico, e a inflamação raramente respeita a fronteira entre eles.
IMPS (síndrome miopericárdica inflamatória) é o termo usado durante a investigação inicial, até se
chegar ao diagnóstico final de miocardite, pericardite ou miopericardite. Janelas temporais: agudo ≤1 mês · subagudo ·
crônico >3 meses.
Definição e classificação histológica
Base histológica/imuno-histoquímica consensual (critérios de Dallas + imuno-histoquímica).
Critério imuno-histoquímico (SBC 2022): infiltrado inflamatório anormal = ≥14 leucócitos/mm²
(incluindo até 4 monócitos/mm²) + linfócitos T CD3⁺ ≥7/mm², com necrose/degeneração de cardiomiócitos de origem
não isquêmica.
Classificação pelo infiltrado (comum às três): linfocítica (a mais comum no adulto, mediana ~42
anos) · eosinofílica · polimórfica · células gigantes · sarcoidose cardíaca. Etiologias:
infecciosas (virais em 1º lugar), autoimunes/imunomediadas e tóxicas (álcool, cocaína, antraciclinas, inibidores de
checkpoint).
Estratificação — onde as três divergem conceitualmente
SBC — suspeita clínica
ESC — grupos de risco
ACC — estágios (como IC)
Baixa — sem gravidade, FE preservada, sem arritmia → só acompanhamento. Intermediária — FE preservada ou disfunção em melhora → cardioproteção. Alta — disfunção/instabilidade → investigação e tratamento intensivos.
Baixo/intermediário → conduta ambulatorial com reavaliação em 1 semana. Alto risco → internação imediata.
Tudo sob o guarda-chuva IMPS até o diagnóstico definitivo.
A — fatores de risco, sem doença. B — evidência de miocardite sem sintomas. C — sintomático. D — sintomático com instabilidade hemodinâmica ou elétrica.
Investigação diagnóstica
Convergência forte: RM cardíaca como pilar não invasivo e biópsia endomiocárdica (BEM) como
padrão-ouro, reservada e dirigida.
SBC 2022: RMC pelos critérios de Lake Louise — sensibilidade 67% / especificidade 91%.
Classe I: troponina elevada + coronárias normais; miocardiopatia dilatada com suspeita >6 meses. Classe IIa: reavaliar
RMC em ≤4 semanas no risco intermediário/alto.
ESC 2025: RMC no início e repetir em 6 meses. Sorologia viral NÃO é rotina —
só HCV, HIV e Lyme. BEM reservada a formas graves/choque/refratárias, em centro de referência; valoriza PCR viral
no tecido. Teste genético se história familiar de cardiomiopatia/morte súbita, pericardite recorrente ou achados
sugestivos.
ACC 2024: hs-cTn útil e prognóstica, mas valor normal não exclui. FDG-PET em casos
selecionados (sarcoidose). BEM dirigida à etiologia (células gigantes) ou para excluir mimetizadores.
Aconselhamento + teste genético para todos, quando possível.
Pegadinha
Troponina, ECG e ecocardiograma normais não afastam miocardite quando a suspeita clínica é alta — os três
documentos reforçam isso. O ECG clássico tem supra de ST côncavo, difuso, sem imagem em espelho, transitório e
reversível (≠ isquemia).
Tratamento
SBC: suspeita baixa sem disfunção → sem medicação, só seguimento. Intermediária →
betabloqueador + IECA/BRA por ≥12 meses (cardioproteção). FE reduzida → tratar como ICFEr. Linfocítica com
pesquisa viral negativa → imunossupressão por 6 meses pode beneficiar.
ESC: IC pela diretriz de IC; arritmia → considerar betabloqueador. Corticoide com indicação e dose
especificadas; 2ª/3ª linha imunossupressora. Colete desfibrilador (~6 meses) nas arritmias ameaçadoras,
reavaliando CDI depois.
ACC: AINE/colchicina para dor pericárdica — evitar na IC sintomática. Seguimento longitudinal
com imagem.
Imunossupressão — a regra comum às três
Indicada nas miocardites autoimunes/imunomediadas comprovadas por biópsia: células gigantes,
eosinofílica e sarcoidose cardíaca. Na linfocítica viral-negativa, SBC e ESC admitem
benefício. Nunca imunossuprimir com PCR viral positivo ativo sem essa ressalva.
Retorno à atividade física — a maior divergência
Documento
Abstenção
Reavaliação antes do retorno
SBC 2022
~6 meses de afastamento de esporte competitivo/esforço intenso
Eco, RMC, Holter, marcadores
ACC 2024
3–6 meses sem exercício extenuante (estágio C/D)
RMC/eco, ECG de 24 h, teste de esforço
ESC 2025
Repouso absoluto encurtado para ~1 mês
Holter, eco, marcadores inflamatórios/de dano, teste de esforço
Divergência — a ESC é a mais liberal
A ESC 2025 encurtou o repouso absoluto para ~1 mês, enquanto SBC e ACC mantêm a postura clássica de 3–6 meses.
Em todas, o retorno é condicionado à reavaliação, não ao calendário puro.
Formas específicas
Células gigantes: curso agressivo — BAV + arritmias ventriculares + IC refratária. BEM confirma.
Imunossupressão precoce e avaliação para suporte circulatório/transplante. Alta mortalidade sem tratamento.
Sarcoidose cardíaca: suspeitar em BAV em jovem ou TV inexplicada. FDG-PET e RMC no
diagnóstico; corticoide + imunossupressor; frequente indicação de CDI.
Eosinofílica: hipersensibilidade, parasitoses, síndrome hipereosinofílica. Buscar causa + corticoide.
Pode cursar com trombo mural.
Fulminante: instabilidade hemodinâmica aguda. Suporte circulatório precoce (ECMO/Impella) —
a sobrevida na fase aguda costuma trazer boa recuperação de FE.
Por inibidor de checkpoint:alta letalidade. Suspender o fármaco + corticoide em dose alta;
imunossupressão adicional se refratário (ver Capítulo 28).
Chagásica (ênfase SBC): causa relevante de miocardite aguda no Brasil, sobretudo em surtos de
transmissão oral. Sorologia/parasitemia + benznidazol na fase aguda. Diferencial obrigatório no nosso meio.
Dor torácica pleurítica que melhora sentado e inclinado para frente;
Atrito pericárdico;
Supra de ST difuso côncavo e/ou infra de PR;
Derrame pericárdico novo ou em piora.
Marcadores: PCR/VHS elevados; troponina se miopericardite.
Tratamento — a colchicina é o que previne recorrência
AINE em dose plena (AAS se pós-IAM) + colchicina por 3 meses — reduz a recorrência
pela metade. Corticoide só em 2ª linha (contraindicação a AINE, autoimune) e em
dose baixa: dose alta favorece a cronificação. Restrição de exercício até a normalização de
sintomas e marcadores.
Pericardite recorrente — a grande novidade
ESC 2025 — bloqueadores de IL-1
Recorrência dependente de corticoide ou refratária à colchicina → anakinra ou
rilonacepte (bloqueio de IL-1) mudam o curso (ensaios RHAPSODY). Considerar também azatioprina e
IVIG como poupadores de corticoide. O objetivo é sair do corticoide, que perpetua o ciclo.
Tamponamento e derrame
A urgência do pericárdio. É diagnóstico clínico + eco — não esperar exame para tratar o instável.
Tríade de Beck: hipotensão + turgência jugular + bulhas abafadas.
Pulso paradoxal (queda >10 mmHg da PAS na inspiração).
Eco: colapso de câmaras direitas, variação respiratória dos fluxos, VCI pletórica.
Tratamento: pericardiocentese (guiada por eco). Não dar diurético nem vasodilatador.
Quando drenar: tamponamento; suspeita de causa bacteriana ou neoplásica; derrame grande sintomático.
Derrame crônico grande e estável → considerar drenagem se >3 semanas.
Etiologia no Brasil
Tuberculose é causa importante de derrame/pericardite (e de constrição) no nosso meio. Investigar também
neoplasia, uremia, autoimune, viral e pós-IAM (Dressler).
Pericardite constritiva
A "grande imitadora" da IC direita. Pericárdio rígido → enchimento restrito. Sinais: knock pericárdico,
sinal de Kussmaul, VCI dilatada. Eco: interdependência ventricular (septo em bounce,
variação respiratória dos fluxos mitral/tricúspide).
Diferencial-chave — constritiva × restritiva
Constritiva = pericárdio (interdependência ventricular, Kussmaul, knock) → tratamento definitivo é a
pericardiectomia. Restritiva = miocárdio (ex.: amiloidose — Capítulo 18). Formas
transitórias/inflamatórias da constrição podem responder a anti-inflamatório — distinguir a constrição
"definitiva" da transitória é a zona cinzenta prática.
SBC 2021 — Posicionamento sobre Diagnóstico e Tratamento da Amiloidose Cardíaca. Arq Bras Cardiol. 2021;117(3):561-598 (Simões et al.).
ESC 2021 — Position statement do WG on Myocardial & Pericardial Diseases. Eur Heart J. 2021;42(16):1554-1568 (Garcia-Pavia et al.). + ESC 2023 (cardiomiopatias).
Cardiomiopatia infiltrativa por depósito extracelular de fibrilas amiloides no interstício miocárdico → rigidez
ventricular, disfunção diastólica e fenótipo de cardiomiopatia restritiva com ICFEp que evolui para FE reduzida
nas fases avançadas. Marca fisiopatológica: espessamento parietal por infiltração (não por hipertrofia de
miócitos) → discrepância clássica paredes grossas ao eco com baixa voltagem ao ECG.
AL × ATTR
Mais de 95–98% dos casos cardíacos são AL ou ATTR. Diferenciá-los é obrigatório — tratamento e prognóstico
são radicalmente distintos.
AL (cadeia leve)
ATTR (transtirretina)
Proteína
Cadeia leve de imunoglobulina (discrasia plasmocitária)
Transtirretina (produzida no fígado)
Subtipos
Associada a mieloma / MGUS
ATTRwt (wild-type) e ATTRv (variante/hereditária)
Perfil
Qualquer idade; sistêmica agressiva
ATTRwt: homens >70 anos. ATTRv: depende da mutação (V122I/Val142Ile em afrodescendentes; Val30Met neuropático)
Velocidade
Rápida — "emergência cardiológica"
Mais indolente
Extracardíaco
Rim (síndrome nefrótica), macroglossia, púrpura periorbital, neuropatia
Túnel do carpo bilateral, estenose de canal lombar, ruptura do bíceps, neuropatia (ATTRv)
Cintilografia
Habitualmente negativa/baixa captação
Positiva (Perugini 2–3)
Tratamento
Quimioterapia (dara-CyBorD)
Estabilizadores / silenciadores de TTR
Red flags
Cardíacos: ICFEp com espessamento de VE sem hipertensão que o justifique; baixa voltagem no ECG apesar
de paredes grossas; padrão de pseudoinfarto (ondas Q em precordiais sem coronariopatia); estenose aórtica
de baixo fluxo/baixo gradiente no idoso; distúrbios de condução, FA; intolerância a IECA/BRA e
betabloqueador (hipotensão). Extracardíacos:túnel do carpo bilateral (precede anos), estenose de canal lombar, ruptura
espontânea do tendão do bíceps, polineuropatia/disautonomia. Na AL: macroglossia, púrpura periorbital, proteinúria.
Armadilha — a baixa voltagem não é sensível
A SBC registra que <40% dos ATTR confirmados por biópsia têm baixa voltagem no ECG. Portanto, um ECG normal
ou com sobrecarga de VE não afasta amiloidose. O sinal de maior valor é a desproporção entre voltagem e
espessura miocárdica.
Imagem
Eco: espessamento biventricular, aspecto miocárdico granular/"sparkling", aumento biatrial, espessamento do
septo interatrial e das valvas, derrame pericárdico. Strain com apical sparing (bull's-eye em "cereja
no topo") — sensível e relativamente específico, mas não patognomônico.
RMC: realce tardio subendocárdico difuso → transmural; cinética anômala do gadolínio; T1 nativo
elevado e VEC aumentado (carga amiloide e prognóstico).
O algoritmo diagnóstico — consenso entre as três
Suspeita — red flags + imagem sugestiva. Dosar troponina e NT-proBNP.
Rastreio de proteína monoclonal — SEMPRE primeiro. Os três exames juntos:
imunofixação sérica + imunofixação urinária + cadeias leves livres séricas (κ/λ).
Eletroforese isolada não basta.
Cintilografia com traçador ósseo (PYP/DPD/HMDP) → grau de Perugini.
Cruzamento decisório.
Perugini 0–1
Perugini 2–3
Monoclonal negativo
ATTR improvável (RM/biópsia se a suspeita persistir)
ATTR-CM confirmada sem biópsia → teste genético TTR
Monoclonal positivo
Biópsia + espectrometria de massa
Biópsia obrigatória — não assumir ATTR
A regra de ouro — e o erro clássico
Só se dispensa a biópsia no quadrante monoclonal negativo + Perugini 2–3 (especificidade ~100% na ausência de
gamopatia). Qualquer proteína monoclonal presente reabre a necessidade de biópsia com tipagem — porque a causa
mais comum de "falso ATTR" é uma AL não excluída. A AL também pode captar. Escala de Perugini: 0 = sem captação · 1 = captação < óssea (duvidoso) · 2 = captação ≈ óssea ·
3 = captação > óssea com atenuação do sinal ósseo. Relação coração/hemitórax contralateral ≥1,5 reforça positividade.
Sempre confirmar com SPECT para garantir que a captação é miocárdica (evita falso-positivo por pool
cavitário).
Divergência — o gatilho de rastreio
ESC 2021: gatilho objetivo — espessura de parede do VE ≥12 mm + ao menos 1 red flag.
SBC e ACC: gatilho clínico-radiológico (red flags + imagem). O algoritmo em si é praticamente sobreponível
entre as três (lógica de Gillmore).
Tratamento modificador — ATTR
Terapia
SBC 2021 / ESC 2021
ACC 2023
ACC 2025
Estabilizador de TTR
Tafamidis (ATTR-ACT) — único com desfecho; diflunisal off-label mencionado
Tafamidis consolidado; agentes emergentes citados
Tafamidis + acoramidis (ATTRibute-CM)
Silenciador de TTR
Patisiran/inotersen — na época aprovados só para polineuropatia, não para cardiomiopatia
Em investigação para o fenótipo cardíaco
Vutrisiran (HELIOS-B) aprovado para ATTR-CM — exige suplementação de vitamina A; eplontersen em fase III
A divergência aqui é cronológica — e como usá-la
Se a questão citar SBC ou ESC (2021), a resposta terapêutica esperada para ATTR-CM é tafamidis.
Se citar a ACC atualizada ou "cenário 2024–2025", entram acoramidis e vutrisiran.
Silenciadores para polineuropatia ≠ silenciadores para cardiomiopatia — a aprovação cardíaca do vutrisiran é
recente (2025). Ponto fino de evidência: metanálises mostram que a classe dos estabilizadores reduziu
significativamente mortalidade e hospitalização; a evidência de redução de mortalidade dos silenciadores na doença
cardíaca ainda é menos robusta. Todas as drogas freiam, não revertem — daí a ênfase unânime no
diagnóstico precoce e no início em NYHA I–II.
AL — consenso nas três: tratamento hematológico (esquemas com bortezomibe; dara-CyBorD),
transplante autólogo em elegíveis. O cardiologista maneja a IC e articula o cuidado; a resposta hematológica precoce é
o que protege o coração.
Manejo de suporte — o que evitar
O coração amiloide é dependente de pré-carga e de frequência
Isso inverte várias condutas habituais da IC. Pilar:diurético de alça (± antagonista mineralocorticoide) para a congestão.
Anticoagular na FA com baixo limiar — alto risco tromboembólico (trombo atrial mesmo sem FA sustentada),
independentemente do CHA₂DS₂-VASc. Evitar:betabloqueadores (débito dependente de FC — mal tolerados); IECA/BRA
(hipotensão, sobretudo com disautonomia); digoxina (liga-se às fibrilas → toxicidade);
verapamil/diltiazem (mesma lógica de ligação e bradicardia).
Prognóstico: NT-proBNP e troponina são os pilares dos escores (Mayo na AL; na ATTR o estadiamento combina
NT-proBNP com função renal/TFG). RMC (VEC, T1) e grau de realce tardio agregam informação. Marcapasso nos
distúrbios de condução; transplante cardíaco em casos selecionados.
SBC 2024 — Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e202400415 (Fernandes, Simões et al.). 1ª diretriz nacional dedicada.
Hipertrofia miocárdica que aumenta a espessura das paredes sem dilatação ventricular nas fases iniciais, na ausência de
outra doença capaz de justificá-la.
Espessura diastólica ≥15 mm em qualquer segmento (adultos) — consenso entre as três.
≥13 mm em familiar de caso confirmado ou com teste genético positivo.
Pediatria: indexar à superfície corporal (z-score >2).
Terminologia atual
CMH "com ou sem obstrução" da via de saída — abandona-se a divisão rígida obstrutiva/não obstrutiva, pois a
obstrução é dinâmica e pode surgir ao longo do tempo. Prevalência 1:500 pelo fenótipo (até 1:200 incluindo
genótipo+); ~400 mil afetados no Brasil. Herança autossômica dominante, sarcomérica. É a cardiopatia genética mais
prevalente e a principal causa de morte súbita em jovens e atletas.
Fisiopatologia e limiares de gradiente
Seis mecanismos: obstrução dinâmica (hipertrofia septal + movimento sistólico anterior — MSA da mitral;
presente/provocável em ~75%), isquemia (microvascular, sem aterosclerose), arritmias (fibrose como substrato), insuficiência
mitral secundária ao MSA, disfunção diastólica e disfunção autonômica.
Os números — consenso entre as três
Pico no TSVE ≥30 mmHg (repouso ou provocado) = CMH obstrutiva.
≥50 mmHg = obstrução significativa → considerar terapia de redução septal se sintomas refratários.
Manobras provocativas se o gradiente em repouso for <30 mmHg: Valsalva, ortostase, nitrito de amilo,
exercício.
Exames
ECG (alterado em 90%): pseudoinfarto (ondas Q ínfero-laterais); ondas T negativas gigantes
laterais → marcador de CMH apical; BRE é incomum e sugere intervenção septal prévia.
Eco (I·B, método inicial): manobras provocativas se gradiente <50; strain/GLS; função diastólica;
aneurisma apical (aumenta o risco de morte súbita). Reavaliar a cada 1–2 anos mesmo sem mudança clínica.
RMC: realce tardio (fibrose) = pior prognóstico — ≥15% da massa dobra o risco de morte
súbita. Diagnóstico diferencial de fenocópias; mapa T1.
TC: coronárias e ramos septais (planejamento de alcoolização). BNP/NT-proBNP e troponina são
prognósticos, não diagnósticos — e não predizem morte súbita nem implante de CDI.
Genética e fenocópias
Doença do sarcômero; diagnóstico molecular em 45–60% dos casos (NGS). MYH7 + MYBPC3 ≈ 70% das
variantes patogênicas. SARC+: mais jovem, mais fibrose, mais história familiar/MS, menos obstrução em repouso.
SARC−: comorbidades (HAS/obesidade), septo sigmoide, mais obstrução.
Genótipo+ / Fenótipo−: prognóstico benigno; conversão ~0,3%/ano no adulto. Seguimento a cada 1–2 anos
(crianças) e 3–5 anos (adultos). CDI ou fármaco profilático NÃO indicados (III); sem restrição a esporte se não
houver história familiar de morte súbita.
Fenocópias — padrões de realce tardio na RMC
CMH sarcomérica: mesocárdico e juncional. Amiloidose: subendocárdico circunferencial.
Doença de Fabry: subepicárdico ínfero-lateral basal + mapa T1 nativo baixo (único entre as HVE);
PR curto por condução AV acelerada; ligada ao X; terapia específica disponível.
CMH hipertensiva: ausente ou mínimo. Pré-excitação (PR curto + onda delta) → suspeitar de Danon e PRKAG2 (também Pompe).
PRKAG2: HVE simétrica maciça >30 mm sem obstrução.
Tratamento medicamentoso
Fármaco
Indicação
Classe · Nível (SBC 2024)
Betabloqueadores
1ª linha sintomática — obstrutiva e não obstrutiva
I B
BCC não di-hidropiridínicos (verapamil/diltiazem)
Intolerância/ineficácia do betabloqueador
I B
Mavacamteno
Obstrutiva, FEVE ≥55%, gradiente ≥50, CF II–III refratária a BB/BCC em dose máxima
IIa B
BRA
Melhora de capacidade física e controle de HAS
IIb B
Evitar vasodilatadores
Especialmente na forma obstrutiva
IIa C
Inibidores da miosina cardíaca:mavacamteno — EXPLORER-HCM (fase 3, 251 pacientes):
melhora de VO₂ pico + classe NYHA em 37% × 17% com placebo; resolveu o MSA em 80,9%.
VALOR-HCM: reduziu a elegibilidade para redução septal (18% × 77%). Aprovado pela ANVISA em jan/2023.
Aficanteno (2ª geração): REDWOOD-HCM fase 2 positivo, SEQUOIA-HCM fase 3 — sem recomendação formal na
diretriz brasileira ainda.
Disopiramida: eficaz na obstrução, mas não disponível no Brasil. Digoxina: evitar
(o inotropismo positivo piora a obstrução).
Terapias de redução septal
Para CMH obstrutiva com gradiente ≥50 mmHg (repouso ou provocado) e CF III–IV refratária ao
tratamento otimizado (~5–10% dos pacientes). Decisão em Heart Team experiente — consenso entre as três.
Favorece miectomia: valvopatia com indicação cirúrgica; septo >30 mm; coronariopatia
multiarterial; obstrução médio-apical; artéria septal de pequeno calibre; jovem; BRE.
Resultados: abole o gradiente em ~90%; sobrevida ≈ população geral; marcapasso por BAVT ~5%.
Favorece alcoolização (ASA): gradiente <100 mmHg; septo <30 mm; alto risco cirúrgico; idosos.
Resultados: mortalidade <1% em centros experientes; marcapasso definitivo ~10% (× 5% na miectomia);
monitorização por eco-contraste obrigatória.
Contraindicações (Classe III·C): redução septal em assintomático com capacidade normal ao
exercício; substituição valvar mitral isolada para aliviar a via de saída.
Morte súbita e seleção do CDI — a principal divergência
Fatores de risco maiores (SBC 2024): PCR/TV sustentada/FV prévia · síncope inexplicada · morte súbita em
parente ≤50 anos · HVE ≥28 mm · FE <50% · aneurisma apical · realce tardio
≥15% · TVNS no Holter (múltipla ≥3, >10 batimentos, FC ≥200).
Indicação: TV sustentada/FV/MS revertida → Classe I (prevenção secundária). Com ≥1 fator de risco
maior: <40 anos → IIa (fortemente considerado); 40–60 anos → IIa com decisão compartilhada;
>60 anos → IIb. Sem fator de risco, sem TVNS e sem RT ≥15% → CDI não indicado (Classe III).
Divergência — calculadora × marcadores de risco
ESC 2023: centrada na calculadora HCM Risk-SCD (risco em 5 anos: <4% baixo · 4–6%
intermediário · ≥6% alto) como passo inicial — mais específica, menos implantes. A calculadora
não inclui FE<50%, aneurisma apical nem realce tardio. AHA/ACC 2024: abordagem por marcadores de risco individuais (inclui RT ≥15%, aneurisma apical,
FE<50%) — mais sensível, mais implantes. SBC 2024 faz a ponte: adota a lógica de fatores de risco estratificada por idade e mantém a HCM Risk-SCD como
ferramenta complementar (IIa·B).
Na comparação direta: HCM Risk-SCD tem sensibilidade 33% / especificidade 92% × abordagem por fatores de risco
sensibilidade 95% / especificidade 78%.
FA e anticoagulação
Consenso entre as três — e uma exceção às regras habituais
Após o 1º episódio de FA → anticoagulação vitalícia, independentemente do CHA₂DS₂-VASc (I·B) —
porque CHADS₂ e CHA₂DS₂-VASc têm desempenho ruim na CMH. DOAC de 1ª linha; varfarina de 2ª.
Antiplaquetário não protege (III·B). Aneurisma apical: anticoagular independentemente do tamanho
(I·B).
Preferir controle de ritmo (a perda da contração atrial é mal tolerada): amiodarona, sotalol; propafenona só se
houver CDI. Evitar digoxina. Ablação por cateter IIa·B — recidiva maior que sem cardiopatia.
Situações especiais
Exercício: estratificar risco antes de liberar (I·C); reabilitação estruturada melhora capacidade funcional
no baixo risco (I·B). Não recomendada alta/moderada intensidade se houver síncope ao esforço, TV ou MS
abortada (III).
IC avançada/transplante: 2–3% dos casos; a IC responde por 2/3 dos óbitos. O fenótipo restritivo com FE
preservada também é candidato. Suspender inotrópicos negativos.
Cirurgia não cardíaca: risco ~3× de IAM/óbito; manter o betabloqueador (I·C); evitar jejum
prolongado e hipovolemia.
Gravidez: estratificar pela OMS-modificada (I·C). BB cardiosseletivos e verapamil são seguros;
cardioversão sem contraindicação; parto vaginal na classe I/II-OMSm.
SBC — Posicionamentos sobre cardiomiopatias. Ensaios EXPLORER-HCM e VALOR-HCM.
A lógica: fenótipo → gene → família
A ESC 2023 organizou todas as cardiomiopatias num só documento, pelo fenótipo. O pilar comum: identificar a
variante no probando e fazer o rastreio em cascata nos parentes de 1º grau.
Regra do teste genético
Testar o probando quando isso muda diagnóstico, prognóstico ou manejo. Teste em cascata dos familiares
de 1º grau APENAS se uma variante patogênica for encontrada no probando. Testar toda criança que preencha critério
de CMH (ESC 2023 e AHA/ACC 2024).
Fenótipos (ESC 2023): CMH (hipertrófica) · CMD (dilatada) · DAVD/CAVD (arritmogênica) · CMR (restritiva) ·
NDLVC — cardiomiopatia de VE não dilatada (nova entidade: disfunção/fibrose de VE sem dilatação, muitas vezes
genética e arritmogênica).
Cardiomiopatia hipertrófica
Diagnóstico por hipertrofia inexplicada: ≥15 mm (ou ≥13 mm com história familiar/genética).
Sarcômero: MYBPC3 e MYH7 são os mais comuns. Excluir fenocópias: Fabry, amiloidose, Danon.
Marcadores de risco de morte súbita: MS familiar, síncope inexplicada, hipertrofia maciça ≥30 mm, aneurisma apical, realce
tardio extenso, TVNS, FE <50%.
Tratamento: obstrutiva sintomática → betabloqueador / verapamil / disopiramida. Mavacamteno
(inibidor de miosina) antes da terapia invasiva quando a 1ª linha falha (EXPLORER/VALOR-HCM). Refratário →
miectomia septal ou ablação alcoólica. Detalhamento completo no Capítulo 19.
Divergência — a estratificação de morte súbita
ESC usa a calculadora HCM Risk-SCD; AHA/ACC usa o conjunto de marcadores. É a
divergência que atravessa toda a cardiopatia genética (ver Capítulo 19).
Dilatada, NDLVC e a genética arritmogênica
CMD / NDLVC: genes TTN (titina — o mais comum), LMNA (lamina),
RBM20, DSP, FLNC.
Genes que baixam o limiar de CDI:LMNA e os desmossômicos (DSP, FLNC) — alto
risco arrítmico, com limiar mais baixo para CDI mesmo com FE menos reduzida.
DAVD (arritmogênica): genes desmossômicos (PKP2, DSG2, DSP); critérios da Task Force (ECG,
imagem, arritmia, história). O exercício acelera a doença → restrição de esporte competitivo/intenso. É a
cardiomiopatia em que o exercício é vilão.
Canalopatias: QT longo (KCNQ1, KCNH2, SCN5A), Brugada (SCN5A), TVPC (RYR2), QT curto. Coração
estruturalmente normal; risco de morte súbita por arritmia. Betabloqueador, evitar gatilhos, CDI conforme risco.
Zona cinzenta
Genes, cortes e critérios de CDI nas cardiomiopatias genéticas não têm base de evidência randomizada —
derivam de coortes e de consenso. A entidade NDLVC é nova (ESC 2023) e ainda não tem correspondente formal nos
documentos americano e brasileiro.
SBC 2023 — Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento de Pacientes com Cardiomiopatia da Doença de Chagas. Arq Bras Cardiol. 2023;120(6):e20230269 (Marin-Neto, Rassi Jr et al.).
OPAS/WHO — Guidelines for the diagnosis and treatment of Chagas disease.
AHA 2018 — Chagas Cardiomyopathy (Scientific Statement). Circulation 2018.
Fases e formas clínicas
Aguda: parasitemia patente; sinal de Romaña/chagoma; miocardite aguda rara mas grave. Transmissão
vetorial, transfusional, congênita e oral (surtos por alimentos).
Crônica indeterminada: sorologia positiva, ECG/RX/eco normais, sem sintomas — a maioria dos
infectados.
Crônica determinada: forma cardíaca, digestiva (megaesôfago/megacólon) ou mista.
A assinatura eletrocardiográfica
Bloqueio de ramo direito (BRD) + bloqueio divisional anterossuperior (BDAS) — consenso nas três fontes.
O ECG anormal define a transição da forma indeterminada para a cardíaca.
Manifestações da forma cardíaca
Arritmias: distúrbios de condução (BRD+BDAS, BAV avançado), disfunção sinusal; TV/FV —
causa importante de morte súbita, frequentemente por reentrada na fibrose ínfero-lateral; FA em fases avançadas.
Aneurisma apical de VE ("lesão em dedo de luva") — quase patognomônico; fonte de trombo mural
e tromboembolismo sistêmico. Fibrose regional detectável na RM (realce tardio).
Insuficiência cardíaca: ICFEr tipicamente biventricular e de pior prognóstico que
outras etiologias. Tratamento com os pilares da IC (Capítulo 5). Transplante em fase avançada.
Por que a Chagas mata mais
Combinação perigosa: a morte súbita arrítmica pode ocorrer mesmo com função ventricular ainda preservada, e a
IC chagásica tem pior prognóstico que a isquêmica/idiopática. Por isso a estratificação de risco e a decisão sobre
dispositivos são centrais.
Estratificação — escore de Rassi
Seis variáveis: NYHA III/IV = 5 · cardiomegalia no RX = 5 · alteração segmentar/global de VE ao eco = 3 ·
TVNS no Holter = 3 · baixa voltagem do QRS = 2 · sexo masculino = 2. Risco: baixo 0–6 · intermediário 7–11 · alto 12–20. Mortalidade em 10 anos: ~10% (baixo),
~44% (intermediário), ~84% (alto).
A SBC 2023 recomenda estratificar com Rassi + Holter + imagem, e usa a RM com realce tardio para carga de
fibrose e risco arrítmico. A AHA 2018 endossa o Rassi. A OPAS/WHO foca em acesso ao diagnóstico e encaminhamento oportuno.
Tratamento etiológico
Benznidazol — e o que o BENEFIT mostrou
Indicação clara: fase aguda, congênita, reativação (imunossupressão), crianças e adultos jovens na forma
crônica recente/indeterminada. Alternativa: nifurtimox. Na cardiopatia crônica avançada, o ensaio BENEFIT mostrou redução da parasitemia sem reduzir
a progressão clínica — decisão individualizada. Vigiar efeitos adversos (dermatite, neuropatia, leucopenia).
Dispositivos e anticoagulação
Marcapasso: BAV avançado/sintomático e disfunção sinusal — indicações usuais de bradiarritmia.
CDI — prevenção secundária (parada/TV sustentada): consensual.
Prevenção primária: considerar em alto risco (FE reduzida, TVNS, síncope, alto Rassi) — evidência menos
robusta que na isquêmica (ver o ensaio CHAGASICS, Capítulo 7).
Anticoagulação: além do CHA₂DS₂-VASc, existe escore específico de risco de AVC da Chagas.
Anticoagular na presença de trombo apical, FA, aneurisma com risco embólico ou evento prévio.
Cuidado com a amiodarona
É muito usada para controle de arritmia ventricular na Chagas — mas o CHAGASICS avaliou justamente CDI ×
amiodarona na prevenção primária. A decisão sobre dispositivo deve pesar risco arrítmico, FE, escore de Rassi e
disponibilidade — não apenas a supressão de ectopia.
ESC 2024 — Peripheral Arterial and Aortic Diseases. Eur Heart J. 2024;45(36):3538-3700. Junta aorta + arterial; nova classificação TEM.
ACC/AHA 2022 — Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation 2022. Conceito de "Aortic Team".
SBC — Posicionamentos sobre doenças da aorta, alinhados às diretrizes internacionais.
Aneurisma da aorta torácica — quando operar
A tendência recente é baixar o limiar em centros experientes e individualizar pelo corpo e pela genética, não
só pelo diâmetro absoluto.
Limiares de cirurgia (raiz/ascendente)
≥5,5 cm em geral.
≥5,0 cm em centro com Aortic Team experiente, ou com fatores de risco — crescimento rápido,
válvula bicúspide de alto risco, história familiar de dissecção, baixa estatura.
≥4,5 cm se houver cirurgia valvar concomitante, ou em aortopatia hereditária
(Marfan, Loeys-Dietz).
Usar também índices (diâmetro/altura, área/altura).
Aneurisma abdominal (AAA): reparar se ≥5,5 cm em homens, ~5,0 cm em mulheres,
ou crescimento rápido/sintomático. EVAR × cirurgia aberta pela anatomia e risco. Rastreio por ultrassom em
homens ≥65 anos tabagistas.
Aortopatias hereditárias (HTAD):Marfan (FBN1), Loeys-Dietz (TGFBR/SMAD),
EDS vascular (COL3A1) — limiar de cirurgia mais baixo, rastrear familiares de 1º grau,
betabloqueador/BRA para controle.
Válvula bicúspide: frequente aortopatia associada (dilatação da ascendente) — vigiar e operar em conjunto
conforme o diâmetro (ver também Capítulo 30).
Síndromes aórticas agudas
Dissecção, hematoma intramural e úlcera penetrante. Exame de escolha: angiotomografia (rápida, disponível).
Suspeitar: dor torácica/dorsal súbita, dilacerante; assimetria de pulsos/PA; sopro de insuficiência aórtica novo;
alargamento do mediastino.
A regra que salva vida
Tipo A (envolve a ascendente) → cirurgia de emergência (risco altíssimo de ruptura/tamponamento). Tipo B (só descendente): não complicado → tratamento clínico agressivo (controle de PA e FC com
betabloqueador) + vigilância; complicado (malperfusão, ruptura iminente, dor/HAS refratárias) →
TEVAR (endovascular).
Nova classificação TEM (ESC 2024)
Tipo de síndrome · Entry (localização da porta de entrada) · Malperfusão.
Agrega prognóstico e decisão terapêutica além do clássico A/B.
Tratamento clínico e vigilância
Controle rigoroso da PA (alvo baixo); betabloqueador (reduz o dP/dt) e BRA (especialmente no
Marfan); cessação do tabagismo; estatina. Vigilância por imagem (TC/RM/US) em intervalos conforme diâmetro e
etiologia. Aconselhamento sobre esforço isométrico intenso e sobre gestação nas aortopatias.
Zona cinzenta
Os limiares de diâmetro são o ponto mais variável entre os documentos, e a decisão de operar a 5,0 cm depende
explicitamente da experiência do centro — um critério que não é numérico. A classificação TEM ainda não foi
incorporada pela ACC/AHA.
ESC/ERS 2022 — Pulmonary Hypertension. Eur Heart J 2022. Nova definição (mPAP >20) e 4 estratos de risco.
SBC — Diretriz Brasileira de Hipertensão Pulmonar, alinhada à ESC/ERS. Esquistossomose como causa do grupo 1.
AHA/ACC / CHEST — statements e consensos; sem diretriz formal dedicada.
A nova definição hemodinâmica (2022)
Os cortes que mudaram
HP: mPAP >20 mmHg (antes ≥25). Pré-capilar: PAOP (capilar) ≤15 mmHg + RVP >2 unidades Wood. Pós-capilar (do coração esquerdo): PAOP >15 mmHg.
O cateterismo cardíaco direito segue sendo o padrão-ouro para confirmar e classificar.
Os cinco grupos
Grupo 1 — HAP: idiopática, hereditária, tóxica, associada (esclerodermia, HIV, cardiopatia congênita,
esquistossomose no Brasil).
Grupo 2 — coração esquerdo:a causa mais comum (ICFEr/ICFEp, valvopatia). Pós-capilar.
Grupo 3 — pulmonar/hipóxia: DPOC, fibrose, apneia, altitude.
Grupo 4 — HPTEC (tromboembólica crônica): o único potencialmente curável — endarterectomia
pulmonar.
Grupo 5: mecanismos multifatoriais/não claros (hematológicas, sarcoidose, metabólicas).
Regra de ouro
Não tratar grupo 2 nem grupo 3 com drogas de HAP — pode piorar. Tratar a doença de base.
Encaminhar HAP e HPTEC a centro de referência.
Tratamento da HAP (grupo 1)
Guiado por risco: a diretriz de 2022 adotou 4 estratos no seguimento (baixo, intermediário-baixo,
intermediário-alto, alto).
Terapia inicial:combinação dupla na maioria — inibidor de PDE5 (sildenafila/tadalafila) +
antagonista do receptor de endotelina (ambrisentana/macitentana).
Alto risco → acrescentar análogo/agonista da prostaciclina (epoprostenol IV, treprostinila,
selexipague).
As vias: óxido nítrico–GMPc (iPDE5 e riociguat — usado na HPTEC inoperável); endotelina;
prostaciclina.
Teste de vasorreatividade → poucos respondedores usam bloqueador de cálcio em alta dose.
Novidade — sotatercepte (4ª via)
O sotatercepte (modula a sinalização de activina) abre uma quarta via. No ensaio
STELLAR, melhorou capacidade funcional e desfechos na HAP. Aprovado recentemente; tende a entrar
nas próximas atualizações — ainda não plenamente codificado nas diretrizes vigentes.
AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN 2026 — 1ª diretriz americana multissociedade dedicada à TEP aguda. Circulation 2026;153:e977-e1051.
ESC 2019 — TEP. Eur Heart J 2020;41:543. Sem atualização posterior — ainda vigente.
CHEST 2021 (2ª atualização) · ASH 2020 (TVP/TEP no adulto).
O que a diretriz de 2026 mudou
Sai "maciço/submaciço", entram as categorias A–E
A linguagem maciço/submaciço/baixo risco era grosseira demais: "submaciço" abrangia desde o paciente hipoxêmico
deteriorando até o que só tinha troponina discretamente elevada e se sentia bem — condutas radicalmente diferentes no mesmo
rótulo. Entram cinco categorias clínicas A→E por gravidade crescente, com subtiers e um modificador
respiratório "R". Atribui-se sempre pela pior variável clínica, laboratorial ou de imagem — e o paciente
pode migrar de categoria ao longo do tempo.
Escopo — cuidado
A diretriz de 2026 cobre só TEP aguda. TVP isolada, profilaxia primária e doença tromboembólica crônica ficam
de fora — para esses pontos, usar CHEST 2021 / ASH 2020 / ESC 2019.
Categorias A–E
Cat.
Definição
Conduta
A
Assintomático — TEP incidental; hemodinâmica e biomarcadores normais
Alta do PS · anticoagulação ambulatorial
B
Sintomático, escore baixo (PESI ≤85 · sPESI 0 · Bova ≤4), sem disfunção cardiopulmonar
Alta precoce / tratamento domiciliar (critérios Hestia)
C
Escore elevado (PESI >85 / sPESI ≥1 / Bova >4), com ou sem elevação de biomarcador ou disfunção de VD. Sem instabilidade hemodinâmica.
Internar · terapia avançada de benefício INCERTO aqui
D
Falência cardiopulmonar incipiente (pré-choque): PAS ainda preservada, porém com hipoperfusão — lactato >2, IRA, diurese <0,5 mL/kg/h, alteração do sensório, índice cardíaco <2,2, PAM <60
UTI · terapia avançada PODE ser considerada (trombectomia mecânica 2b)
E
E1 = hipotensão persistente/recorrente com choque cardiogênico (SCAI C). E2 = choque refratário (SCAI D–E) ou PCR sem RCE após 30 min
Reperfusão · terapia avançada RAZOÁVEL em E1 (trombectomia 2a)
R
Modificador respiratório — some-se a qualquer subcategoria com hipóxia/taquipneia/necessidade crescente de O₂ (>6 L/min em cateter nasal ou máscara não reinalante). Ex.: C3R, D2R
—
A pegadinha central
Disfunção de VD isolada, sem comprometimento hemodinâmico (Categoria C), NÃO justifica escalada reflexa para
cateter ou cirurgia. Terapia avançada é razoável em E1 e considerável em D1–2 — não no
C.
Tradução: 2026 (EUA) × ESC 2019
AHA/ACC 2026
Equivalente ESC 2019
Termo antigo
Local de tratamento
A / B
Baixo risco (sPESI 0, sem disfunção de VD)
Baixo risco
Alta precoce / domiciliar
C
Intermediário-baixo e intermediário-alto
Submaciço
Internação / monitorização
D
Intermediário-alto deteriorando (pré-choque)
Submaciço "alto"
UTI
E
Alto risco (instabilidade hemodinâmica)
Maciço
Reperfusão / UTI
ESC 2019 — alto risco (instabilidade hemodinâmica), qualquer um: parada cardíaca com necessidade de RCP;
choque obstrutivo (PAS <90 mmHg ou vasopressor + hipoperfusão de órgão-alvo); hipotensão persistente (PAS <90 mmHg ou
queda ≥40 mmHg por >15 min) não explicada por arritmia, hipovolemia ou sepse → reperfusão imediata (Classe I).
sPESI — 1 ponto para cada: idade >80 anos · câncer · doença cardiopulmonar crônica · FC ≥110 bpm ·
PAS <100 mmHg · SatO₂ <90% (0 = baixo risco).
Anticoagulação
Consenso entre 2026, CHEST 2021 e ASH 2020: DOAC > varfarina na maioria; quando se precisa de parenteral,
HBPM > HNF (menos sangramento, menos TIH). A HNF fica para instabilidade, reperfusão iminente ou insuficiência
renal grave.
A regra da "fase de ataque"
Início oral direto (sem heparina antes):apixabana 10 mg 2×/dia por 7 dias → 5 mg 2×/dia ·
rivaroxabana 15 mg 2×/dia por 21 dias → 20 mg 1×/dia (com alimento). Exigem 5–10 dias de heparina parenteral antes:dabigatrana → 150 mg 2×/dia ·
edoxabana → 60 mg 1×/dia (30 mg se ClCr 15–50 ou peso ≤60 kg).
Só apixabana e rivaroxabana têm esquema de dose alta inicial que dispensa a ponte.
Quando o DOAC NÃO é a 1ª escolha
Cenário
Escolha
Por quê
Gestação
HBPM
DOAC e varfarina contraindicados (varfarina teratogênica; DOAC cruza a placenta). Reforçado na 2026.
SAAF triplo-positivo
Varfarina (INR 2–3)
TRAPS: rivaroxabana com mais eventos trombóticos.
Prótese valvar mecânica
Varfarina
RE-ALIGN: dabigatrana com mais trombose e sangramento. Todo DOAC contraindicado.
Câncer ativo
DOAC ou HBPM
Apixabana, edoxabana, rivaroxabana ou HBPM. Em tumor GI/urotelial preferir apixabana ou HBPM (menos sangramento). Manter enquanto o câncer estiver ativo.
IRC grave / diálise
Cautela
Apixabana com cautela, ou HNF/varfarina. Evitar dabigatrana (depuração renal).
Reperfusão e terapias avançadas
A diretriz de 2026 aloca as terapias avançadas por categoria e reforça o PERT (time multidisciplinar de resposta
à TEP). Arsenal: trombólise sistêmica, trombólise dirigida por cateter (CDT), trombectomia mecânica e embolectomia
cirúrgica.
PEITHO — não trombolizar o intermediário-alto de rotina
No intermediário-alto (≈ C/D), a trombólise sistêmica reduziu descompensação, mas às custas de excesso de sangramento
maior e AVC. Reserve para resgate na deterioração — não como conduta automática.
Contraindicações absolutas à trombólise sistêmica: AVC hemorrágico prévio (qualquer momento); AVC isquêmico
<6 meses; neoplasia ou lesão estrutural do SNC; TCE ou trauma maior / cirurgia de grande porte <3 semanas; sangramento
ativo; diátese hemorrágica conhecida.
Duração — provocado × não provocado
Provocado por fator transitório maior (cirurgia de grande porte, trauma, imobilização prolongada com
resolução do fator) → 3 meses e suspende.
Não provocado ou fator de risco persistente (câncer, IC, obesidade, doença inflamatória, trombofilia, SAAF)
→ anticoagulação estendida, sem data de parada — reavaliar risco/benefício anualmente.
Fase estendida: DOAC em dose reduzida — apixabana 2,5 mg 2×/dia ou rivaroxabana 10 mg 1×/dia.
Se o paciente decidir parar, o AAS reduz recorrência (recomendação fraca), mas é claramente inferior ao DOAC de
baixa dose.
TVP: distal, filtro de VCI e meias
TVP distal isolada (panturrilha), sem sintomas graves nem fatores de risco de extensão → USG seriado
por ~2 semanas é alternativa à anticoagulação. TVP proximal → sempre anticoagular.
Filtro de VCI:não é rotina (Classe III). Reservado a contraindicação absoluta à anticoagulação
ou TEP recorrente apesar de anticoagulação plena. Retirar assim que possível.
Meias de compressão não previnem síndrome pós-trombótica — o CHEST sugere contra o uso rotineiro com esse
fim. Podem aliviar sintomas, mas não reduzem SPT nem recorrência.
SBC 2020 — Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol 2021. HAS ≥140/90.
ESC 2024 — Elevated Blood Pressure and Hypertension. Eur Heart J. 2024;45(38):3912. Nova categoria "pressão elevada".
ACC/AHA 2017 — High Blood Pressure in Adults. Hypertension/JACC 2018. Limiar 130/80.
Classificação — o ponto de maior divergência
A divergência central
ACC/AHA 2017 diagnostica hipertensão a partir de 130/80 (elevada 120–129/<80; estágio 1
130–139/80–89; estágio 2 ≥140/90). ESC e SBC mantêm o rótulo de hipertensão em ≥140/90 — mas a ESC 2024 abandonou "pré-hipertensão"
e criou a categoria "pressão elevada" (PAS 120–139 ou PAD 70–89), tratada conforme o risco CV
(SCORE2, lesão de órgão-alvo). A Europa se aproxima do espírito americano sem adotar o limiar de 130. SBC 2020: ótima <120/80 · normal 120–129/80–84 · pré-HAS 130–139/85–89 · estágio 1 140–159/90–99 ·
estágio 2 160–179/100–109 · estágio 3 ≥180/110.
Diagnóstico — MAPA e MRPA
Convergência forte: a medida fora do consultório deixou de ser complemento e virou peça central — confirma o
diagnóstico e desmascara a hipertensão do jaleco branco e a hipertensão mascarada.
Cortes fora do consultório (aproximados)
MAPA vigília ≥135/85 · MAPA 24 h ≥130/80 · MAPA sono ≥120/70 ·
MRPA/domiciliar ≥135/85 mmHg.
Alvos de tratamento
O alvo mais agressivo da década
ESC 2024: alvo de PAS 120–129 mmHg na maioria dos tratados, se bem tolerado —
não mais "<140 e depois considerar mais baixo", mas a meta de partida. Exige
confirmação por MAPA/MRPA e ausência de intolerância. Alvo mais leniente em ≥85 anos, fragilidade
moderada-grave, hipotensão ortostática, expectativa de vida limitada. ACC/AHA 2017: alvo geral <130/80 para a maioria. Tratar com fármaco se risco ASCVD ≥10% e
PA ≥130/80, ou PA ≥140/90 independentemente do risco. SBC 2020:<140/90 no baixo/moderado risco; <130/80 no alto risco. PAS ideal
120–129 e PAD 70–79 quando bem tolerado. Cautela com PAD muito baixa em coronariopatas (curva J).
Tratamento farmacológico
Consenso amplo: começar já com combinação, de preferência em comprimido único (single-pill), para
melhorar controle e adesão. A monoterapia ficou restrita a poucos cenários.
Passo 1: IECA ou BRA + antagonista de cálcio ou diurético tiazídico — idealmente em comprimido
único.
SBC: cinco classes de 1ª linha (tiazídicos, BCC, IECA, BRA — betabloqueador em indicação específica);
monoterapia só em estágio 1 de baixo risco/idoso frágil; não associar IECA + BRA.
ESC 2024: betabloqueador quando há indicação específica (pós-IAM, IC, FA, angina).
ACC/AHA: iniciar com 2 fármacos se a PA estiver ≥20/10 mmHg acima do alvo.
Hipertensão resistente
PA não controlada apesar de 3 fármacos otimizados (incluindo diurético), ou controle exigindo ≥4 fármacos. Antes de
rotular, excluir pseudorresistência.
Confirmar com MAPA/MRPA (excluir jaleco branco) e verificar adesão e técnica.
Rever fármacos que elevam a PA (AINE, corticoide, descongestionante) e o excesso de sal.
Rastrear causas secundárias — hiperaldosteronismo (relação aldosterona/renina), apneia do
sono (Capítulo 27), estenose de artéria renal.
Otimizar: adicionar espironolactona — 4º fármaco de escolha nas três (PATHWAY-2).
A denervação renal é opção adjuvante em casos selecionados.
ACC/AHA 2018 — Management of Blood Cholesterol (multissociedade). Circulation 2019.
SBC — Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose.
Estratificação de risco
O primeiro passo antes de qualquer meta — porque o LDL alvo é consequência direta da categoria.
SBC: baixo, intermediário, alto e muito alto risco. Estratificação pelo ER Global
(Framingham) + reclassificadores (síndrome metabólica, hipercolesterolemia familiar, escore de cálcio). DAC estabelecida,
DM com lesão de órgão-alvo e DRC = muito alto risco.
ESC 2021: adotou o SCORE2 / SCORE2-OP — inclui eventos fatais e não fatais, por região
de risco.
ACC/AHA 2018: calculadora Pooled Cohort (ASCVD 10 anos) + risk-enhancers.
"Muito alto risco" = múltiplos eventos ASCVD, ou 1 evento + múltiplas condições de alto risco.
O reclassificador que mais ganhou espaço
Escore de cálcio coronariano (CAC): um CAC = 0 permite adiar a estatina no risco intermediário
(exceto DM, tabagista, história familiar forte), enquanto um CAC alto reclassifica para cima. É a ponte entre
"risco calculado" e "aterosclerose real".
Metas de LDL — o coração da divergência
Categoria
SBC
ESC
ACC/AHA 2018
Muito alto risco
<50 mg/dL (não-HDL <80)
<55 mg/dL e ↓≥50% do basal
Sem meta — limiar ≥70 mg/dL para adicionar não-estatina
Alto risco
<70
<70 e ↓≥50%
Estatina de alta intensidade (↓≥50%)
Intermediário/moderado
<100
<100
—
Baixo
<130
<116
—
2º evento vascular <2 anos sob estatina máxima
Considerar <40 mg/dL
—
Duas lógicas incompatíveis
ESC/SBC: metas numéricas — "lower is better", sem limiar inferior de segurança demonstrado; meta
e redução percentual, ambas exigidas no muito alto risco. ACC/AHA: foco na intensidade da estatina e em limiares de ação, não em metas
numéricas formais.
A escada terapêutica
Estatina de alta potência na dose máxima tolerada (atorvastatina 40–80 / rosuvastatina 20–40).
+ Ezetimiba (↓LDL ~15–20%).
+ iPCSK9 (evolocumabe/alirocumabe, ↓LDL ~60%) ou inclisirana (siRNA, 2×/ano).
Ácido bempedoico — reduziu eventos no CLEAR Outcomes e é chave no intolerante à
estatina.
Ácido bempedoico — por que importa
Inibidor da ATP-citrato liase, pró-fármaco de ativação hepática — não causa mialgia por não se ativar no
músculo. Entrou no update focado ESC 2025. A ACC/AHA aplica os limiares: ezetimiba se LDL ≥70 no muito
alto risco; iPCSK9 se ainda ≥70; aferir aderência e resposta em 4–12 semanas.
Lipoproteína(a)
Marcador causal, genético — e sem terapia de desfecho
Dosar ao menos uma vez na vida em todo adulto (ESC), para identificar elevação hereditária. Valores muito altos
(>180 mg/dL ou >430 nmol/L) conferem risco vital comparável à hipercolesterolemia familiar.
Não há terapia aprovada que reduza a Lp(a) com desfecho — a conduta é otimizar todos os demais fatores de
risco (LDL, PA, tabagismo). Antisenso/siRNA anti-Lp(a) em fase 3. Fator de risco independente também para
estenose aórtica.
Triglicérides e outros pontos
Ômega-3 (etil icosapente) 4 g/dia pode ser considerado se TG >135 mg/dL em uso de estatina (SBC 2025 — SCC).
Fibratos NÃO reduzem risco CV se TG >200 mg/dL em uso de estatina (SBC). Fibrato fica para a
hipertrigliceridemia grave (risco de pancreatite).
iSGLT2 / GLP-1 RA no DM com risco ou doença CV estabelecida (ESC 2021).
Rastreamento de hipercolesterolemia familiar (critérios clínicos + genético) — ênfase da SBC.
Zona cinzenta — acesso
A SBC chama atenção explícita para acesso e custo dos iPCSK9 na realidade nacional. Um paciente com LDL de
60 mg/dL merece iPCSK9? Pela meta brasileira (<50), sim; pelo limiar americano (70), não. É a mesma zona cinzenta do
Capítulo 1.
AHA 2021 — Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease (Scientific Statement). Circulation 2021.
ESC — a apneia é abordada dentro das diretrizes de HAS, FA (AF-CARE) e IC.
SBC / Medicina do Sono — posicionamentos sobre apneia obstrutiva e doença cardiovascular.
Ensaios: SAVE · SERVE-HF.
Obstrutiva × central
Apneia obstrutiva (AOS): a via aérea colaba apesar do esforço respiratório — ronco, sonolência,
obesidade, pescoço largo.
Apneia central (ACS):ausência de esforço respiratório; na IC aparece como
respiração de Cheyne-Stokes (crescendo-decrescendo com apneias).
Gravidade pelo IAH (índice de apneia-hipopneia): leve 5–15 · moderada 15–30 · grave >30.
Por que o cardiologista se importa
HAS resistente — a AOS é a causa secundária mais comum. Fibrilação atrial — a AOS
não tratada aumenta a recorrência após cardioversão/ablação. Também: insuficiência cardíaca (AOS e ACS), doença coronariana,
AVC, hipertensão pulmonar e arritmias/morte súbita noturna. Mecanismos: hipóxia intermitente, surtos adrenérgicos, oscilação
de pressão intratorácica, inflamação.
Diagnóstico e rastreio
Questionários: STOP-BANG; Epworth (sonolência). Rastrear ativamente em HAS resistente, FA e IC.Confirmação: polissonografia (padrão-ouro) ou poligrafia domiciliar em casos selecionados — define IAH,
dessaturação e o tipo (obstrutiva × central).
Tratamento — e a nuance do CPAP
O que o CPAP faz — e o que não faz
O CPAP é o tratamento de escolha da AOS sintomática: melhora sonolência, qualidade de vida e reduz
modestamente a PA (útil na HAS resistente). Porém o ensaio SAVE mostrou que o CPAP
não reduziu eventos CV maiores em prevenção — em parte por baixa adesão. Trate os sintomas e a PA, mas não prometa redução de infarto/AVC só com CPAP.
Armadilha — apneia central na ICFEr
Na ICFEr com apneia central predominante, a servoventilação adaptativa (ASV) foi associada a
aumento de mortalidade (ensaio SERVE-HF) — está contraindicada nesse cenário.
Otimizar a IC costuma melhorar a apneia central.
Medidas gerais:perda de peso, tratamento posicional, evitar álcool e sedativos, aparelhos
intraorais na AOS leve-moderada.
ESC 2022 — Cardio-oncology (com EHA/ESTRO/IC-OS). Eur Heart J. 2022;43(41):4229. 1ª diretriz ESC do tema; risco HFA-ICOS; definição de CTRCD.
SBC — Diretriz / Posicionamento Brasileiro de Cardio-oncologia. Arq Bras Cardiol.
ACC/AHA — documentos de consenso e vias de cuidado em cardiotoxicidade.
Estratificação de risco basal — o pilar da ESC 2022
HFA-ICOS
Avaliar o risco de toxicidade CV em todos os pacientes antes do tratamento, com os formulários
HFA-ICOS, que classificam em baixo, moderado, alto ou muito alto risco.
Alto e muito alto risco → encaminhamento à cardio-oncologia. Os fatores incluem doença CV prévia, fatores de
risco, idade e o tipo/dose da terapia oncológica planejada. Isso define a intensidade da vigilância e influencia a escolha
do tratamento oncológico.
CTRCD — a definição padronizada
A ESC 2022, com a IC-OS, padronizou a disfunção cardíaca relacionada à terapia do câncer, incorporando strain
e biomarcadores para captar o dano subclínico antes da queda da FEVE.
Graus (definição IC-OS/ESC)
Sintomática (leve/moderada/grave, conforme sintomas de IC) e assintomática.
A assintomática é definida por: queda de FEVE ≥10 pontos para <50%; ou queda <10
pontos mas FEVE <50% com queda relativa do GLS >15% e/ou elevação de biomarcadores; ou FEVE
preservada com queda de GLS/biomarcadores (grau leve). Captar a fase subclínica é o objetivo do strain.
Ferramentas:GLS (strain longitudinal global) — cai antes da FEVE; troponina e peptídeos
natriuréticos na monitorização; RM cardíaca quando o eco é inconclusivo.
Vigilância por classe de fármaco
Classe
Padrão de toxicidade
Vigilância / prevenção
Antraciclinas
Dose-dependente e potencialmente irreversível (tipo I)
FEVE/GLS; troponina basal e após o ciclo. Cardioproteção com dexrazoxano, formulação lipossomal e limitação da dose cumulativa.
Anti-HER2 (trastuzumabe)
Disfunção geralmente reversível (tipo II), potencializada por antraciclina prévia
FEVE a cada ~3 meses durante o tratamento; troponina basal antes do anti-HER2 se houve antraciclina.
iVEGF / TKI
Hipertensão, disfunção de VE, eventos vasculares
Controle rigoroso da PA
iBCR-ABL, iproteassoma, iBTK
HAS, IC, arritmia (FA)
Vigilância clínica e ECG
Radioterapia torácica
Doença coronariana, valvar e pericárdica tardia
Seguimento de longo prazo do sobrevivente
Miocardite por inibidor de checkpoint — a toxicidade mais temida
Rara, mas de alta letalidade. Suspeitar em qualquer sintoma cardíaco novo sob
anti-PD-1/PD-L1/CTLA-4: dosar troponina, ECG, eco e RM cardíaca; confirmar com biópsia quando necessário.
Tratamento: corticoide em altas doses + suspensão do imunoterápico, com imunossupressão adicional nos
refratários. O reconhecimento precoce salva vida (ver também Capítulo 16).
Cardioproteção e manejo da disfunção
Antes/durante: controlar PA, dislipidemia e DM; considerar IECA/BRA + betabloqueador e/ou
dexrazoxano no alto risco sob antraciclina; estatina em selecionados.
Na CTRCD: tratar como IC (IECA/BRA-ARNI, betabloqueador, ARM, iSGLT2) e decidir sobre
continuar/interromper a terapia oncológica em conjunto com a oncologia — muitas disfunções (anti-HER2)
recuperam.
Sobreviventes: seguimento CV estruturado de longo prazo; reabilitação e atividade física.
Zona cinzenta — interromper ou não o tratamento do câncer
A decisão de suspender a terapia oncológica diante de CTRCD é compartilhada e não tem regra numérica única.
O risco de interromper um tratamento potencialmente curativo compete com o risco cardíaco — e a maioria das diretrizes
recomenda não interromper sem necessidade, tratando a disfunção em paralelo.
ESC 2020 — Sports Cardiology and Exercise in Patients with CVD. Eur Heart J 2020. Primeira diretriz formal.
AHA/ACC — Eligibility and Disqualification Recommendations for Competitive Athletes (séries científicas).
SBC — Diretriz de Cardiologia do Esporte e do Exercício · Critérios Internacionais de ECG do Atleta.
Avaliação pré-participação — o grande debate
ECG de rotina no rastreio: incluir ou não?
ESC e SBC incluem: história + exame físico + ECG de 12 derivações em atletas competitivos,
interpretado pelos critérios internacionais (que separam adaptação fisiológica de doença). AHA: história + exame físico (14 pontos); o ECG não é obrigatório em massa — por custo-efetividade
discutível e falsos-positivos. O foco americano é na qualidade do questionário e no sistema de resposta a emergências.
Coração de atleta × doença: adaptações fisiológicas incluem bradicardia, hipertrofia excêntrica leve e
alterações de repolarização benignas. A zona cinzenta é diferenciá-las de CMH, DAVD e miocardite — usar RM,
Holter, teste de esforço e genética.
Morte súbita no atleta
Causas por faixa etária
Jovem (<35 anos): cardiomiopatias (CMH, DAVD), canalopatias (QT longo, Brugada, TVPC), anomalias de
coronária, miocardite, valvopatia. Acima de 35 anos: predomina a doença coronariana. Prevenção na comunidade:DEA acessível e treino em RCP salvam mais do que qualquer rastreio em
massa.
Liberação para o esporte — a virada do modelo
Saímos da "proibição em bloco" para a decisão compartilhada: informar o risco e decidir junto com o atleta,
individualizando por condição.
Muitas condições antes de restrição absoluta hoje admitem esporte após avaliação e diálogo de risco — por exemplo, na
CMH a restrição relaxou (esporte de baixa/moderada intensidade e até competitivo em casos selecionados; ver
Capítulo 19).
Prescrição de exercício: a ESC 2020 prescreve exercício na maioria das cardiopatias — o
exercício é terapia, não apenas algo a liberar ou proibir. Estratifica o esporte por componente
estático × dinâmico e pelo risco da doença.
Pós-miocardite: afastamento e reavaliação antes do retorno (eco, RM, Holter, marcadores) — e aqui as
diretrizes divergem no tempo (Capítulo 16).
Canalopatias: evitar gatilhos específicos — natação e esforço na TVPC e no
QT longo tipo 1.
DAVD: o exercício acelera a doença — restringir esporte intenso (Capítulo 20).
ACC/AHA/HRS/ISACHD/SCAI 2025 — Management of Adults With Congenital Heart Disease. JACC/Circulation, dez/2025. Revisão completa que substitui a de 2018.
SBC/DCC-CP e SBP — referência brasileira e pediátrica.
Panorama
A cardiopatia congênita é o defeito congênito mais frequente (~1% dos nascidos vivos). Com o sucesso da
cirurgia, mais de 90% chegam à vida adulta — hoje há mais adultos do que crianças vivendo com CC.
No Brasil, estimam-se ~28–30 mil recém-nascidos/ano com CC; cerca de metade necessita de intervenção. O DCC-CP/SBC e a SBP
enfatizam a triagem neonatal por oximetria de pulso ("teste do coraçãozinho") e o diagnóstico fetal.
Transição de cuidados
A passagem do seguimento pediátrico para o adulto (ACHD) deve ser preparada e estruturada — muitos pacientes
se perdem do seguimento na adolescência, ponto de risco reconhecido por todas as diretrizes. Os desfechos são
melhores quando o adulto é acompanhado em centro ACHD.
Classificação
Duas lógicas complementares: a complexidade anatômica (define onde e por quem o paciente é seguido) e o
estágio fisiológico (define a intensidade da vigilância e o prognóstico).
ACC/AHA — sistema anatômico-fisiológico (AP): classe anatômica I–III + estágio fisiológico
A–D. A revisão de 2025 incorporou NT-proBNP, endocardite recente e hospitalização por IC ao
componente fisiológico.
Shunts esquerda→direita
O princípio comum a todas as diretrizes
Fechar o shunt hemodinamicamente significativo (sobrecarga de volume / Qp:Qs ≥1,5) na
ausência de RVP proibitiva. Fechamento é contraindicado na síndrome de Eisenmenger.
A avaliação invasiva da RVP é mandatória quando há sinais de hipertensão pulmonar.
CIA: a indicação de fechamento independe de sintomas quando há dilatação/sobrecarga de VD.
Apenas a ostium secundum é candidata a fechamento percutâneo — primum e seio venoso são cirúrgicas.
ESC: sobrecarga de VD e RVP <3 WU → fechar (I); 3–5 WU individualizar; ≥5 WU apesar de
tratamento: contraindicado. ACC/AHA 2025: fechar com shunt significativo e RVP ≤2 WU; muitos com
RVP >2 a <5 WU também são candidatos.
CIV: fechar com sobrecarga de volume de VE e Qp:Qs significativo, ou antecedente de endocardite,
sem RVP proibitiva. Atenção à insuficiência aórtica associada (prolapso de cúspide na CIV
subarterial/infundibular).
DSAV: forte associação com síndrome de Down (que evolui mais rápido para doença vascular
pulmonar). No adulto: regurgitação da valva AV esquerda ("cleft mitral"), arritmias e obstrução subaórtica residual.
PCA: ver Capítulo 31.
Lesões obstrutivas
Coarctação da aorta: intervir se gradiente pico-a-pico ≥20 mmHg (invasivo), ou HAS/colaterais
com estreitamento anatômico significativo (ESC: ≥50% do diâmetro da aorta ao diafragma). Stent é preferencial no
adulto. Vigilância vitalícia de aneurisma no sítio de reparo/stent; a HAS pode persistir mesmo após a correção.
Estenose valvar pulmonar:valvoplastia por balão é o tratamento de escolha —
gradiente pico ao Doppler >64 mmHg (Vmáx >4 m/s) ou sintomas/repercussão de VD. Boa evolução a longo prazo.
Válvula aórtica bicúspide: a CC mais comum. Ponto-chave é a aortopatia associada —
cirurgia da aorta ascendente ≥55 mm; ≥50 mm com fatores de risco (coarctação, HAS, história familiar, crescimento rápido).
A estenose subaórtica (membrana) tende a progredir e a lesar a valva aórtica.
Cianóticas e complexas
Tetralogia de Fallot (a cianótica mais comum): no adulto reparado, o problema dominante é a
insuficiência pulmonar crônica → dilatação/disfunção de VD, TV e risco de morte súbita. A decisão central é o
momento da troca valvar pulmonar (PVR).
Mudança-chave 2025
A ACC/AHA 2025 passou a orientar a PVR por volume sistólico final de VD (RVESV >80 mL/m²) e outras
métricas, em vez do volume diastólico final (RVEDV) usado antes — e incorporou a ablação de TV ao
manejo das arritmias. A ESC 2020 dava IIa a assintomáticos com dilatação progressiva (RVESV ≥80 e/ou RVEDV ≥160 mL/m²).
Transposição das grandes artérias: distinguir os cenários é essencial. Na D-TGA com switch
atrial (Mustard/Senning) e na ccTGA, o VD é o ventrículo sistêmico — sujeito a falência,
regurgitação da valva AV sistêmica e arritmias atriais. Na D-TGA com switch arterial (Jatene): vigiar neoaorta,
óstios coronarianos e estenose supravalvar pulmonar.
Anomalia de Ebstein: deslocamento apical da tricúspide, "atrialização" do VD, CIA associada e
vias acessórias (WPW). Cirurgia (reparo do cone) na IT grave sintomática ou disfunção progressiva de VD.
Fisiologia univentricular / Fontan: circulação em série sem bomba subpulmonar —
pré-carga dependente. Complicações multissistêmicas: arritmias atriais, tromboembolismo, enteropatia perdedora
de proteína, bronquite plástica e, sobretudo, doença hepática associada ao Fontan (FALD) — a diretriz de 2025
pede vigilância hepática anual e referência precoce a transplante.
Síndrome de Eisenmenger: shunt invertido D→E por doença vascular pulmonar avançada.
Fechar o defeito é contraindicado. Manejo clínico com terapia-alvo para HAP (ESC: antagonista do receptor de
endotelina se TC6min <450 m, combinando se não houver melhora). Evitar: depleção volêmica agressiva,
flebotomia de rotina, altitude, gestação (contraindicada), fármacos que reduzam a RVS. Filtro de ar em
acessos venosos (embolia paradoxal).
Temas transversais
Arritmias: causa maior de morbidade; baixo limiar para anticoagulação. Novidade 2025: em
pacientes complexos (VD sistêmico, Fontan), preferir controle de ritmo ao de frequência.
Endocardite: profilaxia reservada ao alto risco — próteses/material protético, EI prévia,
cardiopatia cianótica não reparada ou reparada com defeito residual/próximo a material protético (primeiros 6 meses).
2025: investigar EI diante de disfunção aguda/subaguda de biopróteses pulmonares.
Gestação: aconselhamento pré-concepcional e estratificação (mWHO). Contraindicada em
HP/Eisenmenger, VE sistêmico gravemente disfuncional, obstrução grave à esquerda, aorta muito dilatada.
Novidade 2025: a maioria das gestantes com CC pode ter parto vaginal com estratificação adequada.
Atividade física: recomendação individualizada, estimulando atividade em vez de restrição
generalizada.
IC e saúde mental: a IC é causa crescente de morbimortalidade; GDMT por extrapolação.
2025: rastreio de saúde mental e desfechos neurocognitivos como parte do cuidado.
Lacunas reconhecidas — a agenda de pesquisa 2025
Momento ótimo das reintervenções em defeitos moderados/complexos; cuidado geriátrico do adulto envelhecido; vias de saúde
mental; eficácia da GDMT em fisiologias específicas (ela é usada por extrapolação, não por evidência
própria); ferramentas de predição de morte súbita. As classes indicadas nos resumos aproximam o sentido das
diretrizes e variam conforme RVP, sintomas e anatomia.
ACC/AHA 2025 — seção inédita dedicada à PCA, com recomendações inteiramente novas.
SBC/SBP — perspectiva brasileira. Classificação angiográfica de Krichenko.
Anatomia e fechamento fisiológico
O canal arterial deriva do 6º arco aórtico esquerdo e conecta o tronco da artéria pulmonar à aorta descendente
(logo abaixo da subclávia esquerda). Na vida fetal, sua patência é mantida por baixa PaO₂ e prostaglandinas.
Fechamento funcional em 24–72 h de vida a termo (elevação da PaO₂ e queda das prostaglandinas);
fechamento anatômico em 2–3 semanas, formando o ligamento arterial. A persistência é favorecida por
prematuridade, hipóxia, rubéola congênita e altitude elevada.
Ducto-dependência — o erro grave
Em cardiopatias com fluxo sistêmico ou pulmonar dependente do canal (atresia pulmonar, coarctação crítica, SHVE), a
patência é salvadora — mantida com PGE₁ (alprostadil) até a intervenção.
Nunca fechar antes de definir a anatomia. Administrar AINE fechando um canal salvador é erro grave.
Fisiopatologia do shunt
Fora do contexto ducto-dependente, gera shunt esquerda→direita da aorta para a artéria pulmonar, presente em
sístole e diástole (a pressão aórtica é sempre maior).
Hiperfluxo pulmonar → sobrecarga de volume das câmaras esquerdas.
Roubo diastólico aórtico → pressão de pulso ampla, pulsos em martelo d'água; queda da perfusão coronariana,
mesentérica, renal e cerebral (crítico no prematuro).
Canal grande não tratado → doença vascular pulmonar progressiva → elevação da RVP → inversão do shunt →
Eisenmenger. Como o canal desemboca após a subclávia esquerda, surge a cianose
diferencial: poupa membros superiores e predomina nos inferiores.
Classificação e clínica
Por repercussão:silencioso (sem sopro; achado incidental) · pequeno (sopro
contínuo; câmaras normais) · moderado (sobrecarga de volume de VE; fechamento indicado) · grande
(IC/hiperfluxo, HP). Angiográfica (Krichenko) — orienta o dispositivo: A cônico (o mais comum) · B janela ·
C tubular · D complexo · E cônico alongado.
Sinais clássicos
Sopro contínuo "em maquinaria" (de Gibson) — região infraclavicular/subclávia esquerda, com reforço
tele-sistólico que cruza a 2ª bulha. Pressão de pulso ampla; precórdio hiperdinâmico.
Atenção: num canal grande com HP, o componente diastólico do sopro pode desaparecer (equalização
de pressões).
Diagnóstico
A ecocardiografia com Doppler é a pedra angular — confirma o canal, mede o calibre e avalia a repercussão.
No prematuro, marcadores de significância: diâmetro do PCA, padrão de fluxo, relação átrio esquerdo/raiz da aorta
(AE/Ao) e sinais de hipoperfusão sistêmica (fluxo diastólico reverso em aorta descendente). O
cateterismo fica reservado à medida invasiva da RVP (quando há HP) e à terapêutica.
O prematuro — a virada conservadora (AAP 2025)
A grande mudança da última década
Ensaios randomizados (PDA-TOLERATE, BeNeDuctus, Baby-OSCAR) não demonstraram benefício do fechamento
precoce/profilático. Portanto: não há benefício do fechamento profilático nem do fechamento medicamentoso precoce
(<2 semanas) versus manejo expectante — não recomendados.
Manejo expectante com monitorização próxima — conduta inicial para a maioria. Muitos canais fecham
espontaneamente (mais tardiamente quanto maior a imaturidade).
Fechamento farmacológico do hsPDA além de 2 semanas — é razoável tentar fechar um PCA hemodinamicamente
significativo após 2 semanas de vida. Ibuprofeno é o agente preferido (melhor perfil de segurança);
acetaminofeno e indometacina são alternativas aceitáveis. Até 2 cursos.
Fechamento procedimental se persistir — transcateter (ex.: Amplatzer Piccolo, cada vez mais
favorecido) ou ligadura cirúrgica. Decisão multidisciplinar.
Agente
Esquema usual
Observações
Ibuprofeno
10 mg/kg → 5 mg/kg (24h e 48h), IV ou VO
Preferido pela AAP. Não reduz o fluxo mesentérico/renal/cerebral como a indometacina. Cautela em oligúria, plaquetopenia, sangramento.
Acetaminofeno
15 mg/kg 6/6h por 3–7 dias, IV ou VO
Alternativa com perfil favorável (menos efeitos GI/renais); monitorar função hepática. Útil quando AINEs são contraindicados.
Indometacina
0,2 mg/kg → 2 doses de 0,1–0,25 mg/kg, IV a cada 12–24h
Eficaz, porém mais efeitos adversos: vasoconstrição renal/mesentérica/cerebral, ECN, sangramento.
Contraindicações aos inibidores da COX: sangramento ativo, plaquetopenia significativa, oligúria/insuficiência
renal, enterocolite necrosante e dependência do canal.
Zona cinzenta — causa ou marcador?
O PCA hemodinamicamente significativo (hsPDA) associa-se a displasia broncopulmonar, enterocolite necrosante, hemorragia
intraventricular e mortalidade — mas permanece incerto o quanto é causa direta versus marcador da imaturidade.
É essa incerteza que sustenta a virada conservadora.
Criança maior e adulto
Fora da prematuridade, o fechamento é quase sempre percutâneo (coil ou oclusor ductal — Amplatzer ADO/ADO II),
com excelente segurança. A cirurgia fica para anatomias desfavoráveis, calibre muito grande ou falha do dispositivo.
Canal com repercussão (sobrecarga de VE) e RVP não proibitiva → fechar — Classe I nas três
(SBC/SBP, ESC 2020, ACC/AHA 2025). ESC: RVP <3 WU; dispositivo é o método de escolha.
PCA pequeno, audível, sem sobrecarga → fechamento pode ser considerado pelo risco de endarterite
— IIa (ESC 2020 e ACC/AHA 2025).
PCA silencioso (sem sopro) → fechamento de rotina não recomendado; decisão individualizada
(IIb, ESC 2020).
RVP (com Qp:Qs >1,5)
Recomendação
Classe
<3 WU
Fechar
I
3 a 5 WU
Decisão individualizada em centro especializado
IIa–IIb
>5 WU (mesmo caindo <5 com terapia-alvo)
Decisão individual criteriosa, em centro especializado
IIb
≥5 WU persistente / Eisenmenger
Fechamento contraindicado
III
Endarterite infecciosa
A vegetação tende a se localizar na extremidade pulmonar do canal (jato de alta velocidade). O risco justifica
considerar o fechamento mesmo de canais pequenos audíveis; após um episódio de EI, o fechamento é indicado.
Eisenmenger: fechamento contraindicado quando há doença vascular pulmonar fixa com shunt invertido. Casos
muito selecionados de HAP grave (não Eisenmenger fixo) podem responder a terapia-alvo prolongada, com teste de oclusão e
reavaliação de RVP em centro especializado — estratégia de exceção ("treat-and-repair").
Colofão. Livro digital compilado em julho de 2026 a partir da coleção ESTUDOS do
Dr. Hugo Benchimol — 31 capítulos condensados de 37 arquivos-fonte distribuídos em 28 pastas temáticas.
Cada capítulo é uma síntese: preserva o essencial (definição, classificação, diagnóstico, tratamento) e
privilegia as divergências entre ESC, ACC/AHA e SBC e as zonas cinzentas. Todo o conteúdo deriva dos
resumos originais desta pasta — nenhuma classe de recomendação, nível de evidência, corte numérico ou nome de ensaio foi
acrescentado de fora deles. Onde o resumo original era vago ou explicitamente ressalvado, esta condensação manteve a mesma
cautela.
Material de estudo pessoal. Não substitui a leitura integral das diretrizes nem o julgamento clínico.
Antes de aplicar à beira do leito, em prova ou em publicação, confira classes de recomendação, níveis de evidência, cortes
numéricos e doses nos documentos-fonte originais.